“TODOS, SEM EXCEÇÃO, MERECEMOS VIVER ABRIL”

A Assembleia e a Câmara Municipal da Trofa assinalaram o 50º aniversário do 25 de Abril de 1974, com a inauguração do Monumento de Homenagem aos Combatentes do Ultramar, na Alameda da Estação, seguindo-se a tradicional sessão solene, que decorreu no Fórum Trofa XXI e contou com a intervenção de jovens trofenses, do ex-combatente Abel Ferreira, assim como dos líderes de cada partido, com representação nesta casa da democracia.

 

A inauguração do Monumento de Homenagem aos Combatentes do Ultramar, na Alameda da Estação, assinalou o início das comemorações do 50º aniversário do 25 de Abril, promovidas pela Assembleia e pela Câmara Municipal da Trofa, que culminaram com a tradicional sessão solene, que decorreu no Fórum Trofa XXI e foi inaugurada com um momento musical, protagonizado pela Orquestra de Ritmos Ligeiros da Trofa.

Com o mote “Liberdade”, o 50º aniversário da Revolução dos Cravos contemplou a intervenção dos líderes dos partidos com representação na casa da democracia trofense, que refletiram sobre os valores, deveres e direitos conquistados, em 1974.

Neste seguimento, Rodrigo Reis, representante do PAN, afirmou que “aos jovens de hoje, queremos lembrar que Portugal deve a sua liberdade a um punhado de destemidos soldados que, a 25 de Abril de 1974, eram jovens, estavam em minoria e partiram naquela madrugada de peito aberto a todas as circunstâncias. O exemplo dos jovens militares de então deveria ser o garante suficiente para que este país se mantenha fortalecido na esteira do progresso, na justiça, na inclusão e na coesão”.

Também Hélder Reis, representante do PSD/CDS-PP, interveio, afiançando que “o 25 de Abril não existe sem o 25 de Novembro, são a face da mesma moeda. A democracia e a liberdade trouxeram-nos mais do que tínhamos, mas sempre menos do que ansiamos e ainda bem que assim é, pois essa é a essência do ser humano, sobreviver à passagem do tempo, fixar objetivos, construir e, de cada vez que se consegue algo, colocar mais à frente uma nova meta. Portugal de Abril permite-nos a todos isso mesmo. As novas gerações saberão honrar o compromisso da revolução e levar o nosso país a um futuro mais justo, mais fraterno e mais evoluído”.

Posteriormente, Pedro Ortiga, deputado do PS, ressaltou que “os 50 anos de Portugal como uma nação democrática representam uma marca indelével daquilo que, hoje, somos e da memória do que fomos. Ano após ano, relembramos o feito audaz de uma revolução pacífica, que destronou a ditadura, para dar lugar a uma nova sociedade”. Para o deputado, “nunca será demais falar de Abril, daquilo que nos trouxe e daquilo que desbaratamos como se fosse garantido o seu valor. Hoje, vivemos o comodismo de ter estes valores como adquiridos e conseguimos, como nunca antes, ter estes valores em perigo”.

Por conseguinte, Alberto Fonseca, líder da bancada do PSD na Assembleia Municipal, sublinhou que “uma das grandes conquistas de Abril foi, precisamente, o poder local. Devemos, também por isso, valorizar esta conquista, aqui, na Trofa”. Segundo o deputado, “não nos podemos esquecer daqueles que, há 50 anos, lutaram pela democracia e que nos permitiram ter hoje aquilo que temos. Mas, a luta pela democracia é contínua. Por isso, não nos podemos esquecer, também, daqueles que continuam a lutar pela nossa democracia contra aqueles que a ameaçam”.

A cerimónia evidenciou, ainda, a participação do Coro da Universidade Sénior do Rotary Club da Trofa, assim como dos jovens das escolas do concelho, como guardiões da democracia, no futuro, que demonstraram o seu espírito crítico e olhar atento, interpretando o passado, mas pensando no presente e futuro de Portugal. Através da voz e gestos destes alunos, o público viajou no tempo e reviveu os inúmeros acontecimentos que antecederam e sucederam o Dia da Liberdade.

Posteriormente, foi o ex-combatente Abel Ferreira, quem tomou a palavra, asseverando que “faço parte dos milhares que deram a sua juventude pela pátria, que partiram e voltaram quase não reconhecendo os seus pais à chegada, pelo sofrimento devido à ausência dos seus filhos. Quando partíamos, era sempre na incerteza do regresso e os nossos pais entravam numa espécie de luto congeminado interiormente, que os ia matando aos poucos e tudo isto, para quê? Defender o que era indefensável? Os privilégios de algumas famílias. O 25 de Abril foi, supostamente, para devolver a liberdade ao povo. (…) Depois de 50 anos passados, devemos ser o único país do mundo que ostraciza os seus combatentes, que nos despreza e falo dos políticos que pensam, unicamente, nos seus privilégios, o que me leva a pensar que o 25 de Abril tarda em chegar para quem serviu e deu a vida pela pátria”.

Seguidamente, o presidente da Câmara Municipal da Trofa, Sérgio Humberto, interveio, frisando que “Abril é de todos os portugueses e quem tem essa veleidade, tem sinais de autoritarismo”. Para o edil, “nós, todos os dias, temos de defender os valores de Abril, que os jovens, na altura, reivindicaram, a liberdade e a democracia. Hoje, 50 anos depois, nós temos de questionar: nós temos liberdade? Nós temos democracia? Temos as duas coisas, portanto valeu a pena. O problema é quando alguém se tenta apropriar ou tornar a democracia num sistema que não seja o melhor para a população”.

Assegurando que “nós temos de encontrar os nossos valores moderados e saber escutar”, o autarca trofense destacou que “os valores de Abril passam por elevar aquilo que é a sociedade, que é um todo. (…) A democracia é o único sistema político que eu admito e concebo para o meu país, eu não imagino outro. Temos de tratar dela todos os dias, nós temos direitos e temos deveres. (…) Nós temos de lutar pelos desígnios e pelos valores de Abril”.

Por fim, foi Isabel Cruz, presidente da Assembleia Municipal da Trofa quem encerrou a sessão comemorativa dos 50 anos do 25 de Abril de 1974, usufruindo do momento para agradecer a presença dos jovens trofenses, assegurando que estes são “os guardiões da nossa liberdade e da democracia”.

Na ocasião, a autarca enalteceu que “o poder local é uma das maiores realizações da democracia portuguesa, é o que está mais próximo das populações, aquele que, diariamente, corresponde aos seus anseios e expectativas e é eleito pelo voto livre de cada um de nós”.

Garantindo que “não podemos esquecer aqueles que viveram o 25 de Abril e que de viva voz nos passam os testemunhos”, Isabel Cruz referiu que “50 anos de Abril, um Abril inacabado, mas por todos ambicionado. Comemorar Abril é lembrar os projetos adiados que é preciso concretizar, para corporizarmos a sociedade que a revolução nos fez sonhar. É este Abril inacabado que temos de cuidar e corrigir. Não podemos esquecer que à medida que a memória se perde, é mais difícil preservar os valores da democracia e da liberdade e é aqui que reside a maior responsabilidade dos contemporâneos de Abril, no passar do testemunho na primeira pessoa”.

Para a presidente da Assembleia Municipal da Trofa, “todos, sem exceção, merecemos viver Abril e hoje, aqui, evocamos os ex-combatentes do Ultramar do nosso concelho, uma demonstração do respeito que estes nos merecem. Ignorar o nosso passado e não reconhecer o feito de armas destes, também vítimas da ditadura, é negar a nossa história. Uma geração que hipotecou a sua vida, os seus estudos, que herdou desses tempos uma consciência do que é a guerra e daquilo que não querem para si, nem para os seus”.

Assim, a sessão solene, que assinalou os 50 anos do Dia da Liberdade terminou com mais um momento musical, proporcionado pela Orquestra de Ritmos Ligeiros da Trofa, que interpretou o “Hino Nacional”.