Um ano após o início da pandemia da Covid-19, o AUDIÊNCIA entrevistou o presidente da Câmara Municipal da Ribeira Grande para entender quais as medidas que foram tomadas e como o autarca vê toda a situação atual. Alexandre Gaudêncio mostra-se confiante no combate à pandemia e garante que todas as freguesias têm os mesmos direitos e deveres, assegurando ainda que os apoios se mantêm para que a economia e associativismo local não se ressintam tanto.

 

 

Desde março, quando foi detetada a Covid-19 nos Açores, a Câmara tem estado no terreno, foi das primeiras, inclusivamente, a fechar instalações, colocar em teletrabalho. Relate um pouco como foi o ano de 2020 e este início de 2021, e quais as principais tarefas e causas a que se tem se tem devotado.

Como qualquer instituição ou organismo público, fomos apanhados de surpresa em relação à pandemia. Íamos acompanhando de perto aquilo que estava a acontecer um pouco pelo mundo fora, até no próprio Continente, e fomos quase surpreendidos de um dia para o outro quando a situação se colocou cá no arquipélago e em particular na ilha de S. Miguel. Logo no início, houve uma coordenação entre as várias autarquias e o próprio Governo Regional, na altura a autoridade de saúde responsável pela questão da pandemia, e recordo-me perfeitamente que íamos recebendo algumas instruções por parte da Associação de Municípios da Região Autónoma dos Açores, naquilo que deveriam ser os procedimentos a adotar pelas autarquias. E como disse, fomos acompanhando de perto e tomando nota daquelas que eram as recomendações na altura, nomeadamente a questão de colocarmos em rotatividade grande parte dos funcionários para se evitar aglomerados de pessoas nos espaços públicos, diferenciar o horário de atendimento relativamente aos grupos mais vulneráveis, por exemplo, quem tinha mais de 60 anos ou doentes crónicos, e além disso, colocar em teletrabalho os funcionários com maior risco de saúde, nomeadamente, quem tinha mais de 60 anos. Claro que isso foi feito quase em tempo recorde, e posso provar que da parte do município foi com alguma surpresa positiva que vimos a adaptação dos nossos principais responsáveis e de uma forma geral os trabalhadores, a essa nova realidade. Não é fácil colocarmos em teletrabalho pessoas que nunca tinham tido essa opção ou que sequer tivessem algum dia imaginado trabalharem em casa como se tivessem a trabalhar aqui no município. E, verdade seja dita, os nossos serviços, principalmente ao nível da informação e da digitalização conseguiram, em tempo recorde, montar um sistema de teletrabalho que ainda hoje está a funcionar e que permitiu que os nossos serviços nunca fechassem, mesmo durante o confinamento da primeira vaga.

 

Mas nos primeiros tempos, nomeadamente no final do ano, houve alguma relutância da Direção Regional de Saúde em facultar dados que o município considerou na altura muito relevantes.

Sim, é verdade, nós reivindicávamos que tivéssemos acesso aos dados por freguesia, portanto, ao número de casos positivos por freguesia, porque aqui, independentemente de sermos uma ilha relativamente pequena, em comparação com o território nacional, vivemos realidades muito díspares. Temos um concelho com 14 freguesias e todas elas com especificidades muito próprias. E, na nossa opinião, queríamos ter acesso à informação, para perceber se havia maior foco de contágio numa determinada freguesia em detrimento de outra, e esses dados eram de forma repetida negados no seu fornecimento. Por várias vezes eu, publicamente, manifestei essa preocupação junto do diretor regional de Saúde, mas só depois de bastante insistência é que ele forneceu esses dados de forma esporádica. Já foi com este novo Governo Regional e com a nova autoridade de Saúde Regional que, e bem, começou a divulgar diariamente esses dados que eram por nós reivindicados.

 

No concelho, existe uma freguesia que todos os portugueses conhecem e, às vezes, não por muito boas razões, que é Rabo de Peixe, uma freguesia com quase 10 mil habitantes. Como é ter uma freguesia como Rabo de Peixe no concelho?

Nós sempre tivemos muito orgulho em todas as nossas freguesias e em particular a vila de Rabo de Peixe que como disse, e bem, tem cerca de 10 mil habitantes. Representa quase um terço da população do concelho e tem um peso enorme quer na sua atividade empresarial, comercial e social, quer também ao nível da própria dinâmica do concelho. Recordo que Rabo de Peixe tem o maior porto de pescas comercial dos Açores, tem das maiores indústrias que é a indústria da transformação de peixe e tem a Associação Agrícola que é a maior associação que existe no arquipélago e que representa mais de 2 mil associados ligados à agricultura. Portanto, há aqui um manancial de atividades que a vila de Rabo de Peixe tem que são preponderantes para a economia do concelho. E por isso mesmo, tudo o que acontece quer positiva quer negativamente tem um impacto relevante naquela que é a dinâmica do concelho, e a pandemia não foge disso. O facto de, por exemplo, agora haver um foco maior de contágios na vila significa que todo o concelho fica afetado devido ao contágio que neste momento existe em Rabo de Peixe. Ainda há pouco tive oportunidade de dizer, ‘somos todos de Rabo de Peixe’ como Rabo de Peixe também são ribeiragrandenses. Portanto, aqui não há uma diferenciação, temos muito orgulho naquelas gentes, e principalmente na dinâmica que aquela vila tem na sua pujança. Para o bem e para o mal, somos todos Rabo de Peixe e todos estamos a trabalhar no sentido em que esta situação da pandemia que veio, de certa forma, estigmatizar novamente aquelas gentes, possa também ser um exemplo de sucesso. Recordo aqui que, também foi uma iniciativa inédita que se fez em todo o país, que foi uma testagem em massa naquela vila, e que correu muito bem, o nível de participação foi acima dos 80 por cento, e que foram voluntariamente testados mais de 7 mil pessoas, o que denota também que há um espírito de comunidade muito forte naquela localidade. E por isso mesmo vemos os números com preocupação mas vemos também que as pessoas já começam a ter uma noção real que este é um vírus perigoso, que mata, e que acima de tudo têm de ter cuidados redobrados que por ventura não tinham até sentirem na pele que este vírus é prejudicial. Por isso mesmo, o nosso foco neste momento tem sido, efetivamente, Rabo de Peixe, infelizmente estamos a falar de um número residual de pessoas que já estão referenciadas e que prevaricam reiteradamente aquelas que são as recomendações da autoridade de saúde, que é o distanciamento social, o uso da máscara e a lavagem constante das mãos, e que por causa disso colocam em causa não só a vila mas todo o concelho. No entanto, já foram tomadas medidas que começam já a surtir efeito, e que eu creio que nas próximas semanas iremos ultrapassar esta questão.

 

Quando, a meio da pandemia, ocorreram aqueles nefastos acontecimentos no lar no nordeste, e tendo em conta que a Ribeira Grande também tem os seus lares, não chegou a temer pela segurança dos mais idosos?

Sim, chegamos, aliás, desde a primeira hora que ao reunirmos o nosso conselho municipal de emergência o nosso principal foco foi precisamente os grupos de risco. Nós aqui no concelho temos três lares de idosos que representam cerca de 200 utentes que neste momento estão institucionalizados nessas instituições, e a nossa preocupação, vendo o que estava a acontecer no nordeste, era protege-los o máximo possível. Recordo que as primeiras preocupações deste conselho municipal foi precisamente tentar proteger este grupo mais frágil. Foram feitas reuniões de trabalho com os principais responsáveis, a própria autarquia predispôs-se no sentido de colocar à disposição das instituições pessoal especializado em planos de contingência e que pudessem também analisar e ajudar a implementar planos de contingência, as próprias instituições por sua iniciativa, colocaram o pessoal em rotatividade, não permitindo que houvesse visitas de pessoas estranhas às instituições para não levarem o vírus para aqueles locais, e isto foi, de certa forma, cumprido na íntegra desde a primeira hora. Julgo que também a própria iniciativa deste Governo em começar a vacinação nestes grupos de risco, foi fundamental para que até à data de hoje não houvesse qualquer surto nos nossos lares. Isto acho que é de salientar e denota também um grande profissionalismo de todos os responsáveis dessas instituições que perceberam que tínhamos de andar de mãos dadas e à procura de uma estratégia comum para proteger os seus utentes. Isso foi feito desde a primeira hora, contando também com a colaboração dos funcionários das instituições que muitos se voluntariaram para dormirem na instituição durante os 10 ou 15 dias que estavam ao serviço para cumprir a quarentena, e tudo isto foi cumprido. Tenho que reconhecer que se não tivemos um surto até agora nos lares deve-se muito à persistência não só da comissão municipal da proteção civil, mas acima de tudo dos responsáveis dessas instituições.

 

Resumindo, estão aprovados com distinção.

Sim, estão aprovados porque compreenderam que estávamos a falar de um grupo de alto risco e que perceberam que se não fossem tomadas medidas atempadamente aquilo que aconteceu no nordeste poderia acontecer em qualquer local, nomeadamente aqui no nosso concelho. Felizmente que isso não aconteceu e deve-se muito à preocupação que foi demonstrada desde o princípio pelos seus responsáveis.

 

Vestindo também a camisola do principal responsável da proteção civil, quer deixar uma palavra a esses lares que apesar da distinção das tarefas executadas, quer a nível da região, quer a nível do país, ainda não é momento para festas…

De maneira nenhuma, aliás, ainda vamos a meio do caminho e se alguém pode festejar seja o que for não pode ser agora. Têm de deixar o dia dos amigos, o Carnaval, tudo para mais tarde. A própria autarquia tem cancelado todos os eventos públicos, já demos nota pública disso, não se prevê que nos próximos meses possam acontecer aquelas festividades que eram tão características do nosso concelho como por exemplo a Festa da Flor, ainda agora cancelamos o Cantar às Estrelas, para o verão ainda há aqui um ponto de interrogação, mas que provavelmente e atendendo ainda a uma situação frágil que vivemos devido à pandemia, onde a população provavelmente não estará vacinada atempadamente, provavelmente esses grandes eventos também serão cancelados devido a essa situação. Portanto, revendo-me aqui num papel de entidade de Proteção Civil, aquilo que recomendo é que não entremos já em euforias porque nada disto está ganho, é apenas um caminho que estamos a caminhar e que ainda vamos a meio.

 

Este concelho é rico em associativismo. Como é que está a ver, o que teme relativamente ao associativismo, nomeadamente filarmónicas ou clubes desportivos, se quase dois anos que se prevê de inatividade se isso não vai acabar por matar algumas, ou muitas, das instituições?

É, sem dúvida, um rombo muito grande relativamente à atividade que estavam habituados. Temos tido uma atenção particular e um contacto privilegiado com todas, posso referir, por exemplo, ao nível das filarmónicas em que a Câmara Municipal tem um protocolo financeiro anual e vamos manter os respetivos protocolos sabendo de antemão que, à partida, não irão haver grandes acontecimentos, mas não é por causa disso que vamos deixar de apoiar. Demos nota pública disso, falamos com as instituições que apesar de não terem atividade propriamente dita, se não fosse esse apoio camarário seria muito mais difícil manterem as suas sedes ou os custos financeiros mensais que continuam a ter. Por isso, vamos continuar os apoios que vínhamos a atribuir até então. Relativamente ao desporto, a autarquia também tem vindo a apostar fortemente no desporto, a título de exemplo este ano de 2021 já aplicou cerca de 230 mil euros em apoios ao desporto, que vai desde o futebol a outras modalidades como o ténis de mesa, o basquetebol ou hóquei em patins. Neste momento estamos a apoiar oito modalidades desportivas diretamente, com 14 associações ou clubes. Isso denota, por um lado, que a dinâmica desportiva ainda não se perdeu, ainda há associativismo e clubes federados que neste momento, apesar da atividade estar suspensa, continuam com a preocupação de manterem, pelo menos, as portas abertas, e o que nós prevemos é que com o acalmar desta pandemia, ao retomarem a atividade, possam retomar com todas as precauções, mas que a situação financeira não fique prejudicada devido à falta de apoios. Pelo contrário, continuamos a dar o respetivo apoio como se tudo estivesse a acontecer normalmente, e isso tem feito toda a diferença para que haja uma luz ao fundo do túnel.

 

É difícil encontrar situações em que a Ribeira Grande não prime pela excelência, mas a restauração, a começar logo pela Associação Agrícola e por inúmeros restaurantes, neste momento, estão com a corda ao pescoço. A Câmara, relativamente a espaços que é o detentor, criou uma série de isenções, mas há críticas de desigualdade de tratamento por parte daqueles que a Câmara não paga a renda. O que é que a autarquia tem feito neste campo?

Eu recordo que a Câmara lançou um programa de apoio que teve cerca de 100 candidaturas no mês de outubro, cujos apoios foram atribuídos agora no início do ano de 2021. É um programa de apoio a fundo perdido, foram cerca de 80 mil euros que a Câmara aplicou de forma geral ao pequeno comércio, incluindo a restauração. Em relação especificamente à restauração, o que a Câmara tem feito são programas de incentivo ao consumo, por exemplo, durante o verão, aplicamos uma medida que foi muito bem aceite na altura pelos restaurantes, com descontos associados, como uma campanha em que as crianças até aos 12 anos não pagavam a sua refeição, como forma de incentivar as famílias a que fossem à restauração, que foi uma campanha muito bem recebida e que recebeu elogios pela rapidez com que foi executada. No final do ano, na altura do Natal, lançamos uma campanha em parceria com a Câmara do Comércio ligada entre o comércio tradicional e a restauração, em que atribuíamos vales de desconto quer na restauração, quer no comércio, para haver aqui uma espécie de economia circular, e posso adiantar que, neste momento, estamos a fechar um novo protocolo com a Câmara do Comércio de Ponta Delgada para haver uma aplicação direta de 25 por cento de desconto na restauração, almoços e jantares, como uma novidade. Já percebemos que a questão do take away ou da entrega ao domicílio, é uma medida que queremos incentivar para que as pessoas continuem a consumir em segurança, e a grande novidade é que, já a partir do mês de março, com este novo protocolo, vamos incentivar que as pessoas possam aderir à modalidade quer do take away, quer da entrega ao domicílio, de forma gratuita. O que está a ser pensado é aplicar um desconto direto na fatura de qualquer refeição, dos restaurantes que vão aderir à iniciativa e, se necessitarem que levem a comida à porta ou ao domicílio, este serviço será gratuito. Será também uma parceria entre a Associação de Táxis de São Miguel e a Câmara do Comércio e Indústria de Ponta Delgada que ficará incluída nesta campanha. Será uma campanha dedicada à restauração, com esse incentivo do consumo, mas com a novidade da entrega gratuita e aplicando um desconto de 25 por cento na fatura total.

 

Alguns dos comentários que se tem ouvido dos taxistas da Ribeira Grande é que a Câmara não se lembrava deles. Ao fazer essa parceria com a Associação de Táxis de S. Miguel estão englobados todos os taxistas que têm praça na Ribeira Grande?

Nós temos o levantamento de que cerca de metade dos taxistas da Ribeira Grande são associados desta associação. O que nós tivemos que colocar em prática no protocolo e esses protocolos são feitos com associações, não com empresários em particular, é que, das duas uma: ou são associados e podem beneficiar de forma conjunta desse apoio, ou se não são associados, devem-se associar ou criar até uma associação. A Câmara Municipal nunca fechou portas a protocolos, pelo contrário, sempre se mostrou disponível a isso e até sugeriu, e recordo que essa iniciativa começou da restauração, foi desbloqueada por empresários da restauração que, na altura da primeira vaga, estavam com uma faturação bastante baixa e vieram ao município pedir apoio. E o que o município pediu foi que se organizassem, trouxessem um modelo de colaboração e foi isso que foi feito. Todas essas iniciativas têm sido em sintonia com a Câmara de Comércio e Indústria de Ponta Delgada que é uma instituição que engloba a maior parte dos empresários, mas que também tem a noção que, mesmo não sendo associados, os empresários podem aderir a essas iniciativas. E é isso que pedimos, o município, por si só, não consegue colocar em prática regulamentos nem medidas de apoio se não houver organização ou instituições que possam colaborar com o município nesse apoio direto à economia local. Mas a Câmara do Comércio tem sido inexcedível, somos nós, muitas vezes, a desbloquear e a incentivar que se façam essas parcerias, e o que noto é que realmente através da Câmara do Comércio temos conseguido colocar em prática esses modelos e essas campanhas que já entraram em vigor.

 

Portanto, os taxistas, neste caso, ainda vão a tempo de se filiarem e de aderir na plenitude ao que é criado?

Tal e qual.

 

Também para dar garantia a quem visita a Ribeira Grande e aos cidadãos do concelho, o município criou um selo que distribuiu pelos estabelecimentos que reuniam as condições de segurança. Encontrou muitos com falhas?

Nós criamos o programa que se chama Selo Covid Free, que foi um modelo que achamos, numa primeira fase, e estamos a falar da primeira vaga, como forma até de darmos alguma informação de quais eram os mecanismos que os estabelecimentos tinham de ter para cumprir as regras emanadas pela autoridade de saúde. Disponibilizamos tudo gratuitamente, quer ao nível da formação, quer ao nível até de auditorias que foram feitas nos estabelecimentos e recordo que esta colaboração foi sempre em parcerias com entidades externas ao município, portanto, não foi só o município por sua iniciativa que avançou, pedimos a colaboração de entidades certificadas que também foram aos estabelecimentos confirmar que estavam a cumprir com as recomendações da autoridade de saúde, nomeadamente, planos de contingência, até foram feitas análises às superfícies dos estabelecimentos relativamente à questão das bactérias, e só cumprindo com esses requisitos é que era atribuído o respetivo selo. Neste momento, temos cerca de 80 estabelecimentos que têm este selo atribuído, e que agora permite, por exemplo, que sempre que há uma campanha de testagem, estes comerciantes são contactados para que possam fazer testes gratuitamente que são fornecidos pelo município. Já fizemos mais de 500 testes a estes trabalhadores destes estabelecimentos, já detetamos cinco casos positivos, e isto dá até um sentimento de segurança, não só para o próprio empresário que não tem esse custo de perceber se os seus funcionários estão ou não infetados, mas dá, acima de tudo, um sentimento de confiança aos clientes a quem visita e perceber que, se aquele estabelecimento tem um selo que confirma que cumpre com os requisitos, julgo que dá uma grande confiança e tem sido muito bem acolhido pelos comerciantes.

 

Essa distribuição de selos ficou só pelo centro da cidade ou chegou até todas as freguesias?

Neste momento, temos estabelecimentos espalhados um pouco por todo o concelho. Esta campanha continua ativa, portanto, a qualquer momento podem aderir gratuitamente.

 

Antes da pandemia havia um conflito entre as funções que o Centro de Saúde levava e as que deveria levar a cabo. A Covid-19 veio resolver ou veio atrapalhar?

Eu acho que a pandemia veio trazer aquilo que sempre defendemos, que é a descentralização de serviços. Nós somos uma cidade e estamos, aqui, em sede do concelho, pelo que não, e sempre reivindicamos isso, é de todo exequível termos um Centro de Saúde que encerra à noite. Nunca defendemos isso, para já, porque somos uma cidade e, por outro lado, porque somos 32 mil pessoas e aquilo que defendemos é que deve haver uma descentralização dos serviços de saúde, nomeadamente nos centros de saúde, que estão espalhados um pouco por toda a ilha. A Ribeira Grande já foi conhecida e reconhecida ao nível da sua excelência na saúde, por exemplo, ao nível de tratamentos complementares de diagnóstico, que eram feitos, aqui, no Centro de Saúde da Ribeira Grande, que perdeu completamente essas valências em virtude do serviço de saúde em Ponta Delgada. Aquilo que nós continuamos a reivindicar é que se olhe, novamente, para o Centro de Saúde da Ribeira Grande com outros olhos, com o potencial que temos e, acima de tudo, que possamos descentralizar os serviços que estão, portanto, em Ponta Delgada, nos vários centros de saúde, entroncando, aqui, com a Ribeira Grande. O que a Covid-19 veio trazer foi que, efetivamente, o Centro de Saúde da Ribeira Grande está num ponto estratégico da ilha, que permite ter essa descentralização. Nós estamos a 10 minutos de Ponta Delgada, estamos no meio da ilha e fazemos fronteira com todos os concelhos. Portanto, é de todo conveniente que este Centro de Saúde seja equipado, como já foi antigamente, para que as pessoas, também, possam fazer os respetivos tratamentos no nosso concelho. Continuamos a reivindicar isso e temos noção de que este novo Governo tem essa sensibilidade.

 

Recentemente, o secretário regional da Saúde esteve aqui, já levou o recado?

Com o secretário regional da Saúde, o que falamos, concretamente, foi sobre as questões da Covid-19, mas o senhor presidente do Governo Regional sabe, como ninguém, como autarca que já foi, que nós temos de defender as nossas terras e a Ribeira Grande não vai deixar passar em claro esta oportunidade que tem, de haver um novo Governo, com uma nova forma de pensar, para reivindicar os serviços que o Centro de Saúde devia ter e não tem.

 

Se o Governo Regional, ou a Secretaria Regional da Saúde, ou quem coordena a vacinação nos Açores pedir a colaboração do município, para criar condições logísticas para a implementação de uma vacinação em massa, o município está disponível?

Sim, nós estamos disponíveis, como estivemos desde o início e quando foi solicitada a nossa colaboração. Recordo, por exemplo, a questão da testagem em massa, em Rabo de Peixe, em que o município foi um dos parceiros ativos no terreno e seremos, com certeza, parceiros ativos naquilo que o Governo Regional achar para o bem da saúde das pessoas e se achar que é necessária esta colaboração do município da Ribeira Grande, nós não iremos dizer que não, pelo contrário, nós queremos ser parceiros ativos.

 

Ultimamente, algumas pessoas têm vindo a defender que os Açores e a Madeira poderiam ser zonas verdes e ter algum privilégio na vacinação. Atendendo que, recentemente, as vacinas que Portugal comprou, em grande quantidade, não podem ser administradas a maiores de 65 anos e atendendo que os Açores e, nomeadamente, o concelho da Ribeira Grande é um concelho jovem, não haveria a possibilidade de se efetuar uma alteração? Qual é a sua opinião sobre isto?

Acima de tudo, eu acho que há, aqui, uma oportunidade que o país poderia ter aplicado e, de certa forma, olhando para as regiões autónomas com outros olhos, efetivamente, nós temos sido a primeira região do mundo, a par da Madeira, livre de Covid-19 ou Covid Free. Eu acho que dava-nos, aqui, um tónico muito interessante, pois nós estamos a falar de pouco mais de 200 a 250 mil pessoas que, rapidamente, se conseguiria vacinar e que ficariam imunes ao novo coronavírus. Eu acredito que isso daria uma tónica com a qual, porventura, mais nenhum outro local poderia, neste momento, competir e o Governo da República, infelizmente e novamente, não olhou para a questão da autonomia, não olhou para as suas regiões autónomas com esse sentido estratégico. Não vamos, agora, chorar sobre o leite derramado. Eu julgo que deixou-se passar, aqui, uma oportunidade única e que, novamente, revelou que existe um centralismo neste país, que é difícil de justificar, como já aconteceu, também, em outros passados, que não vale a pena, aqui, recordar. Relativamente à questão da vacinação, eu julgo que este Governo Regional, dentro daquilo que nos foi atribuído, começou bem, no que diz respeito em vacinar os grupos de risco, em primeiro lugar, e eu acho que a nota está bem patente ao nível dos lares de idosos, porque não se vê cá o que está acontecer no continente, por exemplo, com surtos e com mortes constantes nos lares de idosos e, aí, eu acho que esteve perfeitamente bem, agora, se for possível vacinar-se, como já se vacinava o povo, que é outro exemplo, também, de uma nota bastante estratégica e que, rapidamente, se consegue imunizar um grupo, porque não? E eu julgo que, aqui, a Ribeira Grande, também, poderá dar esse contributo muito significativo, para imunizar toda a nossa sociedade e eu acho que isso seria de bom tom e será, sem sombra de dúvidas, uma boa novidade se acontecer.

 

Vamos agora falar dos custos financeiros. A Covid-19 abalou economicamente o município? A seu ver, tem havido solidariedade dos agentes políticos, nomeadamente do Governo Regional?

Sim, nós contabilizamos, no orçamento de 2020, uma quebra, nesta situação da Covid-19, no valor de cerca de meio milhão de euros. Portanto, a autarquia alocou cerca de 500 mil euros à situação da Covid-19 e quando eu digo alocou, refiro-me quer ao nível da perda de receitas e quer ao nível das isenções que aplicamos, quer ao comércio e quer à população. Recordo que, o município isentou de pagamento a taxa de resíduos, isentou de pagamento, portanto, o primeiro escalão de água e aplicou uma série de isenções, como a questão da publicidade às empresas e a ocupação de espaço público. Portanto, tudo isto contabilizado representou cerca de 500 mil euros. Claro que, alocado a isso, nós tivemos de reorientar a nossa estratégia de atuação de políticas públicas, por exemplo, afetando quase 40 mil euros ao ensino, que não estavam destinados, na compra de equipamento informático, que foi disponibilizado aos alunos, ainda durante a primeira vaga da pandemia. Para além disso, estes protocolos de que falamos há pouco são ao nível do apoio à restauração, ao comércio e, ao fim ao cabo, os apoios a fundo perdido, que representaram cerca de 150 mil euros, que o município teve que dedicar do seu orçamento, para estas campanhas. Quanto ao retorno, ou quanto à solidariedade, como dizia, neste momento, em termos efetivos, ainda não foi possível, ou seja, ainda não vimos nenhum acordo, chamemos assim, ou protocolo emanado pelas entidades superiores, nomeadamente pelo Governo Regional, ou pelo Governo central, através do qual pudéssemos ser ressarcidos dessas perdas.

 

Quer dizer, até à data de hoje, e estamos a gravar a 8 de fevereiro, só conversa?

Até à data de hoje, neste momento, efetivamente, não formos ressarcidos de nenhum montante desses investimentos, como eu disse, que realizamos no âmbito da reorientação da nossa política. O que nós já tivemos, e notamos de bom grado, foi uma sensibilidade por parte, aqui, do vice-presidente do Governo Regional, que já esteve, presencialmente, aqui no município e que está, perfeitamente, consciente desta preocupação dos municípios, particularmente da Ribeira Grande, e do esforço temos feito em minimizar este impacto na economia local. Nós notamos, com boa nota, que esta preocupação poderá ficar traduzida no novo Orçamento do Governo Regional, que será aplicado, porventura, a partir do mês de abril e que terá uma componente dedicada aos municípios, relativamente a essas perdas. Mas, eu diria que, neste momento, em termos efetivos, ainda não vimos nenhuma materialização desses apoios, ou dessas perdas que, particularmente, aqui, a Ribeira Grande está ter. Uma nota importante, que eu gostaria que ficasse registada é que o município, felizmente, devido à sua boa saúde financeira, permitiu alocar uma parte do valor transitado, positivamente, nos últimos anos, à pandemia e isso faz com que, por exemplo, à data de hoje, nós possamos colmatar essa perda dos 500 mil euros, com as transferências, e tínhamos 20, a transitar, positivamente, nos anos anteriores, para alocar esta finalidade. Para além disso, eu gostaria, também, que ficasse registado que, por exemplo, o facto de não temos investido, como vínhamos a investir anualmente, em festividades e na promoção turística, permitiu-nos reorientar a nossa atuação para pequenas empreitadas, que permitiram minimizar o impacto na economia, que esta pandemia está a trazer. Também, dar nota de que, o ano 2020 foi um ano record ao nível de empreitadas, obras. Nós ultrapassamos cerca de 8,6 milhões de euros, um valor record, dos últimos 8 anos, que permitiu, de certa forma, dinamizar o tecido empresarial da construção civil, que, aqui, no nosso concelho é bastante representativo, permitindo, certa forma, estancar a questão do desemprego, colocando muita gente a trabalhar, principalmente, ao nível da construção civil.

 

Agora temos o amanhã. Eu sei que o município tem elaborado um plano estratégico, que vai pôr em prática, para que a alegria volte à Ribeira Grande. 

Na verdade, nós estamos a terminar um plano estratégico, que será o plano estratégico 2020-2030, que vai permitir colocar o município na rota do desenvolvimento, atendendo este novo cenário. Quando digo novo cenário, nós estamos, aqui, focados no novo quadro comunitário de apoio, que está aí a porta e vamos, também, apresentar as principais linhas estratégicas do município, ao nível do investimento público, que entroncam numa atuação e num planeamento a médio e longo prazo. Eu julgo que é preciso dar essa nota e, acima de tudo, traçar, aqui, uma linha de atuação, para, independentemente de quem estiver à frente dos destinos da autarquia, possa continuar com uma linha de desenvolvimento, que foi traçada e delineada por parceiros estratégicos. Recordo, também, que este plano estratégico esteve em discussão pública e que recolhemos o contributo de muitas pessoas quer particulares, quer players, que estão, neste momento, no mercado ao nível da construção, ao nível dos nossos empresários, que permitiu, também, sentir o pulso à nossa população, naquilo que pretendem para a Ribeira Grande, até o ano de 2030. Este documento estará concluído até ao final do primeiro trimestre deste ano, para que possamos, também, começar a trabalhar nesta estratégia até 2030 e isto dá, sem sombra de dúvidas, um horizonte temporal, na nossa opinião, com esperança num futuro mais risonho, como dizia e bem. Há, aqui, uma linha estratégica que nós estamos a tentar seguir, falando, se calhar, daquilo que tinha sido uma grande aposta deste executivo, que era quer a atração de investimentos privados, quer a visibilidade do município ao nível do turismo e nós estamos, aqui, muito focados, com uma estratégia que tem a ver com estadias de longa duração. Nós estamos muito focados na situação dos nómadas digitais, que poderão ser, na minha opinião particular, o grande desenvolvimento do turismo, nos próximos anos, pelo que a nossa estratégia passa por atrair pessoas que queiram viver cá, ou passar cá longas temporadas, porque aqui temos boa qualidade de vida, temos bom clima, temos um custo de vida, relativamente, barato, em comparação com outros destinos europeus e temos, acima de tudo, uma boa rede de internet, portanto uma boa velocidade de internet, chamemos assim. Nós, ao nível do município, estamos a realizar as obras de um centro empresarial, que ficará bem no centro da cidade, de forma a permitirmos que estas pessoas, que queiram passar cá longas temporadas, possam ter equipamentos a sua mercê e trabalhar, remotamente, que é o que se prevê nos próximos tempos, porque passando cá longas temporadas, vão deixar cá mais-valia económica e é um nicho de mercado, ao qual nós estamos muito atentos e que vai fazer parte de uma linha de atuação, que o município quer traçar num futuro muito próximo.

 

Agora para concluir, pode falar-me sobre os investimentos que se iriam concretizar na área da hotelaria e sobre as unidades hoteleiras e os alojamentos locais que estão encerrados e sem data para reabrir?

Aquilo que nós temos acompanhado e recordo que, antes desta pandemia, nós éramos o concelho da região com mais projetos em carteira, mais investimentos, aliás nós contabilizamos que ultrapassaram mais de 100 milhões de euros de investimento privado, que estava em carteira. Eu estou a falar de projetos que, inclusivamente, já estavam e continuam a estar com o licenciamento aprovado, estou a falar, principalmente, de três ou quatro projetos de média dimensão, todos eles com mais de 100 quartos, mas devidamente enquadrados com a nossa linha desenvolvimento, nomeadamente ao nível da requalificação marítima, que estamos aqui a fazer, outros relacionados com o aproveitamento do calor geotérmico, que é uma situação única que nós temos aqui, a nível nacional até, que é o aproveitamento, principalmente, do calor da terra, para fins turísticos e todos eles, pelo que temos conversado, não vão abandonar os projetos, pelo contrário, continuam com muito interesse que estes projetos possam ver a luz do dia e, então, estão a fazer aqui um interregno, relativamente, ao timing da sua construção. Aquilo que se prevê, é que a economia em 2021 irá ter uma retoma, relativamente, lenta, mas que em 2022 e 2023 irá retomar, provavelmente, aos níveis que tínhamos antes da pandemia e isso faz com que estes investidores olhem para este horizonte temporal com muito mais apetite, percebendo que, quando isto voltar tudo ao normal, a procura será ainda maior do que aquela que vínhamos a ter até à pandemia. Portanto, aquilo que eu antevejo, é que estes projetos, independentemente se um ou outro é, eventualmente, abandonado, serão executados neste horizonte temporal, dos próximos três ou quatro anos, para que a Ribeira Grande continue a afirmar-se como destino, também, turístico mas, acima de tudo, com um foco cada vez maior na preservação ambiental, na qualificação dos seus recursos e, acima de tudo, em projetos que possam alavancar a economia do nosso concelho.

 

Quando a primavera se aproxima, que palavras é que gostaria de deixar aos seus conterrâneos e à população que preside?

A primavera traz sempre um outro brilho, chamemos assim, um outro um ar mais alegre e é com um estar mais alegre, que eu gostaria que as pessoas encarassem o futuro. Não diria que num futuro próximo pudéssemos, ou que vamos ter, uma normalidade igual àquela que tínhamos antes da pandemia, mas será porventura, portanto, um horizonte, ou um tempo, em que abrindo aqui a luz, se possa olhar para um horizonte, cada vez mais risonho. No entanto, o caminho faz-se caminhando, com precaução e não é de todo conveniente que, nesta altura, possamos voltar, ou ter aqui uma euforia, como tínhamos antes da pandemia, é preciso irmos com caução, com cuidado, porque nós já percebemos que, ao mínimo descuido, a pandemia pode descontrolar-se e podemos voltar a um confinamento, que não é de todo desejável, para ninguém. Por isso mesmo, e aproveitando essa sua referência à primavera, temos de olhar para este novo tempo com esperança, com precaução e, acima de tudo, tendo sempre em conta aquelas que são as recomendações da autoridade de saúde, para que possamos voltar a uma normalidade, dentro daquela que for possível.

 

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