Um novo ciclo autárquico arranca nos próximos dias em Gaia, com a tomada de posse dos novos autarcas eleitos no passado dia 12 de outubro, com natural destaque para o regresso de Luís Filipe Menezes (LFM) à Casa da Presidência do município, após um interregno de 12 anos, interrompendo assim três mandatos consecutivos com maioria absoluta do Partido Socialista, o que se reflete também em cerca de 2/3 das freguesias, onde a coligação PSD/CDS/IL derrotou toda a concorrência. A este resultado não será estranha uma leitura positiva da obra realizada por LFM nos seus primeiros mandatos (1997-2013), pese embora as repetidas acusações dos seus opositores de ter deixado a Câmara “atolada num caos financeiro, e atravessada por vários processos judiciais indemnizatórios, devido a uma gestão irresponsável”, com as empresas Águas de Gaia e Gaiurb “em rutura financeira”.
O ex-presidente da edilidade, Eduardo Vítor Rodrigues, recordou aliás, em carta aberta dirigida aos munícipes, que aquele alegado descalabro financeiro está reconhecido em diversos documentos oficiais públicos, como o Anuário Financeiro dos Municípios Portugueses e os resultados de Auditorias do Tribunal de Contas. A ser isto verdade, espera-se que LFM não volte a repetir tal “façanha”, o que pode comprometer de forma inexorável o crescimento e desenvolvimento sustentável do concelho nos anos que se seguirem ao(s) seu(s) mandatos. Espera-se, por isso, que o cumprimento do seu vasto pacote de promessas eleitorais assente numa governação de “contas certas” que não penalize no futuro os gaienses (outra vez!?). E, por falar nessas promessas, saliente-se que só uma delas exige um esforço financeiro avultadíssimo, que pode sacrificar a implementação de outras medidas essenciais.
Estou a referir-me a uma das muitas promessas que LFM salienta como prioritárias, em áreas como a mobilidade e o mapa rodoviário, onde promete fazer uma verdadeira “revolução” com a criação de novas vias de trânsito, como a construção da VL10, a cruzar a cidade desde o nó de acesso à ponte do Freixo em Oliveira do Douro até ao nó do Hospital Santos Silva – cruzando as freguesias de Oliveira do Douro e Vilar do Paraíso –; da avenida de Santo Ovídio até à orla marítima; da VL11, entre Canelas e Grijó; e da ligação da avenida José Maria Pedroto aos Carvalhos e daí até à orla marítima pela rua 25 de abril. E esta promessa não deixará de ser cobrada pelos seus eleitores, na convicção de que não deixará de ter sido em conta a implementação de um projeto de mobilidade que crie mais ligações de transporte público dentro do concelho, com conexões interfreguesias e com os municípios vizinhos e o metro, além de transportes a pedido para pessoas com necessidades específicas.
Enquanto isto, a população gaiense vai sofrendo na pele com horários irregulares, paragens precárias e veículos desconfortáveis de empresas que assumiram o compromisso de garantir, desde dezembro de 2023 e durante dezoito anos, uma rede de transporte público rodoviário de qualidade, através de “uma nova forma de mobilidade, materializada numa nova frota, mais linhas, mais horários, maior cobertura, mais conforto e mais amiga do ambiente”. E não são apenas os cidadãos em idade ativa que se deslocam diariamente para os seus empregos ou os cidadãos seniores com necessidade de deslocação frequente a serviços médicos e sociais que enfrentam este verdadeiro pesadelo. Também os mais jovens, em idade escolar, a frequentar o ensino básico, secundário ou universitário, enfrentam estas dificuldades, utilizando, por isso, muitos deles (os adolescentes) viatura própria ou familiar.
A viatura familiar, conduzida por um dos progenitores, é, aliás, o transporte utilizado pela maioria dos alunos do ensino básico e secundário que não têm ligação direta de nenhum transporte público aos respetivos estabelecimentos de ensino. E dos que têm essa ligação em modo rodoviário, apenas uma reduzida percentagem opta por esse meio de transporte em virtude das constantes omissões e atrasos no cumprimento de horários, uma realidade que é mais notória nas zonas periféricas do concelho. Importa, por isso, resolver rapidamente esta questão, assumindo também, neste caso, não só a cobertura total do concelho com uma rede de transportes públicos adequada, bem como a criação de outras opções, como o reforço do transporte escolar dedicado e de transporte adaptado para alunos com necessidades especiais.
Além dos problemas de mobilidade que representa, esta situação transporta grandes prejuízos para o bem-estar físico e saúde das crianças e jovens. Segundo alguns estudos recentes, a dependência automóvel nestas faixas etárias é a causa de obesidade e de outras complicações de saúde na chegada à idade adulta, já que as crianças e jovens que se deslocam maioritariamente de carro nas suas viagens tornam-se menos independentes. E para além de perderem o contacto com outros colegas e vizinhos, pode haver atraso no desenvolvimento emocional e cognitivo, que retiram das relações sociais e da interação com o ambiente construído (distribuição e evolução do uso do solo, dinâmicas territoriais e a vizinhança).
O que significa que precisamos também de mais espaços para brincar e não falo apenas de parques infantis (que são, de facto, poucos e, na sua maioria, desinteressantes), mas também de espaços apropriados à (segura e lúdica) circulação de crianças: passeios largos, ciclovias, espaços de encontro nas imediações das escolas, ruas pedonais e condições para que os trajetos casa-escola sejam muito menos contaminados, perigosos e stressantes.


