“UMA PESSOA DECIDIDA, POR VEZES AUSTERA, MAS COM UM GRANDE CORAÇÃO”

 

Desde cedo José Gonçalves deixou Baião com destino à cidade do Porto, para se juntar ao seu tio, Pedro da Silva, que fundou o restaurante Pedro dos Frangos. Porém, mais tarde, assumiu os destinos desta casa, que é conhecida pelo frango fechado no espeto, assado na brasa. Atualmente, o proprietário orgulha-se de ter dado continuidade ao projeto iniciado, em 1939, pelo seu familiar e anseia que o seu filho, Nuno Valente, eleve o nome deste estabelecimento, que é uma referência na cidade do Porto.

 

 

Para quem não o conhece, quem é o José Gonçalves?

Na minha infância, eu não quis estudar, para além da quarta classe, nem trabalhar nos campos de cultivo com os meus pais, que residiam em Gestaçô, em Baião. Posto isto, fui para junto do meu tio, que tinha um restaurante no centro do Porto, o Pedro dos Frangos. Posso dizer que, desde que entrei pela primeira vez no Pedro dos Frangos, nunca mais saí. Foi aqui, e junto do meu tio, que me tornei homem e pai de família. Tudo o que construí na vida foi sempre com muito trabalho, muito esforço, muito sacrifício, estando muitas vezes distante até da família mais próxima fruto da grande exigência da gestão de um negócio como este. Considero-me uma pessoa decidida, forte nas convicções, sem medo de arriscar, por vezes austera, mas, ao mesmo tempo, com um grande coração.

 

Quais são as suas motivações e inspirações?

A minha grande inspiração são os princípios, ensinamentos e experiências que adquiri ao longo da vida muitas delas ao lado do meu tio Pedro. As minhas motivações são, saber que essas mesmas experiências estão a ter a devida sucessão, para que o Pedro dos Frangos continue e perdure por muitos mais anos.

 

O José Gonçalves é o proprietário do restaurante Pedro dos Frangos, que foi fundado em 1961 por Pedro da Silva. O que o levou a dar continuidade a este projeto?

É preciso gostar do que fazemos. Depois do meu tio nos deixar, eu assumi a gestão sozinho e senti que, para além de ter o peso de um negócio de família, tinha, também, o peso de uma casa emblemática na cidade, onde se come comida caseira e tradicional portuguesa e onde as pessoas se sentem bem como se de uma família se tratasse.

 

Com 60 anos de vida, esta casa está protegida pelo Programa Municipal Porto de Tradição. De que forma tem constituído uma marca identitária da cidade?

Esta identidade própria foi, em primeiro lugar, criada pelos nossos clientes, que nos visitam de geração em geração (é muito frequente dizerem: “os meus pais, os meus avós e até bisavós já cá vinham comer um franguinho, era eu pequenino”) e são os nossos principais vendedores. Depois, pelos nossos colaboradores, alguns de longa data, que, em conjunto, formam uma grande família ao serviço da cidade. Por fim, pelo famoso frango assado no espeto, que é único, diferente e muito bom, assim como os variados petiscos tradicionais. Posto isto, estavam reunidos os condimentos necessários para que o Pedro dos Frangos fosse considerado uma casa de interesse histórico, social e cultural para a cidade, ao abrigo do Programa Porto Tradição da Câmara Municipal do Porto.

 

Para além do frango, que neste estabelecimento é assado de uma forma completamente diferente, que outras especialidades reinam na ementa?

Temos o bacalhau à casa, a vitela assada no forno, os filetes de polvo, o cozido à portuguesa, o cabrito no forno ao domingo e, como não podia faltar, as nossas tripas à moda do Porto, para além de muitos outros pratos da cozinha tradicional portuguesa.

 

Desde que se mudou de Baião para o Porto e assumiu os destinos do Pedro dos Frangos, qual foi o momento mais marcante para si?

Sem dúvida, o falecimento do meu tio, em 1986, por tudo aquilo que ele significava para a casa, assim como o grande desafio que foi dar continuidade ao seu legado. Existem, com certeza, muitos momentos importantes, mas destaco, também, a reabertura do Pedro dos Frangos, em novembro de 2006, depois de longos meses de obras de remodelação, que deram melhores condições aos nossos colaboradores e clientes e tornaram-se vitais, para podermos corresponder às necessidades daqueles que nos visitam.

 

Relativamente ao futuro, quais são os seus sonhos e ambições?

Espero que o Pedro dos Frangos, daqui a 20 anos, continue a ser uma referência da gastronomia da cidade do Porto e que o meu filho, Nuno Valente, o meu seguidor, tenha saúde e força de vontade para continuar a elevar bem alto este nome, preservando os costumes e património até agora construídos.

 

Como vê a distinção com este Troféu AUDIÊNCIA? Que importância tem para si?

Sem dúvida, é o reconhecimento de toda uma vida de trabalho, com muitos obstáculos e sacrifícios, mas, também, com grandes desafios e muitas conquistas.

 

Que mensagem gostaria de deixar aos seus clientes e aos nossos leitores?

Num momento difícil das nossas vidas com a pandemia que nos assola, desejo a todos os nossos clientes e leitores do AUDIÊNCIA um 2022 com muita saúde e cheio de esperança num futuro melhor. Nunca desistam dos vossos sonhos e que as dificuldades rapidamente se transformem em oportunidades.