VIDAS COM HISTÓRIA, MUITA PAIXÃO

Falamos com Artur Vieira, antigo Diretor do Agrupamento de Escolas de Canelas, com um percurso de mais de 20 anos diretivos. 

 

Já referiu, noutras alturas, que os momentos menos positivos também fazem parte do percurso que até hoje percorreu. Gostaria de falar um pouco sobre essa ideia de “fracasso” na área da educação, sobretudo quando alguém se candidata a diretor e não é eleito. Existe a possibilidade de, mais uma vez, não conseguir esse lugar. Considera isso um fracasso? E como se gere essa frustração?

Uma das coisas que aceito menos é quando um candidato, ou alguém por ele, tenta denegrir a nossa “imagem” descontextualizando episódios reais e criando verdades que não existem na essência e na sequência de muitos processos. Mas, recuperando a pergunta, importante é que não se veja isso como fracasso, ainda que outros o possam dizer. Isso não altera aquilo que realmente importa: o que eu penso sobre o meu percurso e o trabalho que tenho desenvolvido.  Na educação, como em qualquer área exigente, há momentos em que não se alcança o objetivo pretendido. Pode haver quem, naquele momento, seja escolhido, pode haver contextos que não favorecem a decisão. E isso deve ser encarado como parte do caminho, não como um ponto final. O que me define não é o resultado de um ato eleitoral isolado, mas o conjunto do meu trabalho, o esforço contínuo, a dedicação às escolas por onde passei e o impacto que consegui gerar. Enquanto houver compromisso, enquanto houver trabalho sério, respeito pelas comunidades educativas e paixão pelo que se faz, não há razão para desistir. Não há percursos perfeitos, nem vitórias constantes. Há consistência, há coerência e há construção.

 

Considera, então, que é injusto falar em fracasso nestas situações?

Não diria que é uma questão de justiça ou injustiça. Diria que não é relevante. Cada um interpreta como quiser.  O que verdadeiramente importa é a leitura que fazemos do nosso próprio percurso e daquilo que construímos.

 

E qual é, então, a sua leitura?

Já a dei. O essencial é o que fiz, o que faço e aquilo que ainda tenho para dar. As opiniões externas não mudam a consistência do trabalho desenvolvido nem os resultados alcançados nas diferentes escolas onde tive a oportunidade de intervir.

 

E como se lida com isso no dia seguinte a não ser eleito?

Com naturalidade e com sentido de propósito. Levantamo-nos no dia seguinte com a consciência tranquila: fizemos o nosso melhor, apresentámos um projeto sério, estivemos à altura. E depois, seguimos. Continuamos a trabalhar, a contribuir, a melhorar. Porque liderar não é apenas ocupar um cargo, é influenciar, é construir, é deixar marca. Se surgir uma nova oportunidade, cá estarei, com a mesma convicção. Porque sei o que valho, sei o que fiz e sei o que posso continuar a fazer. Nem todos os profissionais chegam onde ambicionam à primeira, nem à segunda. Muito poucos conseguiram o que até hoje eu consegui. Isso valida o nosso valor. Ao longo do meu percurso, nos vários agrupamentos onde trabalhei, fui sempre uma resposta afirmativa. Consegui implementar ideias, mobilizar pessoas, alcançar resultados. Isso não desaparece por não ter sido eleito num determinado momento. Na educação, como na vida, perde-se mais vezes do que se “vence” em momentos formais. Mas o verdadeiro ganho está no impacto que deixamos. E isso, mesmo que hipoteticamente queiram branquear, permanece.