Vivemos numa sociedade de consumo. Os dias em que celebramos, seja o que for, são os presentes que vamos oferecer aos que nos são próximos. Ao entrarmos no nosso café de todos os dias, ou na papelaria, despertamos para a próxima data comemorativa que se aproxima, porque a decoração nos recorda que temos que comprar X ou Y presente para aquele dia.

A ansiedade transborda nos cálculos sobre o tempo que teremos para procurar o presente ideal ou para o fazer.
O Dia de São Valentim não é nem foi uma excepção.

Vimos amor pintado em todo o lado, com corações, como se o amor fosse coisa que se encontrasse em qualquer esquina a não ser, está claro, que as antenas Tinder estejam ligadas…
A hipocrisia que liga pessoas e famílias nestes dias comemorativos, como o Natal, repete-se no Dia de São Valentim, ainda que se repita noutro contexto.

Quantos homens e mulheres não são presenteados nesse dia com um jantar romântico na mesa ou no restaurante X ou Y, ou com um belo ramo de flores, ou garrafa de vinho, quando os 364 dias do ano são regados a violência, quer seja física, quer seja psicológica, ou com ambas.

Quantos homens e mulheres têm o conceito de amor deturpado porque a vida não lhes trouxe melhor sorte, ou julgam que o seu fado é apenas aquele que conhecem: uma vida a dois, de companheirismo, em que a perda do romance é encarada como consequência natural do tempo, porque a paixão é coisa passageira e o Amor retrata a lápide de anos juntos, que somará bodas de prata ou, mais tarde, de ouro.

A violência entra muitas vezes e vai sendo aceite pela vítima porque a casa está paga pelos dois, ou, neste momento, é o emprego dela ou dele que sustenta os alicerces do quotidiano.

Ou então porque os filhos são dos dois, e necessitam dos pais juntos, ainda que a casa trema diariamente e sejam as armas de arremesso do agressor(a) contra a sua vítima.

Os motivos são variadíssimos e a nossa sociedade tem estado, e bem, preocupada com a sensibilizacao para a violência doméstica ainda que me pareça que não solucione o problema focarmo-nos apenas na vítima e não na vítima e no agressor(a).

Preocupamos-nos em proteger a vítima, mas esquecemos que o agressor(a), aquele monstro horrível, para além de culpabilizado, tem que ser reabilitado, para que os seus comportamentos não sejam replicados numa nova vida e ganhe consciência real dos erros e do crime cometido perante a pessoa “querida”.
O fenómeno de bilheteira “ as cinquenta sombras de Grey” tem estreado ano após ano em época de dia de São Valentim.

Não é ao acaso que faço esta referência.
Em Espanha já foram denunciados dezenas de casos de violência no namoro, no seio dos mais jovens, com base em acordos de submissão numa tentativa psicopata baseada neste filme.
São descritos abusos, violações, ingestão do próprio vómito, submissão, como se o submisso fosse um animal doméstico etc…

A agressividade não é coisa que nasça apenas em algumas pessoas, nem é um bicho incurável da psicopatia destes monstros emocionais.

A agressividade navega hormonalmente em todos os seres humanos e é curioso que um bom número de agressores em dado momento da vida já foram vítimas o que nos alerta para a possibilidade das vítimas virem a ser agressoras, quer psicológicas quer físicas…
Para não falar que muita agressividade pode derivar de um quadro patológico que tem efectivamente um caminho ” curativo”.

O ciclo de violência, para ter um fim, tem, uma vez por todas, que nos fazer trabalhar em ambos os lados, ao invés de ficarmos apenas pela protecção da vítima e pela tentativa, na maioria das vezes frustrada, de culpabilizar na lei o agressor(a), devemos pensar em estratégias para a sua reabilitação, de forma a que este ciclo vicioso tenha um fim, e não se replique pela vida fora do agressor(a).