1 de março passa a ser mais uma data marcante da centenária empresa Eduardo Ferreira e Filhos Lda. Neste dia, foi apresentada publicamente o primeiro lote de Rum 100% Açoriano (produzido e destilado nos Açores), uma das muitas novidades que a empresa açoriana tem previstas para 2017.

Além desta aposta na cana-de-açúcar para o fabrico do Rum, outros projetos estão em vista. Contudo, Eduardo Ferreira garante que só investirá fortemente em novas ideias caso os Açores consigam operar em pé de igualdade com a Região Autónoma da Madeira, no que toca ao imposto sobre o álcool e sobre os apoios existente sobre as culturas.

 

 

 

1 de março, um dia histórico para a empresa Eduardo Ferreira e Filhos Lda. porque é o dia em que o primeiro lote de Rum Açoriano conhece a luz do dia. É um momento importante. Lutou por ele?
Logicamente. Este é um dia em que colocamos os Açores no mapa de produtores de Rum, o dia em que apresentamos esta novidade. Desde já há vários anos que tínhamos esta vontade, há muito que tentávamos experiências com a cana-de-açúcar, talvez mesmo há mais de 10 anos, mas só agora é que decidimos arrancar a sério com este projeto. Já temos alguns hectares de plantação e o nosso objetivo é colocar os Açores como potencial produtor de rum de qualidade porque temos todas as condições para o fazer. A nossa cana-de-açúcar tem um aroma totalmente diferente e não é difícil chegar a essa conclusão porque, normalmente, toda a fruta que é produzida na região, seja a banana, o ananás, o maracujá, ou a tangerina, devido ao nosso clima, tem um aroma diferente. E a nossa cana-de-açúcar não foge à regra. Outra vantagem é que, pela experiência que tenho, podemos colher duas vezes no ano, e isso é raro, normalmente, é uma vez por ano. Ou seja podemos, nós na produção, quer os potenciais produtores regionais, obter o máximo rendimento das suas culturas.
Quais os principais objetivos que tem com este novo produto?
O nosso objetivo é colocar os Açores como potencial produtor de rum, e também rentabilizar algumas propriedades como quintas que estão sub-aproveitadas nos Açores. Queremos partilhar este investimento com produtores regionais, criando oportunidades para muitos. Para os Açores é um produto novo, mas não estou a descobrir a cana-de-açúcar, já em 1540 se produzia aqui na Ribeira Grande à volta de 20 mil arrobas de cana-de-açúcar. Aliás, no Norte Atlântico, a primeira região onde foi introduzida a cana-de-açúcar foi os Açores. Dos Açores foi para a Madeira e da Madeira para Cabo Verde. E, mais tarde, daqui para o Brasil e para o Havai. Ou seja, a cana-de-açúcar não veio do Brasil, diz a história que é oriunda das Índias. Acreditamos no potencial da cana-de-açúcar e não só para a produção de Rum, esta matéria-prima pode ser utilizada para muitos fins e trazer muita riqueza aos Açores. Desde a Mel de Cana até à utilização ao aproveitamento do Bagaço na produção de rações animais. Temos a certeza que estamos perante uma oportunidade única.

Há alguma dificuldade?
Temos uma enorme dificuldade pois vivemos num mercado livre e como tal deveríamos ter acesso aos mercados da mesma forma que, em toda as regiões ultra-periféricas da União Europeia. Isto faz com que sem esta acessibilidade ao mercado o investimento seja praticamente impossível. Repare que estas regiões têm apoios não só à produção da cultura da cana-do-açúcar como também na redução do imposto do álcool. Para podermos fazer chegar os nossos produtos aos principais mercados como a Europa Continental e aos Estados Unidos e operar como qualquer empresa Continental, faz todo o sentido (aliás faz parte das regras e valores fundamentais da União Europeia) que existam estes apoios. Reforço, têm é de ser para todos e aí precisamos de todo o apoio e empenho do Governo Regional dos Açores em desbloquear esta situação. Queremos criar muitas centenas de postos de trabalho diretos e indiretos com este grande projeto.

O que espera deste novo produto?
Tal como qualquer produto lançado pela Fábrica de Licores Eduardo Ferreira queremos lançar um produto de elevadíssima qualidade, um produto diferente e melhor do que o que existe e é importado de muitas partes do mundo. Veja-se o exemplo do Licor de Maracujá do Ezequiel, o licor mais medalhado de Portugal pela sua qualidade. Temos o saber-fazer e temos das melhores matérias primas do mundo, porquê esperamos?…

Há, realmente, a ideia que os produtos dos Açores são de excelente qualidade, mas não haverá o risco de tentativas de adulterar esta situação, de haver empresários menos corretos, que aproveitando a onda dos Açores estarem na moda, vendam a “banha da cobra”?
Diferenciamo-nos dos outros porque temos o saber-fazer e temos a melhor matéria-prima. Os nossos consumidores sabem o que estão a consumir, não começámos a produzir bebidas há pouco tempo. Há muita coisa no mercado, boa e má, mas cabe às entidades competentes verificarem se as informações dos rótulos dos produtos são verdadeiras, fazerem análises aos produtos, de modo a garantir que nunca se perca a imagem de qualidade dos produtos dos Açores. Sabemos que aqui há muito por fazer. Pedimos também aos consumidores que denunciem estas práticas, veja-se por exemplo que existem produtos no mercado hoje em dia que utilizam indevidamente a palavra Açores, bem como outras que induzem o consumidor em erro. Isto tem de acabar.

Portanto, o turista que visita os Açores e procura os produtos regionais também tem de ter em atenção o fabricante dos respetivos produtos.
Sim isso pode acontecer, há muito trabalho de fiscalização que deveria ser acentuado. Se as pessoas procurarem os produtores originais, normalmente isso não acontece. E quem opta pelos nossos produtos tem a garantia de qualidade.

 

 

“O nosso Governo tem dado a quem quer investir seriamente grandes oportunidades, mas há muita gente que não aproveita isso”

Tem-se notado um incentivo por parte do Eduardo Ferreira e da sua empresa no sentido de uma interação cada vez mais forte com os produtores locais, incentivando até à produção, assumindo quase o compromisso de lhes comprar a produção. O que é que o leva a fazer isto?
Queremos acrescentar valor aos produtos e matérias primas da região, queremos ajudar os produtores regionais a serem mais competitivos e a crescerem connosco. Uma das produções que queremos dinamizar, para além das várias que já temos é a Uva de Cheiro. Essencial para a produção do afamado Vinho de Cheiro dos Açores. Hoje é uma cultura em grandes dificuldades na região apesar do seu produto produto final (Vinho de Cheiro dos Açores) ser muito vendido. O que podemos garantir aos produtores e aos consumidores é que o Vinho de Cheiro da Fábrica de Licores será 100% original dos Açores.

Há um ano contou-nos que tinha uma série de projetos e neste último ano realizaram-se vários desses projetos como a Laranjada do Ezequiel.
A Laranjada do Ezequiel tem sido de facto um sucesso, é um produto diferente dos existentes porque é produzido com laranja. Em 2016 lançamos não só a Laranjada do Ezequiel como também o primeiro Gin destilado nos Açores – Goshwak Gin – Premium e com 3 variantes de sabores (maracujá, ananás e tangerina) e o Licor de Chocolate e Menta. Temos muitos mais em carteira, mas o que lançamos queremos que seja verdadeiramente diferenciador pois é esta a imagem que temos nso nossos consumidores.

O aparecimento da Laranjada do Ezequiel surge por necessidade de suprir alguma falta, porque já era um produto existente na região, ou para demonstrar que é possível fazer melhor?
Nós conseguimos fazer melhor, sem dúvida. A nossa Laranjada tem na sua composição Laranja verdadeira, pelo que só isso já faz toda a diferença. O sabor conseguimos mantê-lo tal e qual o que os Açorianos tão bem conhecem, o que temos é um produto que lembra o antigamente.

Lançou também, recentemente, o Gin. Os objetivos estão a ser alcançados?
Lançamos quatro Gins – Premium, Tangerina, Maracujá e Ananás – e ficamos sem stock em apenas três semanas. Agradecemos a confiança dos açorianos neste produto. Somos o primeiro Gin produzido 100% na Região e isto faz toda a diferença para quem consome Gin. Este ano precavemo-nos muito melhor e estaremos prontos para satisfazer todo o consumo. Teremos também novidades quanto a este produto que em breve desvendaremos.

Além dos EUA, o Continente é sempre um objetivo para a Eduardo Ferreira e Filhos Lda?
O Continente poderia ser muito mais forte que o que é hoje, somos todos portugueses e todos gostamos de produtos portugueses de elevada qualidade. O Problema é que não estamos em pé de igualdade para com as empresas que competem no mercado Continental. Dou apenas um dos vários exemplo que ocorrem por essa Europa fora: as Ilhas Martinique e as Ilhas Gaudalupe têm redução de imposto de álcool para poderem colocar os seus produtos em Território Nacional Francês, faz todo o sentido que assim o seja. Os Açorianos não o podem fazer. Enquanto tal não for possível, nunca poderemos explorar verdadeiramente este mercado. A Fábrica de Licores tem capacidade instalada para o fazer e há muitos anos que lutamos junto das Autoridades Regionais, Centrais e Europeias. Mais uma vez falamos de um investimento que trará centenas de postos de trabalho à região e uma diminuição evidente das importações. Trabalhamos com alguns distribuidores no Continente, mercado em que tentamos lançar campanhas de marketing para nos auxiliar a vender mais.

Portanto, os comerciantes do continente podem contactar diretamente a empresa ou aguardam que essa campanha de marketing chegue?
Atualmente, temos a Mercearia dos Açores – na Baixa de Lisboa – que fornece os clientes que temos. Através deste espaço, a Fábrica de Licores Eduardo Ferreira leva para o Continente não só os seus produtos como também centenas de outros produtos alimentares de elevada qualidade. É verdadeiramente uma meca para todos os Açorianos do Continente assim como para qualquer interessado na nossa gastronomia e costumes. Contamos também com várias parcerias com distribuidores e estamos a finalizar uma parceria que poderá ser muito promissora.

 

 

Mais projetos se avizinham

Como resume este último ano de atividade?
Mais um ano de crescimento, com grande investimento em marketing e na valorização dos produtos e das matérias primas da Região. A liberalização das linhas aéreas dos Açores tem sido uma boa alavanca para o nosso negócio e para a criação de postos de trabalho. Foi também um ano em que lançamos muitos produtos e criamos muitos mais.

E pode desvendar?
Teremos o primeiro Rum produzido nos Açores, mas certamente que virão muitos mais. Mantenham-se atentos! Mais não podemos adiantar pois ainda estamos em fase de testes e desenvolvimento de produto.

Há um ano, queixava-se de não ser muito apelativo investir em Portugal porque a carga de imposto era de tal ordem que desincentivava ao investimento. E, nessa altura, até estava a pensar investir em Cabo Verde. Nada mudou?
Atravessamos momentos muito complicados, agudizar as dificuldades com mais impostos é errado e desencorajador. Hoje em dia as indústrias estão a ser muito sacrificadas com impostos. É de facto muito difícil. Baixando os impostos vamos ser mais competitivos e vender muito mais e assim criar mais postos de trabalho, vamos criar mais riqueza na região. Mantemos muita vontade em investir na Região, somos Açorianos. Estamos a investir muito em Cabo Verde, um país nosso irmão e que protege os seus produtores e a sua produção. Criamos uma Fábrica neste território através de parcerias locais. Vamos continuar a investir nesta Região.

Também tinha falado que era uma possibilidade exportar os produtos dos Açores para Cabo Verde.
Logicamente. O nosso objetivo é criar uma ligação mais próxima entre Açores e Cabo Verde, ou seja, nesta Região iremos produzir licores e rum com matéria-prima de Cabo Verde. Em contrapartida, vamos produzir Cremes com o leite da nossa Região. Já temos uma gama enorme de produtos derivados do nosso leite, da nossa região, e o nosso objetivo é exatamente esse. É um intercâmbio entre as duas regiões, aproximá-las cada vez mais. E com os voos da SATA, em breve, diretamente para a Praia, facilita o nosso trabalho.

Há muitos empresários nos Açores que criticam a falta de transporte ou de escoamento dos produtos para o continente e outros locais por falta de transportes aéreos para envio de mercadorias. Também concorda que isso é um impedimento?
Vivemos numa Região ultra-periférica, o escoamento dos nossos produtos é um problema, seja pela via aérea como marítima. Hoje custa praticamente o mesmo mandar vir um contentor da Ásia para o Continente, quanto custa trazer um contentor do Continente para os Açores. Só temos um barco por semana a vir do Continente, é complicado trabalhar assim. Com frequência temos mercadoria atrasada porque o o barco está lotado. Todos temos responsabilidades, quer para com os clientes locais quer para com os consumidores, estas dificuldades atrasam-nos. No transporte aéreo o problema é ainda mais grave, temos de ter urgentemente um transporte aéreo dedicado à carga tal como a Madeira tem, seja para exportar os nossos produtos, seja para importar matérias-primas inexistentes na Região. Para mim é simples, hoje não crescemos mais devido a vários problemas nos transportes, os transportes têm de evoluir à semelhança como foi feito na liberalização do transporte de passageiros entre o Continente e os Açores.

Há pouco falou da exportação para os EUA, mas os seus produtos podem ser também aliciantes para outros mercados. Tem perspetivas disso?
Estamos presentes em vários mercados, estamos neste momento a apostar mais na exportação, nomeadamente em mercados emergentes e também na Europa.

Mas apesar de tudo o que referiu, e devido à sua dedicação, a empresa continua a crescer. Até no quadro de pessoal, apesar das dificuldades, houve um incremento.
Criamos novos postos de trabalho diretos no ano passado, estamos seguros que ajudamos a criar muitos mais nos últimos anos, pois temos crescido a faturação ano após ano. E estamos constantemente a inovar e a criar produtos diferenciadores.

Para este ano de 2017, que mais projetos tem?
Já referi várias grandes apostas, reforço a oportunidade que estamos a lançar com a cana-de-açúcar junto dos fornecedores locais/regionais. Vamos lançar o Rum, porque acreditamos que vai ser um produto muito diferenciador e que vai pegar muito bem junto dos consumidores finais assim como junto dos bares e restaurante pois é uma bebida excelente e muito na moda, a nossa será ainda melhor!

Sendo a empresa uma referência no concelho da Ribeira Grande, e sabendo que o presidente da Câmara assume, numa entrevista ao AUDIÊNCIA, que quer transformar a Ribeira Grande na capital do turismo dos Açores e apostando forte na BTL, acha que estão criadas condições para que o município possa também apostar e ajudar no marketing que é necessário para as empresas?
Investimos no Turismo há mais de 30 anos. Na Ribeira Grande temos muito potencial, é uma terra fantástica! Temos as pessoas, a Natureza e a cultura. Fazemos um grande esforço para receber os Turistas como ninguém nas nossas Fábricas e loja no centro da Cidade e em manter processos de produção artesanais e grandes plantações de matéria-prima diretas e indiretas. As autoridades competentes na área devem continuar a apostar nas empresas que de forma duradoura criam postos de trabalho e riqueza que fica efetivamente na região. Acreditamos que temos muito mais potencial que o que é explorado hoje.

Disse que esta era a casa mais visitada do concelho da Ribeira Grande. Há até algumas figuras que já passaram por aqui…
Acredito que sim, fazemos um grande esforço em receber bem todos os que nos querem visitar. Investimos nas nossas Fábricas para torná-las locais interessantes aos turistas e a individualidades. Recebemos todos de braços abertos, afinal de contas somos Açorianos com muito orgulho. Ao longo das décadas tivemos o prazer de receber muitas Individualidades, do Cinema, Televisão e da Política (de todos os quadrantes) e de diversas outras áreas. Há uns meses recebemos o Sr. Dr. Alberto João jardim, um grande amigo meu de há mais de 30 anos e que deixou uma mensagem pública muito motivadora para o futuro da nossa empresa. Aguardamos em breve a presença do Sr. Presidente da República, Dr. Marcelo Rebelo de Sousa.

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