Ao contrário da elevada importância que a generalidade da população atribui às questões da saúde, este não foi infelizmente um dos temas centrais da campanha eleitoral dos atuais governantes locais em Gaia. Mas o tempo, a realidade e as circunstâncias acabaram por colocar na ordem do dia este importante tema, que acabou por se tornar na numa das raras questões que ao longo dos primeiros seis meses deste mandato uniu todos os eleitos das últimas “autárquicas”. Tal aconteceu quando o governo tentou desclassificar o serviço de pediatria da Unidade Local de Saúde Gaia/Espinho (ULSG/E), o que gerou uma tomada posição conjunta do executivo (PSD-CDS-IL) e da vereação do PS, iniciada com a enérgica contestação do vereador João Paulo Correia, seguida quase de imediato por uma veemente mensagem do presidente da Câmara nas redes sociais, dirigida à ministra da Saúde.
“Informe-se senhora ministra e, se faz favor, tranquilize de imediato os autarcas, os profissionais de saúde e os cidadãos destes dois grandes concelhos” – escreveu Luís Filipe Menezes, recordando que aquando da nomeação da nova administração da ULSG/E existiram boatos, nos quais se recusou a acreditar, de que em causa estava “um grupo de pessoas” (Sic) que tinham a incumbência de desvalorizar a oferta de saúde em Gaia. “Não acreditei nem acredito. No entanto, estou à espera de uma resposta vigorosa desses responsáveis”, escreveu Menezes, fazendo um apelo à ministra: “Informe-se e afirme de imediato que não consentirá essa decisão sem sentido técnico nem político”, acrescentando de seguida: “Esta decisão é inaceitável e vergonhosa e terá a nossa dura oposição”. E pediu “uma reunião com a Administração da ULSG/E para compreender a extensão do problema”.
E logo o presidente do Conselho de Administração da ULSG/E veio afirmar que não se afigurava adequado retirar qualquer valência nas áreas de pediatria, neonatologia e obstetrícia. E explicava: “Não faz sentido nenhum deixarmos de ser aquilo que somos hoje. Somos um centro que tem uma pediatria, uma neonatologia e uma obstetrícia de elevado nível e qualidade. Temos cirurgia pediátrica, temos os cuidados todos necessários para dar resposta à nossa população. Falta-nos, de acordo com a grelha que saiu, um pequeno ponto, uma unidade de cuidados intermédios pediátricos. Sobre isso, temos o firme compromisso que em 2026 vamos ter unidade de cuidados intermédios pediátricos”. Mas apesar destas afirmações, o executivo aprovou por unanimidade uma moção, do PS, contra a desclassificação do serviço de pediatria da ULS G/E: “A concretizar-se a intenção do ministério da Saúde, Gaia perderá valências diferenciadas, o que causará um impacto negativo a milhares de utentes, que serão forçados a deslocar-se ao Porto para consultas e tratamentos que atualmente são feitos em Gaia”, realçou João Paulo Correia, que se opôs à desclassificação do serviço a favor das ULS Santo António e São João, vincando que, além de mais custos diretos e mais tempo de viagem, os utentes perderiam qualidade na prestação do serviço, lembrando que as duas unidades da Invicta têm os “serviços saturados”, o que “significa que os gaienses seriam ainda prejudicados por tempos de espera insuportáveis”.
E pouco despois surgia a notícia tão desejada: “a pediatria não será desclassificada, porque cumpre de forma consistente os requisitos nacionais definidos para esta tipologia de serviços”! Mas eis que, mais tarde, a ULSG/E seria confrontada com a possibilidade de vir a perder o serviço de cardiologia, resultante da intenção do governo de criar um centro de cirurgia cardíaca na ULS Santo António o que voltou a unir o executivo e vereadores do PS, com João Paulo Correia a protestar veementemente contra mais uma tentativa de diminuição das capacidades de resposta da ULSG/E. E Luís Filipe Menezes afirmou estar pronto a tomar posições “agradáveis ou desagradáveis” relativamente a qualquer ministro, garantindo que a ULS/GE não perderá as valências de cirurgia cardiotorácica. Acontece, porém, que algum tempo depois a comunicação social faz saber que a secretária de Estado da Saúde, Ana Povo, afirmou que a ULS Santo António reúne condições para ser um centro de saúde afiliado para a colocação de válvulas aórticas percutâneas, o que pode indiciar que a ULSG/E venha a perder o serviço de cardiologia, exigindo de novo uma reação enérgica dos autarcas de Gaia.
Estes primeiros seis meses de governação do novo ciclo autárquico em Gaia têm sido caracterizados por forte tensão e divergências entre o executivo e a oposição socialista, gerando um ambiente pouco propício à concertação de políticas, pelo que não posso deixar de registar estes momentos em que uns e outros estiveram do mesmo lado, defendendo os interesses do concelho e da população gaiense. Situação que se repetiu quase a fechar o período em balanço, quando executivo e oposição decidiram em unanimidade anular o concurso público de concessão da utilização do espaço de domínio público para a instalação e operação de um sistema partilhado de perto de mais duas mil trotinetas. Nada tenho contra este meio suave de transporte, antes pelo contrário, desde que seja objeto de uso moderado e circule apenas em pistas dedicadas, garantindo a segurança de utilizadores e transeuntes.
E assim termino o primeiro balanço deste novo ciclo autárquico, na esperança de que no futuro próximo haja mais políticas concertadas entre executivo e oposição, fundamentais para a estabilidade, a eficácia e a legitimidade democrática, sobretudo em matérias estratégicas de interesse para a população e essenciais para o desenvolvimento do município.


