TAMBÉM POSSO FAZER PREVISÕES PARA 2026? ENTRE FALSAS PREVISÕES E SINAIS EVIDENTES

Todos os anos, como um ritual que se repete, surgem tarólogos, videntes, astrólogos, bruxos e afins, munidos de cartas, estrelas e bolas de cristal, a anunciar o que o futuro nos reserva.

           Prometem anos de prosperidade, mudanças positivas e reviravoltas milagrosas, porque os astro estão alinhados e os chakras prometem. Agora já são as mães de santo, os professores tão populares noutros países, com anúncios pomposos nos jornais, prometem tudo e os incautos vão em conversas floreadas gastando muitas vezes fortunas para nada. No entanto, a realidade tem sido implacável: quase todas as previsões falham. Não porque o futuro seja imprevisível, mas porque insistimos em ignorar os sinais evidentes do presente e continuamos a acreditar na banha da cobra..

          Eu não sou vidente, nem pretendo sê-lo. Mas, olhando para o mundo que construímos, não consigo prever nada de bom. Continuamos a massacrar o meio ambiente de forma irresponsável, explorando recursos como se fossem infinitos. A Mãe Natureza, essa, não faz previsões: responde. E tem respondido de forma atroz, através de catástrofes climatéricas cada vez mais frequentes, chuvas torrenciais, tempestades violentas, cheias e deslizamentos que destroem vidas e economias.

          O impacto destas alterações será sentido de forma desigual, mas inevitável. Paraísos turísticos, como a Madeira, poderão assistir a uma quebra significativa na afluência de visitantes. Quem mais sofrerá serão os pequenos operadores: alojamentos locais, empresas de rent-a-car, restaurantes e serviços que dependem quase exclusivamente do turismo que nos dias de hoje acampa em qualquer lado, até dentro dos próprios carros e alimenta-se dos supermercados.    Também o Governo Regional sentirá o golpe, confrontado com pedidos de subsídios e apoios para empresas em dificuldades, num ciclo já bem conhecido.

          Curiosamente, neste cenário sombrio, haverá quem beneficie. Os grandes hipermercados continuarão a lucrar, como acontece em tempos de crise. E, quem sabe, os próprios madeirenses poderão sentir algum alívio se as rendas baixarem devido ao aumento da oferta habitacional resultante da retracção turística. Um “benefício” que nasce, ainda assim, de um problema estrutural profundo.

          Mas o quadro geral é preocupante: mais pobreza, mais sem-abrigo, mais desemprego, enfim, uma sociedade cada vez mais desigual, onde muitos sobrevivem enquanto poucos prosperam, resumindo ricos cada vez mais ricos e pobres cada vez mais na miséria e muitas vezes escondida na vergonha.

          Este não é um cenário traçado por cartas ou signos, mas por factos acumulados, decisões adiadas e responsabilidades ignoradas.

          Nada de bom auguro para 2026. E, sinceramente, gostaria de estar enganado. Que Deus permita que esteja. Porque ainda vamos a tempo de mudar o rumo se tivermos a coragem de abandonar ilusões e enfrentar a realidade com seriedade, consciência e humanidade.