Deolinda de Oliveira e Silva completou 100 anos de vida e continua a ser um rosto familiar nos Carvalhos, em Vila Nova de Gaia. Antiga comerciante, construiu ali a sua história entre a mercearia e a Garrafeira Feira Velha que marcaram gerações. Entre recordações de trabalho, amor e fé, celebrou um século de vida, com a serenidade de quem viveu plenamente. Entre memórias que resistem ao tempo, a centenária falou, em entrevista exclusiva ao AUDIÊNCIA, sobre o seu percurso de cem anos marcado pela dedicação à família e à terra à qual sempre chamou casa.
Onde nasceu e como descreve a sua infância?
Eu nasci em Paços de Brandão e vim para os Carvalhos com quatro ou cinco anos. A minha infância foi boa. Na altura, a vida não era fácil, mas fui muito feliz.
Que memórias guarda da escola, dos amigos e da vida familiar?
Naquela época tinha a minha mãe, que era a pessoa que me acompanhava. Também, tinha uma irmã, mas vivia com os avós. Fiz a escola, passei no exame e tive uma vida de trabalho, sempre a par da minha mãe, que tinha um estabelecimento de sucatas. A minha mãe também fazia sacas de papel e eu segui isso ainda durante algum tempo. Naquele tempo era tudo avulso e quando isso foi ultrapassado estabeleci-me com uma mercearia. O meu marido também fazia parte da minha vida e tinha o seu negócio e passados uns anos a Mercearia dos Carvalhos foi convertida na Garrafeira Feira Velha.
Como é que conheceu o seu marido?
O meu marido era de Perosinho e quando veio para os Carvalhos nós começamos a namorar. Depois, foi para a tropa, onde esteve dois anos, e quando ele regressou nós casamos e seguimos a nossa vida aqui. Na altura, os Carvalhos eram o centro desta zona do concelho e era um centro muito bonito. Nós tivemos três filhos, infelizmente atualmente só tenho dois vivos, e tenho sete netos e oito bisnetos. Tenho 100 anos, mas estou feliz.
Que sonhos tinha quando era jovem?
Na altura, trabalhávamos tanto, que nem pensávamos nos sonhos, mas era feliz, o que era mais importante.
Qual foi o momento mais marcante da sua vida?
Foi quando o meu marido faleceu, há 38 anos. Eu diria que foi o pior momento para mim e ainda hoje é, mas tudo vai passando. Tudo tem de ser um fim, mas eu fui muito feliz. Foi o homem da minha vida. Posso dizer que tive sorte no meu casamento, mas, infelizmente, não durou muitos anos, porque o meu marido teve uma doença muito grave, cancro, mas naquela altura foi mesmo muito difícil, porque a medicina não estava tão evoluída. Se fosse hoje, talvez fosse melhor, mas naquele tempo foi realmente difícil. Depois da morte do meu marido, eu vivi bem, graças a Deus, porque os meus filhos acompanharam-me sempre e sempre fui feliz com eles.
Ao longo de cem anos de vida, viveu tempos de guerra e paz. Como descreve os momentos vivenciados em grandes acontecimentos históricos?
Com trabalho e com esforço, nós fomos superando todas as dificuldades e fomos vivendo.
Já visitou muitos países. Fale-me sobre as suas viagens.
O primeiro país foi o Brasil, juntamente com o meu marido. Ele já estava doente, mas ainda me acompanhou, porque tínhamos lá família. Depois dele falecer estive dois anos sem sair, mas mais tarde como havia um padre do Seminário dos Carvalhos, que fazia passeios, nos quais participavam várias pessoas amigas, acabei por ceder e fui à Terra Santa, fui ao Egipto, a Itália, à Grécia, à Turquia e a Marrocos. Nós passeávamos bastante, até que o padre teve um acidente, quando regressava de Fátima, e faleceu. Eu gostava muito de visitar os monumentos e de conviver, pois ajudava a esquecer um pouco a minha tristeza.
Qual é o segredo para viver cem anos com saúde e alegria, apesar das fatalidades da vida?
Não sei explicar, porque se estou assim a Deus o devo.
Quais são os desejos para o futuro da sua família?
Muita felicidade.
Que mensagem gostaria de deixar aos nossos leitores?
Eu desejo muita felicidade, paz e saúde.


