No edifício nº 102 da Rua Nossa Senhora da Conceição, desde 1922, que se pode encontrar uma casa cheia de tecidos, lãs, fitas e botões de diferentes tamanhos e cores. Quem lá passa não percebe o tesouro que a loja esconde. Com uma vasta história gravada nas paredes do edifício, Filomena Cunha, em conversa com o AUDIÊNCIA, fala sobre os seus 28 anos a gerir a “Arco Íris”, as dificuldades e o que espera do futuro de Ribeira Grande.

Dona Filomena, há 28 anos que está aqui, como veio aqui parar?
Eu nasci aqui na cidade e fui criada aqui e o estabelecimento já existia. Era o pai do meu padrinho que era o dono aqui da loja, Sr. Mariano. Aqui na Ribeira Grande era a única loja com tecidos a metro e com botões, que vendia para todo o concelho. Eu estou aqui em casa a viver desde os meus 7 anos mas, quando casei fui viver para Coimbra e depois quando regressei já trazia dois filhos e a terceira já nasceu aqui. Naquela altura, a loja estava fechada devido à doença do Sr. Mariano e eu ao regressar tomei conta deles como se fossem de família, eram pais para mim. E, assim fui ficando e acabei por reabrir a loja.

Uma casa que se dedica a vender…
Muita variedade de artigos. Começando pelos tecidos para cerimónia, os botões, as fitas, artesanato, as malas, tudo o que diz respeito a cerimónia. E, tudo o que faz parte da retrosaria, as lãs, as agulhas, as telas, as linhas. Temos que ter uma variedade grande porque a loja do Arco Íris já tem 28 anos e sempre tivemos vontade de criar e ter o que o cliente precisa. Quando uma costureira vem aqui leva praticamente tudo o que precisa para fazer um vestido.

Estar aqui no concelho da ribeira grande é fácil para um comerciante sobreviver?
Não é nada fácil. Quando eu abri as portas, em 1988, não tinha muita experiência sem ser em balcão mas, é muito diferente ser-se gerente, temos que fazer as compras, temos que fazer os pagamentos, são mais responsabilidades. É uma vida totalmente diferente, e, não tem sido fácil. Os anos passam e vamos vendo se de ano para ano as coisas melhoram. Vamos tendo aquela esperança. Eu não tenho hora de almoço trabalho de manhã e até as 19h tenho sempre a porta aberta.

Mas, relativamente, à Ribeira Grande tem notado alguma diferença em termos de clientes?
A nível de clientes e de movimentação está muito muito melhor. Isto é, nota-se nas pessoas que vêm dia-a-dia, aparecem pessoas diferentes e acabamos por criar uma ligação. As pessoas acham-nos simpáticos ao balcão e conversamos um bocadinho. Uma vem de Ponta Delgada, outras dos Arrifes, temos também clientes da Vila Franca, da Lagoa, são pessoas que compravam em Ponta Delgada e que agora vêm à Ribeira Grande. Eu ouço que falar que algumas lojas de Ponta Delgada do mesmo ramo dos tecidos já estão mais fracas, e as pessoas começam a procurar noutros sítios e aqui encontram e ficam satisfeitas. As pessoas vão passando a palavra umas às outras e, claro, vêm mais clientes daquela zona.

Estar numa cidade à beira da capital poderia ser prejudicial mas, neste caso, não é e até vai atrai clientes.
Nós damos por isso. Já, o ano passado começamos a notar e este ano temos estado com clientes de bem mais longe.

Então, dá razão ao presidente da Câmara quando diz que Ribeira Grande está na moda.
Sim. Em alguns aspetos sim e ainda bem. Devia de haver mais aspetos diferentes aqui na Ribeira Grande, e, tem aberto algumas coisas engraçada,algumas têm sucesso outras nem tanto.

Olha-se aqui para um lado e vê-se milhares de botões, linhas, lãs, fitas e tudo em grande quantidade. Tem clientes para isto tudo?
Há muita gente com gostos diferentes e, por isso, temos que ter muita variedade. Quando se vê a entrada ali fora não percebe realmente o que temos cá dentro. Estas miudezas claro que dão muito trabalho, há muitas cores, diferentes padrões e, hoje em dia, o cliente é muito exigente.

Quer dizer que quem não encontrar aqui não encontra em mais lado nenhum.
Isso é verdade, não encontra mesmo em lado nenhum.

Neste Natal, que passou, o que é que os clientes procuraram mais na sua casa?
Os tecidos para passagem de ano, as decorações para os tecidos, as aplicações, as rendas e as toalhas de Natal.

Ainda há muitos clientes na Ribeira Grande que preferem o trabalho ao feitio do que o comprado feito?
É assim, muitas das pessoas, hoje em dia, estão a mandar fazer as próprias roupas porque não há nada a gosto nas lojas onde procuram mesmo nos grandes centro comerciais encontram muitas roupas prática para as jovens. Ora, uma senhora já com uma certa idade se quer um vestido para ir a uma cerimónia vai a um grande centro comercial, e, é difícil de encontrar para o seu tamanho. As pessoas optam por fazer um desenho ou imaginam ou até veem numa revista, na televisão ou num filme, tiram mais ou menos o desenho e depois vem aqui comprar o tecido. Nós tiramos a medida, aconselhamos qual é o melhor tecido, temos sempre esse cuidado de dar uma opinião, de ajudar, proporcionamos um atendimento personalizado. As pessoas agradecem e contam a outra amiga ou a tia e isso é muito importante num negócio. É o que nos dá aquela alegria de continuar.

 

Quem olha de lá de fora diz que a loja é uma caixinha de surpresas porque o aspeto exterior não é de quem tem tudo mas, chegando cá dentro é a surpresa completa.
É verdade. muita gente que vem comprar lãs, vê na mostra que temos,e quando entram dirigimos-las sempre ao armazém porque tem imensa quantidade de lã com padrões e cores diferentes. As pessoas ficam mais à vontade e até quando chegam dizem ”Meu Deus, tem aqui muita coisa, ninguém o diz que tem” e é verdade. É bom ter quantidade e variedade para as pessoas escolherem.

Ao longo destes 28 anos, já teve alguma altura que quis desistir?
Sim, já tive, até mais do que uma vez.

E, está arrependida de não o ter feito?
Não, eu se o fizesse se calhar arrependia-me mas, não estou arrependida por não o ter feito. Foi bom continuar porque eu não tinha idade de vir para a reforma. Não ganho praticamente nada, é tudo quase só para os impostos. Mas, ao menos, é um sonho que se está a tornar realidade, é fruto de muito trabalho que eu construí com muito gosto e com muito esforço meu e do meu marido.

Qual o papel do seu marido?
Ele ajuda muito. É ele que vai ao correio quando é preciso, ao banco e ajuda aqui à frente apesar de termos aqui uma funcionária, que é o meu braço direito, é sempre necessário duas pessoas ao balcão.

Estamos no início de 2017, o que é que queria que acontecesse este ano?
Que os juros baixassem mais e que o comércio tradicional fosse mais apoiado que eu nunca o fui. Nós queremos expor algumas coisas que tenho em caixas e que se tivessem expostas vendiam-se melhor mas, eu não tenho dinheiro para isso e se fosse apoiada pela Câmara ou pela a Câmara de Comércio, claro que era muito bom. Quando acontece as marchas populares, a Câmara e as escolas podiam vir às lojas tradicionais mas, decidem fazer as encomendas pela internet. Isto não é dar apoio aos comerciantes.

Quando eu venho para aqui vejo uma placa a dizer Associação dos Comerciantes da Ribeira Grande, isso existe?
Teoricamente, existe mas em termos práticos não será muito viável porque muitas pessoas não querem pagar uma quota simbólica.

Apesar dessas dificuldades, no concurso de montras conseguiu ficar em 3º lugar.
Graças ao nosso esforço! Fizemos um esforço bastante grande como sempre, foram o serões bem agarrados às bolas para decorá-las e fazê-las com todo o gosto e ,depois, vê-las a ficarem lindas.

O que queria que acontecesse em 2017 na sua Ribeira Grande?
A Câmara tem feito bastantes eventos e acho que tem sido muito bom. As pessoas gostam e acho que se tem que sair à rua e passar uns serões. No verão, claro que há muito mais turismo  e as pessoas gostam de estar em grupo, por isso, tem que haver festas, por exemplo a Festa Quinhentista é uma das coisa que as pessoas gostam de participar e de estar.
O ano passado, num período de um mês, tiveram aqui mais de 30 mil visitante para um concelho que tem 34  mil habitantes.
As viagens baratas foi uma das coisas boas que nos aconteceu só que é bom por um lado e mau por outro já que os nossos emigrantes vêm todos os anos e antes compravam tiras de rendas, toalhas, ou seja, levavam coisas maiores que custavam 40 ou 30 euros porque não havia a questão do peso, hoje em dia, como há essa questão as pessoas limitam-se a levar um paninho de 3 euros e tal. Isso foi muito mau para o comércio. Nós sentimos essa diferença no verão. A economia vem logo abaixo. Eles querem trabalhar num aspeto para o turismo  mas não vale de nada para o comércio pois não vendemos. Quem está top, neste momento, é a hotelaria e a restauração porque aqui nas nossa lojas tradicionais as vendas baixaram.

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