A poucos meses de deixar o cargo que ocupa há quase 12 anos, Dário Silva, presidente da Junta de Freguesia de Oliveira do Douro, fez uma retrospetiva destes seus três mandatos e do que conseguiu conquistar para a freguesia que tanto admira. Dando enfoque à participação, colaboração e interajuda que a Câmara Municipal de Gaia, na pessoa do seu presidente, Eduardo Vítor Rodrigues, tem vindo a desenvolver não só com Oliveira do Douro, mas com todas as freguesias do concelho, Dário Silva não poupa elogios e acredita que o concelho só tem a beneficiar com a renovação do atual autarca. Já para a freguesia que ainda preside, Dário Silva não tem dúvidas que o projeto, que começou com José Candoso, passou por Eduardo Vítor Rodrigues e por ele próprio, deve continuar agora com Filinto Lima, o candidato que o ainda presidente apoia e que pede aos oliveirenses para que apoiem também.

 

 

Qual o seu percurso no mundo da política local, mais especificamente desde 2009, quando tomou posse como presidente da Junta de Freguesia de Oliveira do Douro?

Esse é um percurso intermédio, porque efetivamente entrei para a vida autárquica no ano de 1997, altura em que fui convidado pelo falecido José Candoso, presidente da Junta de Freguesia da altura, para fazer parte da Assembleia de Freguesia de Oliveira do Douro. Na altura, fiz parte das listas do PS, mas longe de mim pensar que passados quatro anos o bichinho ia ficar e ia-se consolidar, e na altura em que o candidato passou a ser Eduardo Vítor Rodrigues convidou-me para fazer parte do elenco do executivo, e acabei por fazer dois mandatos com ele. Depois, quando ele saiu, acabou por ser uma sucessão normais, embora não haja sucessões monárquicas nem hereditárias, mas acho que o caminho também se proporcionou para que fosse eu. Acho que apesar de tudo as pessoas reviram-se quer no trabalho do Eduardo Vítor Rodrigues, quer da minha própria pessoa, e acabaram por achar uma transição natural a passagem de um para o outro, e prova disso foi que ganhamos logo à primeira com maioria e ao longo destes dois últimos mandatos acabamos por vir a reforçar essa maioria e o meu envolvimento na freguesia acabou por ser substancialmente maior.

 

Como foi o seu primeiro dia como presidente de Junta?

Quando assumi as funções de presidente já tinha oito anos de trabalho autárquico e de vida no executivo da freguesia. Mas o facto de ser presidente é sempre uma experiência diferente, ou seja, por muito que queiramos dizer que temos experiência, quando acordamos de manhã e chegamos aqui a sensação com que as pessoas nos olham é diferente. É uma sensação boa, por um lado, porque significa que houve um reconhecimento por parte daqueles que trabalhavam e que a população de alguma forma também se reviu na personalidade e no trabalho, mas ao mesmo tempo um sentimento em que nos faz pesar nos ombros de termos uma responsabilidade diferente. Não que fazendo parte de uma equipa não tenhamos responsabilidade mas não deixa de ser verdade que o presidente é o rosto principal da equipa e quando a coisa corre bem tudo bem, a gente divide os louros por todos, mas quando a coisa corre mal corre mal para o presidente. Portanto, nesse aspeto a minha entrada na Junta, apesar de triunfal, foi uma entrada consciente das dificuldades, até porque as íamos atravessar, foram tempos muito difíceis porque tínhamos acabado de viver quatro anos muito difíceis com o Dr. Luís Filipe Menezes em que houve ali um período de discriminação para com 5 Juntas do PS, e quando entramos tínhamos aquela marca e as dificuldades que tinham sido geradas de cinco anos de ostracização que deixaram marcas e que eram precisos, de alguma forma, saber gerir. Lembro-me perfeitamente quando entrei na Junta e quando as funcionárias me vieram saudar, particularmente a dona Fátima, que já não está cá connosco, reformou-se entretanto, e ela dizia “oh Dr. Você meteu-se numa…” e nunca mais me esqueço das palavras dela e disse-lhe que com ela e o resto do pessoal íamos ultrapassar aquilo e fazer uma grande equipa e um grande trabalho. Apesar de tudo, senti o estímulo e o carinho das pessoas que foi muito importante e que de alguma forma se foi cultivando ao longo destes últimos 12 anos e que me deixa particularmente feliz.

 

Nestes 12 anos, qual foi o momento mais importante para si?

Não consigo elencar um mas diria que há um momento para mim que é extraordinário porque apesar de tudo marca o meu percurso como autarca e marca o meu percurso na política. Não posso dissociar uma coisa da outra. Acho que a vitória na Câmara Municipal por parte do PS, nomeadamente do Dr. Eduardo Vítor Rodrigues, para mim foi um dos momentos mais marcantes da história da freguesia e para mim enquanto autarca, porque eu iniciei um percurso com ele, iniciamos um percurso muito difícil numa altura em que a oposição era poder e onde nós tivemos de lutar muito e fazer acreditar os gaienses que tínhamos um projeto diferente. Apesar de tudo, aqui na freguesia, tínhamos uma situação diferente, o PS sempre ganhou as eleições em Oliveira do Douro, mas faltava-nos algo, ou seja, um trabalho de complemento, de articulação, que passava naturalmente pela conquista da Câmara. E eu acho que esse foi um momento muito importante porque quando comparamos os 4 anos da liderança PSD enquanto fui presidente e os últimos oito anos enquanto presidente do PS e como presidente da Junta de Freguesia, são oito anos completamente diferentes. Eu diria que não por sermos da mesma cor política, embora isso também possa ajudar e possa ser um argumento, mas sobretudo porque os presidentes de Junta passaram a ser tratados com equidade, e esse mérito ninguém pode tirar ao Dr. Eduardo Vítor Rodrigues. E a melhor prova disso foi que no primeiro mandato dele, tivemos dois presidentes de Junta que foram eleitos pelo PSD que foram ao púlpito da Assembleia Municipal dizer o que estou a dizer agora, que finalmente tinham um presidente que os tratava da mesma forma, sem diferenciações. Os 15 presidentes eram tratados de maneira igual e finalmente eram atendidas as prioridades que os presidentes achavam que eram importantes para as suas freguesias e não aquilo que a Câmara queria impor aos presidentes. E acho que esse foi um momento determinante porque isso marca definitivamente aquilo que é o projeto de desenvolvimento da própria freguesia que temos vindo a assistir ao longo destes últimos tempos, com a requalificação da frente rio, com a requalificação de arruamentos estruturantes para a freguesia, com a requalificação do edifício sede, com o alargamento do Parque da Lavandeira para mais de 40 mil metros quadrados, com o nascimento do Centro Cívico da freguesia, com todo um conjunto de outros serviços que beneficiamos também, o Hospital que é uma bandeira extraordinária, a própria linha do metro que também vai servir o extremo da freguesia, o metrobus, ou seja, estamos a falar de um conjunto de projetos estruturantes para a freguesia que eu acho que só foram possíveis porque temos um homem que efetivamente tem uma sensibilidade diferente para o concelho.

 

Falando agora sobre o fim que se aproxima, considerando que estamos a poucos meses do final do seu último mandato, qual o balanço que faz destes 12 anos?

Ser advogado em causa própria é difícil porque quando fazemos nós o próprio balanço podemos ter tendência para dourar a pílula e as pessoas acharem precisamente o contrário. Mas, apesar de tudo, acho que há uma coisa que temos de aferir. A população votou, e teve oportunidade de me eleger três vezes, e cada vez que me elegeu, foi com reforço da votação, por isso acho que significa um sinal de confiança e um reconhecimento pelo trabalho e dedicação que eu e a minha equipa temos tido ao longo destes 12 anos. Portanto, tenho um sentimento de gratidão para todo o sempre à freguesia de Oliveira do Douro, aqueles que votaram em mim mas também aqueles que não votaram mas para os quais eu também trabalhei, porque eu nunca fiz essa distinção, para mim, são todos oliveirenses. E o sentimento que levo é que foi um privilégio, é uma experiência que levo para o resto da minha vida poder ter servido a minha freguesia com esta paixão, com esta dedicação que acho que, apesar de tudo, todos me reconhecem. Passei mais tempo na Junta de Freguesia do que em minha casa, portanto, quando deixo de dar aulas, venho primeiro à Junta antes de ir a casa. Portanto, ao longo destes muitos anos que aqui estou eu via isto não como minha casa no sentido de aproveitar o que está aqui, mas no sentido de perceber que há sempre alguém que precisa, há sempre qualquer coisa que podemos fazer todos os dias de diferente e para melhor das pessoas. Não pode haver reconhecimento maior do que as pessoas me dizerem que acham mal eu ter de ir embora.

 

De que forma é que os oliveirenses vão poder continuar a contar consigo?

De muitas maneiras, eu tenho um histórico, aliás, o AUDIÊNCIA já me reconheceu enquanto dirigente associativo, porque eu praticamente já passei um bocadinho desde o movimento associativo de pais, pelas mutualidades, pelo associativismo, ou seja, tenho um histórico na freguesia e no concelho, de participação do ponto de vista associativo. E da minha parte estarei sempre disponível para aquilo que a freguesia entender que são projetos determinantes e cuja minha experiência ou o meu humilde saber, no dia em que entenderem que eu posso ser uma mais-valia para isso eu estarei sempre disponível como até aqui. Acho que temos todos esta obrigação de deixarmos um bocadinho aos outros e sobretudo deixar mais do que nos deixaram a nós. E isso não significa, necessariamente, que tenha de ser bens materiais, nem físicos, mas que possa ser o nosso contributo enquanto cidadãos e este dever de cidadania que todos devemos ter e cultivar, portanto, a freguesia saberá sempre que estou disponível para o que for preciso.

 

Como descreve este último mandato que foi marcado pela inesperada pandemia e como isso influenciou a sua governação?

Quando me candidatei há quatro anos, pensei que era o momento de gáudio, que iam ser quatro anos fabulosos, os melhores da vida autárquica e que ia sair em grande. Mas na vida não podemos prever nada, está mais que provado, e, se calhar, ainda bem que assim o é, embora nestes casos seja pelo aspeto negativo. E este foi, efetivamente, um mandato extremamente difícil, do ponto de vista de gestão autárquica, com um inimigo que não conseguimos ver, que abalou os pressupostos de confiança das pessoas, que nos trouxe desconfiança e medo, a doença, a morte, tivemos, infelizmente, muitos oliveirenses que faleceram com a COVID-19, e o ter que gerir este inimigo que não se conhece e repentinamente a instituição que deixou de conseguir dar resposta ou deixou de ter dinheiro para comprar equipamentos, ou a pessoa que aparece aqui e não tem dinheiro para alimentar os filhos, ou para pagar a renda da casa, numa altura em que vínhamos de uma conjuntura altamente positiva, parece que o mundo nos cai todo em cima. Mas acho que aqui, o nosso timoneiro foi fundamental porque conseguiu congregar os 15 presidentes de Junta, formamos uma equipa sólida juntamente com a Câmara e honestamente acho que soubemos estar à altura dos desafios, procurando encontrar o máximo de respostas possíveis para as pessoas, e ao longo deste ano e meio conseguimos fornecer refeições às pessoas, fazer compras à mercearia, fazer compras à farmácia, garantir apoios para a renda, água e luz, garantir routers e acessos à internet para as escolas, apoio ao isolamento, garantimos teleassistência, fizemos um conjunto de respostas que acho que, efetivamente, foram uma resposta boa para este problema, obviamente tendo a noção de que não resolve até porque muito do mal ainda está para vir. Creio que esta questão do fim das moratórias trará um novo desafio e a partir de setembro teremos um outro tipo de problemas e acho que a Câmara tem essa perceção também e haverá respostas para isso. Mas veja-se a quantidade de respostas que foram criadas neste período, como o apoio ao cuidador, a questão do acesso ao arrendamento mais barato, ou seja, há um conjunto de respostas muito significativas que a Câmara e nomeadamente as Juntas a reboque e em parceria com a Câmara fomos capazes de colocar em prática. Este mandato tem esta grande vicissitude da questão da pandemia mas tem outra também importante que foi a própria gestão no início, a questão da negociação dos acordos de execução com a Câmara por via da alteração da lei, a questão da descentralização das competências, ou seja, há aqui um rebuliço legislativo que nos obriga a reposicionar-nos de maneira diferente e temos que negociar com a Câmara porque o facto de sermos do mesmo partido não significa que não tenhamos de ter capacidade reivindicativa e não façamos ver as perspetivas dos autarcas de freguesia junto do presidente da Câmara. Nem sempre estamos de acordo, temos diferenças de opinião acerca das coisas, mas é dentro da discussão que conseguimos encontrar as soluções. E acho que isso também foi um desafio do mandato. E, por fim, apesar de tudo isto, acho que é possível chegarmos ao final do mandato e fazermos um balanço positivo porque apesar de todas estas dificuldades é possível chegar ao final e conseguimos apresentar cerca de 30 arruamentos requalificados, uma obra de largos milhões de requalificação da frente rio, um pavilhão multiusos que está adjudicado na freguesia, uma linha de metrobus que está adjudicada e que vai revolucionar os transportes na freguesia, um centro cívico que está adjudicado e que já arrancou e que vai também revolucionar o centro da freguesia, e mais um conjunto de respostas que podia citar que no meu entender denotam que houve boa gestão, que houve rigor, transparência, e que provou, mais uma vez, que é o que o presidente da Câmara tem feito, que é possível termos as contas em dia e conseguirmos fazer investimento.

 

Já falou sobre algumas das obras que deixa na freguesia, mas há alguma que gostasse de concretizar e que não sabe se será possível ou que não vai ser de todo possível?

Nós fizemos um planeamento de intervenção para este mandato, e diria que, relativamente a este mandato, as grandes obras ou estão concluídas ou estão em processo de tramitação. Independentemente de toda a importância social que damos, da dimensão do trabalho social, acho que apesar de tudo temos uma freguesia dotada de dois lares, de três creches, de dois centros escolares, uma escola secundária que vai ser requalificada agora, esteve cá o Ministro e vai ser retirado o amianto e está já prometido o processo de concurso para a requalificação da escola que era um anseio há muitos anos, por isso, temos tido possibilidade de concretizar muitas obras. Confesso que tenho uma paixão particular que é esta do centro cívico que me dá particular prazer porque tínhamos uma freguesia onde reunimos os equipamentos principais e particularmente nesta zona temos a Junta de Freguesia, o Centro de Saúde, a divisão alargada da esquadra, temos um complexo desportivo, a Igreja Matriz e o cemitério, mas faltava-nos um ponto de encontro, um sítio que fosse o centro da freguesia. E esse era o desígnio que queríamos muito e conseguimos sensibilizar o presidente, que foi completamente recetivo desde o início, e temos particular prazer porque foi muito lutado, tivemos que negociar a aquisição dos terrenos, convencer a Câmara a comprar os terrenos, depois o próprio projeto que foi desenvolvido com a Câmara mais a obra de requalificação que vem para esta zona acho que vem revolucionar este bocadinho que será o grande centro da freguesia. E depois, ainda por cima, ficar associado a um nome tão importante como o do José Candoso, que é um modelo de autarca em Vila Nova de Gaia, é algo que me dá particularmente prazer. Não queria distingui-la das outras, todas foram importantes, mas a seu tempo. Uma obra que, para mim, é marcante é a construção do complexo desportivo do clube de futebol porque desde que me conheço na vida autárquica, desde 1997, ouço falar que o FC Oliveira do Douro ia ter um estádio. E ele conseguiu inaugurar no mandato anterior, portanto, foram precisos mais de 20 anos para conseguir almejar esse sonho. E hoje está ali, é uma obra de referência, e sinto que também dei o meu contributo para que aquilo fosse possível. Obviamente que o clube, o João Paulo Correia teve um papel determinante como presidente do clube, mas também sinto que o apoio da Junta foi determinante em todas as etapas, desde a primeira etapa em que tínhamos uma amostra de campo, até chegarmos agora à parte final onde temos, efetivamente, um complexo desportivo que orgulha a freguesia. Este pequeno somatório das grandes e, por vezes, das pequeninas obras que alteram a vida das pessoas, é o que faz um mandato de um autarca. É óbvio que as que ficarão sempre no olho serão as grandes mas a verdade é que há obras pequeninas que são tão importantes para as pessoas como as grandes. E essas eu também não me posso esquecer.

 

Quais foram os factos mais importantes que aconteceram durante o desempenho das suas funções?

Não sei, os momentos eleitorais são sempre momentos relevantes. Eu sou professor e enquanto professores costumamos dizer que o momento mais difícil é o momento de avaliação, porque essa é a prova da verdade. E acho que os momentos eleitorais são provas de avaliação à nossa capacidade, dedicação e desempenho. Esses são momentos determinantes que nos permitem renovar e acalentar a esperança de continuarmos um projeto, ou de perceber que esgotamos o modelo e as pessoas não nos querem mais. E quando não nos querem mais fica um peso e um sabor amargo na boca de dizer que há um divórcio entre a população e a pessoa que o gere. Felizmente, o meu casamento foi frutuoso e ao longo destes 12 anos a minha história é repleta de grandes momentos, sendo que os momentos eleitorais significam, obviamente, momentos de grande vivência, partilha e comunhão com a população. Podia citar, por exemplo, a vinda de algumas personalidades cá, como o Manuel Clemente que esteve a visitar a Junta, vários ministros, grandes momentos com o presidente da Câmara na partilha de grande cumplicidade e de grandes projetos que temos feito e inaugurações. Mas diria que os momentos eleitorais, apesar de tudo, têm um sabor especial porque é o barómetro da nossa capacidade de trabalho, é saber se estamos ou não a corresponder àquilo que as pessoas esperam de nós. E isso tem sido satisfatório.

 

Acredita que o facto de o presidente da Câmara ter sido presidente da Junta de Freguesia de Oliveira do Douro e de terem uma relação tão próxima foi uma vantagem para a concretização de alguns anseios?

Isso é o que a oposição gostaria de ouvir. Mas não posso estar mais contra isso, porque, apesar de tudo, temos um presidente que trata todos por igual. Este é um presidente que procura a equidade, dá oportunidades a todos os presidentes e eu diria que, às vezes, até é mais difícil quando somos próximos porque o que as pessoas ficam a pensar de nós é que como nos damos bem só não se resolvem as coisas porque não se quer. E nem sempre é assim porque temos de saber, e acho que da minha parte ele não terá essa queixa, dividir os espaços, sabermos respeitar o que é o espaço institucional e pessoal de cada um, e quais os momentos de convívio dos dois. E eu nunca misturei as coisas, ou seja, eu com o presidente tenho uma relação de amizade, conhecemo-nos desde crianças, fizemos o percurso escolar juntos, sou padrinho da filha dele, mas nunca deixei de dizer aquilo que penso enquanto função que exerço. E posso dizer que às vezes até sou demasiado incómodo porque se calhar até por esta proximidade me permite dizer mais do que aquilo que eventualmente ele estaria disposto a ouvir. Mas eu nunca prescindi de o fazer. Não vou negar que é bom termos alguém com quem possamos partilhar e ter uma proximidade maior sendo presidente da Câmara, mas acho que isso não foi nem poderá ser o argumento para dizer que se fez mais em Oliveira do Douro do que noutro lado. A freguesia afirmou-se pelos projetos, pelas ideias, e acho que o próprio presidente também tem aqui algo mérito, que me revejo nele, e para o qual contribui. Sou vice-presidente da ANAFRE, acho que ninguém representa uma instituição com mais de metade das freguesias portuguesas se não lhe reconhecesse mérito e capacidade para o fazer. Eu fiz um percurso na freguesia e no movimento associativo, assim como na ANAFRE que me está a dar muito prazer e orgulho, portanto, tenho esta ideia clara de que é verdade que temos uma relação próxima mas nunca essa relação foi motivo para beneficiar mais Oliveira do Douro. O que fizemos foi dizer mutuamente, porque ele também me puxa as orelhas, ou seja, quando o presidente tem de dizer que nós, presidentes de Junta, estivemos mal, ele também o faz, assim como eu também lhe digo quando acho que algo não foi menos bom. É desta franqueza e desta capacidade que ele consegue ter de gerir este fluxo de informação bidirecional, de aceitação e de crítica, das duas partes, que acho que tem sido profícua não só com Oliveira do Douro mas com todo o concelho. Tenho a certeza quase absoluta que não há nenhum presidente de Junta que diga mal do presidente da Câmara, não por medo, mas por não ter motivo para o fazer. É óbvio que queria mais, não há ninguém que não queira, agora, não tenho dúvidas que se fez o possível e mais do que o possível. Somos bem tratados, somos respeitados, e há uma coisa extraordinária que é a Câmara não falhar os pagamentos, sabemos com o que contamos, e quando se gere uma instituição com recursos tão parcos como são as Juntas de Freguesia, o facto de termos a noção de que naquele dia, ou naquela semana, que vai cair aquele dinheiro direitinho é uma coisa que nos permite pagar os funcionários, e ainda temos mais um bocadinho para fazer qualquer coisa e ajudar mais alguém. Isso é fundamental e a Câmara tem sido um relógio suíço relativamente a isso, tem dado uma tranquilidade aos presidentes de Junta que é uma coisa a que não estávamos habituados.

 

Falando no seu percurso na ANAFRE, do que mais se orgulha?

Comecei por ser coordenador da ANAFRE, da delegação do Porto, e o presidente da altura, o Pedro Cegonho, fez-me o convite para participar no concelho diretivo e foi com muito orgulho que aceitei o convite dele, reconhecendo as capacidades que ele demonstrava mas fiquei particularmente satisfeito porque ele conseguiu rever o trabalho que eu fiz ao longo daqueles quatro anos na delegação, e foi uma subida de patamar com maior responsabilidade. Acabei por aceitar o convite e em resultado das circunstâncias da saída dele, por motivos pessoais, levou a que eu fosse escolhido pelo partido para ser vice-presidente da ANAFRE. E numa altura particularmente difícil, com um conjunto de dossiers que estiveram na ordem do dia, por exemplo, a questão da descentralização das competências, a questão da reorganização administrativa, a própria questão da COVID-19, são alguns que são muito importantes para o autarca de freguesia. E o que posso dizer é que, grão a grão, temos conseguido capitalizar muito do trabalho que fazemos, a questão do cumprimentos das finanças locais, as freguesias de Portugal há três anos consecutivos que estão a receber mais dinheiro da administração central por mérito da ANAFRE. Hoje temos uma lei que está para ser aprovada por parte do Presidente da República que vai permitir resolver um conjunto de injustiças que foram feitas pela lei Relvas ter sido feita cegamente que não olhou a critérios nem às vontades das populações para poderem construir o seu próprio território. E agora vão ter essa oportunidade, vão ter um período específico para o poder fazer. Nós continuamos na luta, porque a luta faz-se todos os dias. Outra conquista foi termos acesso aos fundos comunitários, porque as Juntas não podiam ter acesso e esta tem sido uma luta que temos desenvolvido e temos neste momento a garantia por parte dos ministros que vamos ter possibilidade de lá ir, e estas pequeninas vitórias para nós são coisas que nos trazem orgulho no sentido em que estamos a dar mais um passo para a dignificação do papel de autarca e sobretudo o papel da freguesia. Porque se há coisas que a pandemia trouxeram foi a certeza de que o papel das Juntas foi determinante neste processo, quanto mais não fora para garantir que o posto dos CTT nas Juntas estivesse aberto para as pessoas poderem receber a reforma, para poderem ter comida em casa. Por isso, julgo que as Juntas tiveram um papel determinante e provaram que são essenciais no contexto da democracia portuguesa.

 

Imaginando o seu último dia como presidente de Junta, como acha que vai correr?

Quando se passa 24 anos na mesma casa não é fácil sairmos. Temos as nossas rotinas, é como lhe disse, quando saio da escola, antes de passar por casa passo pela Junta, portanto, ter que refazer os meus esquemas mentais e ter certeza que não me engano no caminho obviamente que vai demorar o seu tempo a reorganizar. Mas não saio nem magoado, nem triste, a única coisa que quero ter a certeza ao fim deste tempo todo é que saio com a consciência do dever cumprido, que não podia ter feito mais, que dei o máximo do que sabia e podia, e sobretudo uma coisa que mexe sempre comigo, que é ter a certeza que as pessoas se reveem naquilo que eu fui e que continuem a olhar para mim como aquela pessoa que durante este tempo todo prescindiu de muito, mesmo do ponto de vista familiar, para ajudar a ter uma freguesia onde as pessoas podem ter orgulho de dizer que vivem em Oliveira do Douro. E acho que, ao fim deste tempo todo, de percurso do José Candoso, do Eduardo Vítor Rodrigues e dos meus próprios 12 anos, acho que a maioria da população tem orgulho em dizer que vive em Oliveira do Douro porque não são muitas as freguesias que podem ter a veleidade de dizer que possuem um parque extraordinário como é o Parque da Lavandeira, uma frente de rio que inveja toda a gente, escolas de primeira qualidade que são a referência do concelho, equipamentos como lares, escolas e creches que permitem respostas importantes para a população, áreas comerciais que servem a população, uma esquadra de polícia que nos sossega e tranquiliza e praticamente nos deixa ao lado de qualquer tipo de criminalidade, excelentes locais para a prática de desporto e para a formação desportiva dos jovens como o Parque da Lavandeira ou o Complexo Desportivo de Oliveira do Douro e agora o Centro de Formação de Santiago que está em nascimento, com pavilhões multiusos… acho que isso nos deve fazer orgulhar. Devemos ter orgulho na freguesia, até as próprias pessoas nas entidades e empresas que temos cá que têm tido a capacidade de suportar todas estas dificuldades e que continuam a dar emprego à população, e sobretudo tenho muito orgulho nos oliveirenses. Gosto muito de ser de Oliveira do Douro e fico muito feliz de poder partilhar este território com as pessoas de Oliveira do Douro porque me trataram bem, sempre que ajudaram quando pedi, sei que são pessoas bondosas e que estão disponíveis para ajudar o outro. Em síntese, não podia sair com outra perspetiva que não fosse esta, de ter tido o privilégio, uma experiência de vida que acho que devia ser proporcionada a todos, porque muitos dos que entram muitas vezes para lugares cimeiros na política para terem uma perceção das coisas e um bom exemplo disso é o presidente Eduardo Vítor Rodrigues. Eu acho que ele é o excelente presidente de Câmara que é, e marca uma etapa do poder autárquico local em Gaia, muito porque ele também teve a humildade de começar por baixo, de perceber, efetivamente, as realidades. Porque decidir a partir dos gabinetes sem ter noção do que se passa ao nível das realidades locais, é completamente diferente.

 

O que é que o futuro lhe reserva? Tem ambições políticas ou partidárias?

Não sou mentiroso para dizer que não estou interessado em nada e tenho dito e renovo: eu tenho uma profissão, sou professor. Eu saindo da Junta tenho o meu lugar no Agrupamento de Escolas António Sérgio, que prezo muito, tenho os meus alunos dos quais gosto muito e tenho lá o meu tempo ocupado com tranquilidade absoluta, sendo que, com a dinâmica que tive ao longo destes anos todos sinto que pode eventualmente haver uma parte que me falta preencher. Se entender que a experiência que acumulei ao longo deste tempo todo pelos diferentes locais por onde passei, nas associações, nas mutualidades, no poder local, se entenderem que a minha personalidade e os meus parcos saberes forem úteis para poder continuar a servir a comunidade, estou disponível para avaliar e aceitar. Se não acontecer nada disso, também não tenho qualquer tipo de ressentimentos porque também nunca procurei nem pressionei nem fiz jogos de bastidores por trás, porque quem me conhece sabe que não sou assim. Se calhar tenho esta virtude, para alguns um defeito, que é por vezes ser demasiado humilde, mas isto não é uma coisa que se altera, vem de berço. Portanto, se entenderem e reconhecerem que sou importante para alguma coisa, obviamente que estarei disponível. Se não acontecer tenho a certeza absoluta que encontro outra coisa, quem sabe voltar à investigação, já tive um tempo da minha vida que me dediquei a isso e é uma coisa que gosto e revejo-me perfeitamente a fazer uma tese de doutoramento, algo que me possa preencher. Temos sempre caminhos diferentes, temos é de os procurar. Também não estou preocupado quanto a isso, saberei esperar pela altura certa. Acho que há gente mais preocupada que eu.

 

Quais são os seus sonhos para Oliveira do Douro?

A partir do momento que escolhi a freguesia para viver e para constituir família só posso esperar o melhor para a minha freguesia. Acho que o tempo e a forma como a cidade tem crescido está a levar a que a própria freguesia comece a ser engolida pelo centro urbano. Hoje estamos mais próximos da cidade do que estávamos há 20 anos atrás, porque a cidade tem crescido e a malha de Oliveira do Douro está cada vez mais integrada no centro da cidade. E o que acontece é que isso leva a que se vá esbatendo esta idiossincrasia da própria freguesia. Se perguntar quem é o Quim do Areinho toda a gente conhece, mas a partir do momento que as cidades tendem a crescer passam a ser mais impessoais, por vezes nem conhecemos o vizinho que mora ao nosso lado, que fará conhecer a figura típica do lugar. E a freguesia corre esse risco de perder um bocadinho da sua identidade, e o que eu gostaria, apesar de tudo, como autarca e como alguém que conhece toda a freguesia, prezava muito que a freguesia continuasse neste rumo de modernidade, com capacidade de encontrar formas de melhorar a qualidade de vida dos seus habitantes. Pensar numa freguesia sustentável, amiga do ambiente, que possa ter uma gestão inteligente, valorizar o transporte público em detrimento do transporte pessoal, a questão da valorização do que existe ainda das nossas zonas ambientais mais preservadas como o Parque da Lavandeira ou toda a frente de rio e impedir que isto se transforme numa coisa que não é neste momento, para podermos continuar a passar lá e ouvir o barulho dos patos.

 

Acha que a construção da nova ponte pode afetar de alguma forma isso?

Temos aqui duas ou três etapas muito importantes para a freguesia que no meu entender são fulcrais para o próximo mandato ou para os próximos, porque acredito que são coisas que terão de ser geridas em vários mandatos. E destacaria três grandes eixos fundamentais. A VL10, que foi discutida na Assembleia de Freguesia com as nossas propostas de revisão do Plano Diretor Municipal, e essa questão do que queremos para a VL10 tem de ficar resolvida, porque eu acho que a VL10 é estruturante porque afeta o miolo da freguesia que ainda não está ocupado. E acho que tem de haver aqui um cuidado suplementar de preservarmos e pensarmos bem o que queremos para aquilo que sobra de bom na nossa freguesia. Depois, o Monte da Virgem vai ser extremamente apetecível agora, temos uma linha de metro que para em frente ao hospital e para em frente ao Monte da Virgem e não tenho dúvidas que vai haver uma vontade sórdida de ocupar aquelas zonas todas dali. E acho que aquilo é uma área que tem de ser preservada e valorizada, portanto, aquela reconfiguração, a defesa e valorização daquele espaço tem de ser um fator determinante também na freguesia. E o terceiro eixo é a frente rio e as consequências da construção da ponte D. Francisco Santos. A parte mais natural que ainda temos da freguesia é a parte que fica junto ao rio, há ali um conjunto de quintas que dão um ar pitoresco, bucólico à freguesia, que continuam a encantar as pessoas. Vamos ter a inauguração de um extraordinário equipamento que é a abertura do Hotel Fonte da Vinha e que é uma excelente solução de preservação e valorização das memórias e do passado, tanto do património cultural e arquitetónico daquela zona, e acho que está muito bem conseguido. E a ponte pode trazer este problema da apetência do urbanismo poder querer estragar aquilo. Acho que tem de ser uma zona que tem de ser devidamente equacionada sob pena de poder ser penalizador para a freguesia. Acho que não vai ser o caso, a equipa camarária que está a gerir o processo está a faze-lo de forma excelente mas isto são projetos que a freguesia tem de pensar e eu, enquanto cidadão de Oliveira do Douro e que tive e ainda tenho responsabilidades, preocupa-me obviamente como é que estes espaços vão ser geridos porque vai ditar muito o futuro da freguesia. Ter aqui a VL10 numa zona que tem uma forte capacidade construtiva, tem de se fazer ali algo que seja abonatório à freguesia, onde se respeite os espaços verdes, onde se faça construções de qualidade. Estes são problemas que os próximos executivos da Junta de Freguesia têm de ser muito perseverantes e reivindicativos na procura de soluções que permitam trazer mais-valias para a freguesia. Porque o que está em causa não é meramente a questão material, é o que ainda vem, porque no dia em que conseguirmos ter mais qualidade naquilo que conseguimos construir cá, vamos trazer massa crítica diferente que é aquela que depois faz a diferença também na própria freguesia. E isso é muito importante.

 

Falou sobre o próximo executivo que exercerá funções, acredita que Filinto Lima seria a pessoa certa para o substituir?

Eu estou plenamente convicto que ele é a pessoa certa. Já houve uma assembleia geral de militantes onde foi discutida a questão e foi unanime, dos ecos que tenho tido na freguesia e as pessoas com quem tenho falado creio que há uma recetividade muito grande, e acredito que ele é a pessoa certa por vários motivos. Primeiro, porque ele é um filho da terra, tem cá família, nasceu cá, cresceu cá, frequentou cá as escolas. Depois, tem uma vida pública que fala por ele próprio, é diretor de um agrupamento de escolas há largos anos, é presidente da Associação de Diretores de Escolas de âmbito nacional, ou seja, é uma pessoa com provas dadas na vida pública. É uma pessoa da educação e de alguma forma este tem sido um investimento muito forte por parte dos executivos da Junta, o Dr. Eduardo Vítor Rodrigues é professor, eu sou professor, a questão da educação e da ação social para nós são questões muito importantes e não dissociamos uma da outra, portanto, ele partilha dos mesmos ideais, tem construído muito daquilo que é a escola pública portuguesa também, e depois acho que ele tem um carácter humanista, já fez parte da assembleia de freguesia, já esteve ligado à Fundação Padre Luís, ainda há pouco tempo era presidente da Liga dos Amigos do Padre Luís, ou seja, tem um carácter altruísta e acho que consegue congregar aqui um conjunto de qualidades e é uma pessoa que é capaz de catapultar, pela própria projeção que ele tem, a freguesia e continuar a marcar a freguesia pela positiva. Por isso, estou convicto que é um excelente candidato, até porque, honestamente, e não querendo dizer mal da oposição, vamos ter mais do mesmo. O que tivemos não foi muito bom, e o que a oposição nos oferece é mais do mesmo e se não era bom há quatro anos, não vai ser melhor agora.

 

Que mensagem gostaria de deixar aos oliveirenses?

Não querendo ser repetitivo, queria apenas deixar uma mensagem de reconhecimento e gratidão. Reconhecimento por tudo o que me têm ajudado a construir ao longo deste tempo todo, e de uma profunda gratidão por me terem dado a oportunidade e este privilégio de poder servir a freguesia e de me proporcionar uma experiência única de vida. Tenho a certeza absoluta que ao fim deste tempo todo sou muito melhor cidadão, sou muito melhor pessoa e isso resulta não só das coisas boas que a vida me proporcionou enquanto presidente mas também das coisas más que tive de ter capacidade para poder enfrentar e superar juntamente com eles. Portanto, o que posso deixar é esta mensagem de gratidão e, ao mesmo tempo, um pedido. Se, efetivamente, se reviram na minha gestão, na minha pessoa, que continuem a apoiar o candidato que eu apoio, porque essa é também uma prova de confiança à minha pessoa mas também ao que virá. Porque o que está aqui em causa não é o fim de um ciclo de uma pessoa mas a passagem de testemunho de um projeto que há muitos anos temos sabido construir na freguesia, com o Sr. Candoso, com o Eduardo Vítor Rodrigues, comigo e que acredito que pode ser continuado a construir com o Dr. Filinto Lima. Continuem a apostar e a acreditar neste projeto que estou convencido que este é o projeto que a freguesia precisa e merece.

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