Hoje, dia 14 de Março de 2020, a Vila de Rabo de Peixe, do Concelho da Ribeira Grande da Ilha de São Miguel dos Açores seria festejada na Nova Inglaterra como o melhor cantinho do mundo.

Pelo vigésimo sexto ano consecutivo os Amigos de Rabo de Peixe levariam a efeito a sua confraternização anual. Mas na onda das percauções contra o alastramento do vírus que alarmadamente causou pandemia foi mais uma festa, como tantas outras, cancelada às últimas horas, faltando cerca de setenta para o tempo da sua realização. Lamentamos, porque conhecemos perfeitamente a medição dos esforços, as dores de cabeça e arrelias que a vontade de realizar estes eventos nos traz, e a alegria que o seu sucesso nos proporciona.

Uma nota de última hora saiu na edição de ontem do O Jornal, dizendo que o convívio “foi cancelado, depois de conversações com o Restaurante Venus de Milo, devido ao risco do Coronavírus, que é maior com a concentração de muitas pessoas. O Convívio foi adiado para data a anunciar pelos Amigos de Rabo de Peixe.

     Já numerosas vezes participámos nestas confraternizações de naturais e amigos da Vila de Rabo de Peixe. Por várias razões. Duas das quais temos de destacar: uma porque sou amigo da Vila; outra porque sou um grande camarada pessoal de Manuel Falcão Estrela – a alma dos Amigos de Rabo de Peixe, Inc. USA. Já, agora, se me permitem, deixem dizer-vos que amor por Rabo de Peixe como o do sr. Manuel Estrela não existe em parte nenhuma. A elevação de Rabo de Peixe à categoria de vila ficou registada pela motivação e pela vontade dos seus filhos da Nova Inglaterra, organização da qual Manuel Estrela faz parte desde a sua fundação. Só que, antes deste grupo ser formado o jornalista de Fall River já dizia que não morreria sem ver a sua terra ser Vila. Numa das nossas publicações anuais, por volta de 1995 ou 1996, numa colaboração escrita que lhe havíamos solicitado veio um texto que defendia e justificava a elevação a Vila da sua freguesia.

Com a fundação do círculo de amigos, onde se incluía Heitor Sousa, a ideia ganhou mais força e o sr. Estrela coroou os Amigos de Rabo de Peixe com a glória do 25 de Abril de 2004. Para quem não sabe, fique sabendo que o autor desta crónica pela viragem das décadas 80 e 90 do século passado geria na Beford Street, em Fall River, uma espécie de loja maçónica, da qual Manuel Estrela era freguês. Muitas vezes, às quartas-feiras, seus dias de folga, antes de ir para a Tabacaria Açoriana passava pela Loja, e muito conversava a gente.

  De volta ao convívio que este ano não se realizou: é muito comum nestes ajuntamentos de gente louvar a terra-natal, mas no caso da reunião rabopeixense o ambiente da sala se torna saturado com tantos louvores e vagas de vivas. No entender de alguns, para apagar as imagens ruins faz-se sobressair as boas. Há também aquelas queixas de que se sai da Vila uma coisa boa fala-se da Ribeira Grande, e se sai coisa ruim fala-se de Rabo de Peixe. Dentro do mesmo pensamento, sublinha-se várias vezes que a “aviação”, o antigo aérodromo de Santana, não era da Ribeira Grande, como se diz por aí, mas sim de Rabo de Peixe. Por isso e muito mais, viva a Vila de Rabo de Peixe, da Ribeira Grande!

É que, já agora, convém lembrar isto também. Esta coisa de apanhar peixes, cortá-los ao meio, ficar com os rabos e mandar as cabeças para a Ribeira Grande já passou de moda. Mas também colocar Rabo de Peixe na Península Ibérica é inadmissível. Sim, se Deus não acode a Vila teria sido mudada para Portugal Continental ou Espanha. Um tal de Monsieur Antoine Pierre,numa das suas escrituras publicadas na imprensa micaelense, em 1 de Maio de 2018 e reproduzida no livrinho/programa da festa do ano passado diz que a sua Vila tem a maior fábrica de conservas de peixe da Península Ibérica. Não, não vamos deixar Rabo de Peixe sair da ilha, e muito menos do concelho da Ribeira Grande. Qualquer idiota sabe muito bem que existem quatro arquipélagos ligados politicamente à península, mas fisicamente são dela separados.

     Se o convívio se realizasse, as portas da ampla sala do restaurante Venus de Milo, em Swansea, Massachusetts, seriam abertas  às 17 horas, dando início à hora social. Se a pandemia não existisse os cerca de 600 convivas seriam acomodados nos seus lugares por volta das 18:00, e a partir daí hora seriam dadas as boas-vindas e iniciados os protocolos dos hinos. Servidas as sopas, o resto das cerimónias efectuar-se-ia enquanto a refeição durasse. Seguir-se-ia música para dançar, com várias actuações, das quais destacaríamos Arlindo Andrade e a Despensa.

     O convite de honra deste ano foi endereçado ao empresário rabopeixense José Damasceno Furtado Sousa, e da nobre vila piscatória também havia de vir o presidente da junta de freguesia. A Bandeira da Caridade seria representada pelo seu presidente e pelos seus mordomos actuais. Norberto e Filomena Costa foram nomeados como Casal Imigrante do Ano.

     Os Amigos de Rabo de Peixe, Inc. USA nestes convívios também oferecem bolsas de estudo a estudantes naturais ou descendentes de naturais daquela vila, ao iniciar o ensino superior.

     Por último, como não podia deixar de ser, as atenções focariam a presença especial do presidente da Câmara Municipal da Ribeira Grande, sr. Alexandre Gaudêncio, que nos daria carta branca para dizer nas nossas “fuseiradas” que ele é o presidente da câmara que mais vezes tem visitado os Estados Unidos e o Canadá para participar nestes convívios. Na verdade, sentimo-nos honrados com estas visitas, e esta sensação de proximidade com a terra natal nos dá alento para fazer mais e melhor. É sempre bem-vindo, Sr. Presidente. Fuseiradas à parte.

     Deus permita que a crise que atravessamos seja breve e que se consiga dominar este vírus maldito. As economias se hão-de recuperar e tudo ao normal voltará. Assim como também voltaremos a Rabo de Peixe, se Deus quiser. Há qualquer coisa que me prende entre o Caranguejo, o Rosário e a Cova da Moura. Deve ser por causa de um tal José Francisco da Ponte dos Fenais d’Ajuda, que se enamorando de uma bela sereia se acabou casando com ela. Mal sabia ele que viria a ter um neto com o mesmo nome, e um bisneto que dele se orgulha. Haja saúde, e viva Rabo de Peixe!

Lá fui um dia a admirar

Sua gente, seus costumes.

Lindas paisagens de mar

E sereias aos cardumes.

Cheira-me a peixe fresquinho,

Bailam gaivotas no ar,

Passa gente no caminho,

Flutuam barcos no mar.

Na minha cabeça pus:

Ser emigrante fiel,

Vou visitar Bom Jesus

Quando for a São Miguel.

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