UM CINETEATRO EM AVINTES COM O FUTURO ADIADO

Numa resposta recente ao vereador do PS João Paulo Correia, o presidente do executivo municipal, Luís Filipe Menezes, deixou claro que não está no seu horizonte “a construção de teatros por 5 milhões de euros” (sic), referindo-se obviamente ao Teatro Almeida e Sousa, em Avintes, cujas obras de reconstrução foram anunciadas em 2019 com conclusão prevista para o ano seguinte (2020!!!), com a promessa da sua transformação “num verdadeiro cineteatro municipal”, mantendo os traços originais, mas dotando-o de um auditório com 180 lugares e uma sala de exposições, entre outras áreas. Empreendimento que resultaria em duas tentativas falhadas, primeiro com um projeto apoiado num orçamento abaixo de um milhão de euros (?!) e depois com a sua reformulação a ascender quase quatro milhões, mas ambos condenados ao fracasso por ausência de empresas interessadas na obra.

A requalificação do Teatro Almeida e Sousa voltaria, no entanto, a estar na ordem do dia, em 2025, com a abertura de um novo concurso público, desta feita com encargos previstos a rondar os cinco milhões, com o propósito da reabertura daquele centenário espaço cultural em meados de 2027, se considerarmos o tempo estimado de execução da obra (540 dias) e as eventuais derrapagens temporais no desenvolvimento das várias fases do processo, desde o concurso à adjudicação. Mas para quem já esperou tanto tempo pela concretização desta realidade, não seriam mais dois anos (ou mais!?…) que iriam abalar a esperança do ressurgimento daquele espaço, dotado com as condições necessárias à apresentação de todo o género de espetáculos, de modo a melhor servir o meio cultural e social, concelhio e local.

Mas na verdade aquele centenário espaço cultural, inaugurado em 1895 e com portas fechadas desde 1997, continua na mesma até aos dias de hoje, isto é, num estado de degradação lamentável. E, ao que tudo indica, o seu futuro está comprometido, porque o presidente do município diz que vai adiar (e cito) “a construção de teatros por 5 milhões de euros”. Será que ele quer retomar o esboço de projeto do seu antecessor para a reabilitação do Teatro Almeida e Sousa, que estava longe de ser compatível com a grandeza da obra anunciada, cujo custo foi estimado 800 mil euros?! Nessa altura, querendo acreditar que a obra nasceria um dia, perguntei-me se já existiria projeto e fiz votos para que, a existir, não fosse um projeto falhado, tanto do ponto de vista conceptual como funcional, e que não tivesse faltado um olhar especializado sobre as diversas técnicas de palco na elaboração de um caderno de encargos definidor de um programa preliminar claro e respetivos parâmetros.

Projetar um teatro constitui um desafio de complexidade conceptual significativa, que obriga a uma articulação de diversas valências e à coordenação de inúmeros projetos. Trata-se de conceber e conciliar a arquitetura generalista com um vasto conjunto de especialidades, como a arquitetura de cena, a engenharia acústica, técnica e eletrónica, o desenho da teia de varas de iluminação e de maquinaria de cena, assim como a configuração dos espaços de controlo técnico, de produção e criação artística. Além disso, há que satisfazer as exigentes normas de segurança, a definição clara de espaços e circuitos de públicos, artistas e técnicos, tendo em conta a qualidade espacial e o conforto físico de todos.

No caso dos teatros (ou cineteatros), a carga técnica e a organização funcional são tão complexas como noutros edifícios, com a diferença de que estão mais concentradas espacialmente na “caixa de palco”. Isto sem esquecer que uma das particularidades destes equipamentos, centra-se na sua relevância social, tanto na carga simbólica da sua inserção urbana, como elemento de referência no território e no imaginário da população, como nos modos do uso do interior, onde se aspira a um espaço que promova um ato social crítico.

Porém, o valor de 800 mil euros estimado para a execução da obra fez-me temer que todos estes requisitos não teriam sido devidamente acautelados. E depressa fiquei a saber que os meus receios tinham fundamento, através de um anúncio publicado em Diário da República, onde se concluía que a empreitada custaria afinal perto de 5 milhões de euros (ou seja, quase cinco vezes mais do que o valor inicial…), uma diferença que a Câmara Municipal se apressou a explicar com a necessidade de fazer alterações ao projeto inicial, sustentando que “foram apenas realizados ajustes não muito significativos” (?!), no cumprimento de algumas condições impostas pela elaboração dos projetos de especialidades.

Portanto, se levarmos à letra a declaração de Luís Filipe Menezes, o Cineteatro Almeida e Sousa ficará “ad aeternum” no “estaleiro” das concretizações adiadas, que importava colocar na “agenda das obras inadiáveis” da autarquia, ou corremos o risco de ser confrontados com um “arremedo” de projeto de requalificação incompatível com o elevado interesse histórico e cultural do imóvel. Quero, porém, acreditar no bom senso do timoneiro da Câmara de Gaia, que encontrará os meios financeiros (quem sabe, se provenientes do saldo de gerência positivo do ano 2025, de montante superior a 92 milhões de euros), para recuperar condignamente aquele velhinho espaço cultural, dotando-o das condições mínimas necessárias para o cumprimento da sua missão, mesmo que custe… 5 milhões de euros! O que importa é que ele responda às exigências que se colocam ao desenvolvimento de uma programação moderna, inovadora e diversificada, que estabeleça e aprofunde relações privilegiadas com a comunidade e abra novos horizontes aos públicos e artistas mais jovens!