A Cave de Vinho do Porto da Quinta da Boeira recebeu a apresentação de três novas publicações dedicadas à história, arqueologia, património cultural e tradição vínica de Vila Nova de Gaia e da região Norte. Promovida por Albino Jorge, administrador da Quinta da Boeira, por Gonçalves Guimarães, presidente da Associação Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana, e por António Barros Cardoso, presidente da Associação Portuguesa de História da Vinha e do Vinho, a iniciativa reuniu confrarias e entidades culturais, num momento marcado pela valorização do conhecimento científico, da memória coletiva e da identidade do território.
As obras “Património Cultural de Gaia. Gaia, Século XX”, “Vinho Verde. História e Património / History and Heritage, n.º 04” e “Gaya. Estudos de História, Arqueologia e Património, n.º 03” foram apresentadas na Cave de Vinho do Porto da Quinta da Boeira, numa sessão que foi promovida por Albino Jorge, administrador da Quinta da Boeira, por J. A. Gonçalves Guimarães, presidente da Associação Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana, e por António Barros Cardoso, presidente da Associação Portuguesa de História da Vinha e do Vinho.
O encontro contou ainda com a presença da Confraria Queirosiana, da Confraria de Lafões e da Confraria dos Nabos de São Cosme – Gondomar, reforçando a dimensão cultural e identitária do evento.
Na abertura da sessão, Gonçalves Guimarães, presidente da Direção da Associação Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana, destacou o percurso e a abrangência da associação, sublinhando que “nós temos sócios em Portugal inteiro, assim como no Brasil e na Roménia”.
O responsável recordou o trabalho desenvolvido pela associação ao longo das últimas décadas, salientando a aposta contínua na investigação e na formação cultural. “Hoje, a Confraria vai fazendo uma série de atividades, vai promovendo outras, uma delas é a investigação nas diversas profissões, nomeadamente, na história, na arqueologia, na antropologia cultural e na arquitetura. Nós temos uns cursos livres desde 1991, o curso do próximo ano começa em outubro e vai ser sobre ciência”, afirmou.
Referindo-se às três publicações apresentadas, explicou que estas “já deveriam ter sido lançadas o ano passado, mas não houve tempo”, acrescentando que o objetivo do encontro passava também por fortalecer redes de colaboração entre entidades e investigadores.
“Convém que a gente se junte, porque temos verificado é que andamos uns para cada lado e perdemos imenso tempo com isso, desgastámo-nos muito. Estamos todos às vezes a fazer as mesmíssimas coisas, quando divididas por uma equipa, rendia muito mais. É por isso que hoje estamos aqui diversas entidades”, frisou.
Seguiu-se a apresentação da obra “Património Cultural de Gaia. Gaia, Século XX”, coordenada por José Alberto Rio Fernandes e J. A. Gonçalves Guimarães, contando ainda com contributos de Cristina Baeta, Fátima Matos, Jorge Ricardo Pinto, José Pedro Tenreiro, Pedro Chamusca e Susana Guimarães.
José Alberto Rio Fernandes começou por elogiar o compromisso do município com o estudo do património local. “Não são todos os municípios que dedicam atenção ao estudo do seu património, sobretudo com o rigor e profundidade com o que isso é feito em Vila Nova de Gaia”, afirmou.
O coordenador confessou, contudo, que o desafio foi complexo desde o início. “Quando fui convidado, hesitei bastante. Demorei um pouco a responder que sim e mais ainda a montar a estrutura do que é que é o património do século XX”, admitiu.
Ao longo da intervenção, explicou que a obra procura compreender as grandes transformações urbanas, sociais e territoriais do concelho durante o século XX, defendendo uma visão dinâmica do património. “O património em grande medida é aquilo que nós deixámos na medida em que permitimos que alguma expressão não desapareça”, salientou.
José Alberto Rio Fernandes destacou a consolidação de Gaia enquanto grande centro urbano da região Norte, lembrando que “o concelho de Gaia passa a ser o concelho mais populoso do Norte de Portugal” precisamente durante o século XX.
O investigador evocou ainda as mudanças estruturais provocadas pela abertura da nova ponte e pela criação da Avenida da República, comparando o fenómeno ao impacto da Avenida dos Aliados, no Porto. Segundo explicou, a nova centralidade urbana deslocou progressivamente a dinâmica económica da zona ribeirinha para o novo eixo viário, onde passaram a concentrar-se equipamentos como o tribunal, o hospital e os serviços municipais.
A dimensão marítima e balnear do concelho mereceu igualmente destaque na análise do geógrafo, que recordou a importância dos núcleos piscatórios, do sanatório marítimo e da valorização da orla costeira de Gaia ao longo do século XX.
Num tom crítico, lamentou ainda a falta de valorização de alguns símbolos patrimoniais do concelho. “Faz falta ao Município de Gaia, de facto, a marca simbólica, referência regional de muito do que tem do ponto de vista cultural”, afirmou, apontando exemplos como a cerâmica e o passado industrial do território. O coordenador lamentou igualmente que os antigos armazéns de vinho do Porto estejam hoje sobretudo associados ao turismo, sem uma ligação patrimonial mais forte ao Centro Histórico do Porto.
A segunda apresentação esteve a cargo de António Barros Cardoso, coordenador da revista “Vinho Verde. História e Património / History and Heritage, n.º 04”, publicação que reúne textos de Dora Simões, Henrique Rodrigues, J. A. Gonçalves Guimarães, José António Oliveira e Maria de Fátima Teixeira.
O historiador destacou a relevância do vinho enquanto elemento identitário e económico da região, defendendo que “o vinho do Porto continua a ser uma marca de referência no nosso país, com expressão internacional”.
“Aqui em Gaia cruzam-se de facto o vinho verde e o vinho do Porto”, referiu, lembrando que a notoriedade internacional do Porto acabou por dar nome ao vinho exportado a partir das caves gaienses.
Durante a sua intervenção, António Barros Cardoso recordou também a evolução da Associação Portuguesa de História da Vinha e do Vinho, nascida a partir do antigo GHEVID, criado na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. “Acabei por transformar aquilo que era o antigo GHEVID na Associação Portuguesa de História da Vinha e do Vinho, para podermos estudar não apenas o vinho do Douro, mas também o vinho verde”, explicou.
O coordenador chamou ainda a atenção para as dificuldades inerentes à investigação histórica e à manutenção de publicações científicas especializadas. “A investigação não se faz num estalar de dedos e, sobretudo, a investigação histórica. É preciso trabalhar muito, desmontar arquivos e, muitas vezes, fazer o trabalho do próprio arquivista”, sublinhou.
Apesar das dificuldades, defendeu a continuidade deste trabalho editorial. “É muito difícil manter este tipo de publicações, mas são elas que alimentam o conhecimento histórico”, afirmou, deixando palavras de reconhecimento aos investigadores que colaboram regularmente com estas revistas científicas.
A sessão terminou com a apresentação de “Gaya. Estudos de História, Arqueologia e Património, n.º 03”, coordenada por António Manuel S. P. Silva, publicação que integra trabalhos de Alcina Manuela de Oliveira Martins, Fernando Peixoto, Humberto Baquero Moreno, J. A. Gonçalves Guimarães e Sérgio Veludo Coelho.
O coordenador recordou a história da revista, cuja primeira série foi publicada entre 1983 e 1999, tornando-se “uma revista de referência na área da história, da arqueologia e do património”.
Após vários anos de interrupção, a publicação regressou em 2023 e soma já três novos números editados. “Mais de 700 páginas já foram publicadas, com temas de Vila Nova de Gaia e da região”, destacou.
António Manuel S. P. Silva frisou ainda o carácter científico da revista e a exigência colocada aos seus colaboradores. “É uma revista que pretende ser eminentemente científica e profissional”, garantiu.
Apesar de reconhecer que o novo número é “um bocadinho mais magrinho do que os anteriores”, assegurou que isso “não diminui nem a variedade, nem a qualidade dos textos”.
No encerramento, deixou uma reflexão sobre o trabalho invisível que sustenta a investigação académica. “Para se ler um artigo de 10 ou 20 páginas, que parece pouco, estão às vezes anos de trabalho atrás e de pesquisa de diversa natureza”, concluiu, definindo estas obras como um contributo essencial “para o futuro e para o estudo da história, da arqueologia e do património do nosso concelho”.


