UM PARQUE VERDE NAS DEVESAS… E O MUSEU DO AMBIENTE?

A notícia foi dada com o claro sentimento de uma grande conquista por Luís Filipe Menezes. Gaia vai passar a ter um novo parque verde inserido no meio urbano, desta vez na zona das Devesas, lugar servido pelo transporte ferroviário e rodoviário e em breve também pelo metropolitano, quando a Linha Rubi estiver em funcionamento. O novo espaço verde público parece resultar da negociação com um privado, no âmbito da urbanização de lotes de terreno naquela zona, tendo a autarquia conseguido ficar com “seis hectares”, acrescidos de um “cheque” de “550 mil euros”. E, para o efeito, o autarca terá delegado a concretização daquele parque na Águas de Gaia, sob orientação do seu atual consultor e antigo presidente.

Luís Filipe Menezes fez saber ainda que este novo espaço público receberá a designação de “Parque Águas de Gaia”, como forma de homenagem aos trabalhadores daquela empresa municipal, sublinhando que, por existirem terreno e financiamento, não faltará muito tempo para que se deite mãos à obra, não se comprometendo, no entanto, com datas para a sua concretização, embora se fale informalmente em cerca de um ano e meio para a efetivação do projeto. O presidente da autarquia reforçou, apenas, que foi lançado o desafio a Poças Martins para abraçar o empreendimento, e que este já tem parte das condições reunidas, tanto no que respeita à área disponível, como ao seu suporte financeiro.

Esta boa notícia traz-me à lembrança um outro projeto previsto para aquela zona da cidade, a nascer em terrenos da antiga Fábrica de Cerâmica das Devesas, para onde, em 2010, no último dos primeiros quatro mandatos de Luís Filipe Menezes, o arquiteto Joaquim Massena tinha projetado construir 137 casas, 215 lugares de estacionamento e 10 espaços comerciais, o que acabou por não se concretizar devido ao facto de o promotor ter entrado em insolvência. E, nessa sequência, aqueles terrenos que albergaram uma unidade fabril que ganhou grande notoriedade em 1900, ao conquistar a Medalha de Prata na Expo de Paris, assumindo depois uma grande relevância social, com a criação de um Asilo e de uma Creche, voltariam a ser votados ao abandono, retomando a sua morte lenta iniciada nos anos 1980.

Até que, em 2017, o edil de Gaia Eduardo Vítor Rodrigues, anunciou a compra dos terrenos por valores superiores a dois milhões de euros, com a intenção de ali criar um “Museu da História de Gaia e da Cerâmica”, que albergaria um auditório com capacidade para 500 pessoas, sendo 60% do espaço para fruição pública, com espaços verdes. A abertura do respetivo concurso público internacional seria aprovada em reunião camarária a 17 de fevereiro de 2018, tendo sofrido, poucos meses depois, alterações na sua tipologia e designação (“Gaia Museu-Ambiente”, dedicado às questões ambientais), contrariando a ideia inicial de construção de um espaço que preservasse a memória da cerâmica na cidade.

A verdade é que esta alteração abre portas a um elevado risco de nos confrontarmos no futuro com um projeto híbrido, focado em múltiplas frentes de intervenção, que poderá acabar por diluir em pouco mais do que nada o grande objetivo que determinou a luta empreendida desde 1986 pela classificação do que resta daquele complexo fabril em monumento nacional. O que se pretendia era a salvaguarda da história de uma das mais importantes estruturas fabris do país ligadas à cerâmica, indústria que teve um papel determinante no desenvolvimento no nosso concelho. E, para isso, impor-se-ia a criação de condições que facilitassem a realização de um profundo estudo do setor e sua evolução ao longo de todo o século XX, o que permitiria fazer com o máximo rigor o retrato de uma época, de um estilo e de uma visão social que marcou definitivamente a história de Gaia.

Por outro lado, lamenta-se que a aquisição do terreno para a implementação deste projeto tenha deixado de fora uma área de 3.000 metros quadrados, entre a rua Conselheiro Veloso Cruz e a linha de caminho de ferro, que albergava os fornos da antiga Fábrica de Cerâmica. Perdendo-se assim um importantíssimo pedaço da história de Vila Nova de Gaia, que foi líder da indústria cerâmica no nosso país, com mais de quarenta unidades em plena laboração no século XIX, a sua maioria com ligação aos movimentos artísticos centrados nas figuras de Soares dos Reis e Teixeira Lopes, como foi o caso da Fábrica de Cerâmica das Devesas, fundada em 1869 e que se manteve em laboração até meados do século XX, um património que se foi degradando de forma acentuada a partir daí e até aos nossos dias, ao mesmo tempo que era alvo de derrocadas e pilhagens que comprometeram de vez a sua integridade, sem que nada fosse feito de relevante para o evitar. Lamentavelmente, digo eu!…

Mas ainda vamos a tempo de recuperar a ideia inicial de consagrar naquela zona da cidade um espaço museológico integralmente dedicado à indústria cerâmica, mesmo mantendo nas Devesas o famigerado “Gaia-Museu Ambiente” que o veio substituir. Basta adquirir o terreno de 3.000 metros quadrados acima referido, que corre o risco de total e irremediável degradação, levando à destruição e desaparecimento do pouco que ainda ali resta da história da Fábrica de Cerâmica das Devesas, que foi muito mais de que uma unidade fabril ou “apenas” uma cerâmica de grande prestígio. A sua vertente cultural era muito mais vasta e diversificada. Também tinha pintura e escultura! E contribuiu para a emancipação de muitos artistas! Por tudo isto, torna-se premente a necessidade de salvar este valioso património da ruína, procedendo à sua requalificação e dando-lhe uma nova vida… digna!