Natural de Gaia e nascido para o teatro, como amador, aos seis anos de idade, na popular coletividade gaiense Sporting Clube Candalense, o ator Ivo Luz é o nosso convidado de hoje para mais uma reflexão sobre o teatro profissional em Gaia. Formou-se como ator no Porto, na Academia Contemporânea do Espetáculo, e em Lisboa, na Escola Superior de Teatro e Cinema, encontrando-se neste momento a tirar o mestrado em Estudos Teatrais na Universidade de Évora.

A sua estreia como profissional aconteceu, em 2009, no Teatro Carlos Alberto, no Porto, com o espetáculo “Avarento”, dirigido por Rogério de Carvalho, numa coprodução Ensemble/TNSJ. Entre os trabalhos realizados a partir daí destaca-se a sua participação nos espetáculos “Doente Imaginário” também dirigido por Rogério de Carvalho para o Ensemble; “Alice”, com direção de Carlos J Pessoa, numa coprodução Teatro da Garagem/TNSJ; “Felizmente há Luar”, com direção de Cláudio da Silva para o TEP; e “Édipo”, uma produção ACE/Teatro do Bolhão, com encenação de Kuniaki Ida.

Integrou depois o elenco de três espetáculos levados a cena no Teatro Municipal Maria Matos (Lisboa): “SUL”, com a companhia chilena Teatro Niño Proletário, “Walking: Holding”, com encenação Rosana Cade e “Gala”, com direção de Jérôme Bel. De seguida, fez com o TEatroensaio “A Longa Noite de Camilo” e “Fantasmas”, no Porto e em Évora. Atualmente, vive em Arraiolos e desenvolve um projeto com o Teatro Niño Proletário. Oiçamo-lo então:

 

Na tua opinião, o que falta para que o teatro profissional tenha uma maior expressão em Gaia?

Correndo o risco de parecer que se está a falar sempre da mesma coisa, acredito que o que mais falta em Gaia para que o teatro profissional ganhe mais expressão é a criação de políticas de criação e fidelização de públicos. Se não me engana a memória, Vila Nova de Gaia é o terceiro concelho com mais população do país. Tendo em conta este facto, tenho ainda mais dificuldade em perceber a quase inexistência de políticas culturais, inexistência essa que não é de agora, mas sim de há vários anos. Apesar de existirem várias infraestruturas com boas condições como o Auditório Municipal, o Cine-Teatro Eduardo Brazão, o Auditório de Oliveira do Douro e as várias salas dos antigos grupos de teatro amador (aspeto histórico importante da cidade), entre outros espaços interiores e exteriores, sempre houve dificuldade na fixação de companhias profissionais nesta margem do rio Douro. Lembro-me que há alguns anos as companhias profissionais instaladas em Gaia eram pouco mais do que o TEP. Não sei se isto foi acontecendo porque a autarquia se foi acomodando à ideia de que o Porto, pela sua proximidade, servia as necessidades culturais da população gaiense, eximindo-se por isso um pouco das suas obrigações, ou se por puro desinteresse no panorama cultural. Mais recentemente, e apesar de andar um pouco distante desta minha cidade, tenho tido a impressão de que a atividade cultural tem começado a despontar um pouco mais, excluindo nestes tempos de Covid é claro. Creio que esta nova atividade cultural se deve mais à intervenção e ação de alguns munícipes do que da autarquia em si, somando a isto a tomada da cidade do Porto por parte dos turistas que acabou por incentivar a migração de alguns artistas e companhias para Gaia. Creio que o melhor caminho a seguir na criação de condições para uma melhor e maior expressão do teatro profissional em Gaia é o incentivo à fixação das companhias nos equipamentos do município, tendo como contrapartida um trabalho das mesmas focado na integração do tecido social envolvente, através de uma atividade conjunta com as associações e escolas locais, respondendo assim às necessidades especificas do meio e contribuindo para a criação e formação de novos públicos, para além de ajudar também a reavivar o associativismo tão característico desta cidade.

 

Defendes, portanto, um plano estratégico municipal assente na interação do setor cultural profissional com os agentes educativos e o movimento associativo local?

Sim, defendo um plano que assente num trabalho conjunto entre o município e os agentes culturais. Um plano que possa incentivar a fixação de companhias, permitindo e incentivando a inserção das mesmas no movimento associativo e a interação com os agentes educativos. Desta forma permite-se uma maior facilidade na formação de públicos chegando a uma maior amplitude etária. Acredito que esta estratégia possa ser a solução para vários problemas. Ao permitir e incentivar que os artistas trabalhem em proximidade com os munícipes, utilizando para isso o tecido associativo, torna-se mais claro quais são os problemas específicos que cada freguesia precisa de ver colmatados. Por outro lado, o trabalho com os agentes educativos permite uma maior proximidade com o potencial consumidor cultural futuro, criando assim a possibilidade de resolver alguns dos estigmas que tanto os jovens como alguns agentes educativos sentem em relação a algumas manifestações artísticas. A cultura, e nomeadamente o teatro, tem uma capacidade única que consiste na confluência de duas características que habitualmente estão distantes, ou pelo menos é o que a maior parte das pessoas pensa; a cultura e o teatro conseguem juntar como poucos o espaço lúdico e educativo. E esse é o trunfo que tem sido pouco ou nada jogado pela maioria dos municípios. Agora podemos questionar sobre quais poderiam ser as estratégias adotadas pelo município. Do meu ponto de vista, o primeiro passo a dar seria o levantamento de todas as infraestruturas existentes que pudessem acolher estes agentes culturais e tratar das reabilitações necessárias nas mesmas. Num segundo passo, criar um espaço de desburocratização que permita um acesso agilizado aos meios logísticos para a realização das iniciativas, facilitando desse modo os meios de divulgação, acesso a equipamentos e espaços públicos, entre outros aspetos. Em terceiro o apoio financeiro para que se ganhem condições para a fixação e desenvolvimento de projetos e postos de trabalho. Desta forma criar-se-iam algumas condições para o enraizamento e florescimento de projetos culturais que a médio/longo prazo dariam frutos, dinamizando e incrementando a atividade e a qualidade de vida da cidade e dos munícipes.

 

E esse plano estratégico municipal devia abranger a globalidade do concelho ou apenas as freguesias que formam o perímetro urbano da cidade de Gaia?

Este plano deveria abranger todo o concelho, é claro. Talvez até dando mais ênfase nas freguesias mais rurais, que pela tendência centralista da população e das políticas ficam sempre mais carentes de estratégias de desenvolvimento. Claro que com isto não estou a dizer que se deve descurar a zona mais urbana, acredito é que uma política de descentralização cultural dentro do próprio município pode contribuir para um melhor desenvolvimento do mesmo. Além de que uma vez instalada a estratégia  nas zonas mais rurais ou periféricas torna-se mais simples de ser aplicada na área mais urbana da cidade.

 

Se te visses investido como coordenador desse plano, que tipo de programação privilegiarias? Um teatro mais alternativo, mais convencional, multidisciplinar…?

Creio que a programação para um plano destes não poderia ser estanque. Teria de se ir adaptando às especificidades de cada um destes projetos tendo em conta as estruturas associativas e educativas que vinculam este plano com a população local. Não obstante este aspeto acredito que uma programação pluridisciplinar possa ser um caminho interessante a desenvolver, visto que pela sua natureza oferece um maior leque opções com as quais as pessoas se podem identificar, abrindo caminho para outros tipos de manifestações artísticas e permitindo que a longo prazo se instaurem hábitos de consumo cultural que instruam e incentivem o pensamento critico. Desde o teatro ateniense até aos dias de hoje o teatro funcionou sempre como um gatilho do pensamento critico sobre o Homem, seja ele como individuo ou como sociedade. E é tendo em conta esta característica do teatro, somando a sua capacidade de unir varias áreas artísticas, como as artes plásticas, música, literatura, entre outras, que devemos considerar seriamente o investimento do município em projetos de favorecimento cultural. Sei que muitas vezes as forças politicas têm dificuldade em lidar com uma população culturalmente ativa e critica. E não acredito que todos estes anos com politicas que levam a extinção de grande parte do associativismo e que dificultam profundamente a instalação de agentes culturais em Gaia sejam apenas fruto de uma grande coincidência. Julgo que são antes o resultado de um profundo desinteresse no desenvolvimento da população. É em prol deste desenvolvimento que, na minha opinião, uma programação diversificada associada a um verdadeiro projeto de desenvolvimento cultural é essencial num dos maiores municípios do país. Uma outra característica de uma programação não estanque é que esta permite e potencia a diversidade na criação artística. Ao desenvolver um projeto onde companhias diversas trabalhem e criem em conjunto com a população local da freguesia ou do lugar, abre-se a porta para a possibilidade do estabelecimento de uma rede intramunicipal de circulação e fruição artística.

 

A terminar, fala-me de ti: quais são os projetos em que estás neste momento envolvido e que sonhos queres concretizar a médio prazo? E Gaia está nesses sonhos?

Esta questão da Covid-19 baralhou a grande maioria das metas, sonhos e projetos a médio/curto prazo. Fez-me reagendar a grande maioria dos projetos que tinha acertados. No entanto, no meio destas adversidades que todos nós estamos a passar, abre-se espaço para me focar em alguns objetivos que até então tinha em segundo plano. Neste momento encontro-me a realizar o mestrado em Teatro na Universidade de Évora. Estou também a desenvolver um projeto com a companhia chilena Teatro Niño Proletário, uma criação original inspirada pelo conceito de mirada, o olhar, o ponto de vista, a forma como vemos. O conceito foi sofrendo alterações pelas circunstâncias que temos passado. Primeiro as revoluções e manifestações no Chile onde, pela violência e opressão dos Carabineiros, centenas de pessoas perderam a visão de forma total ou parcial. E mais tarde, esta pandemia que nos obrigou a todos a olhar de outra forma para o mundo, que nos compeliu ao afastamento físico, ao isolamento social e nos restringiu a visão sobre o outro a pouco mais do que nos permite as câmaras e a tecnologia. E para terminar, estou a avançar com um projeto, a título pessoal, de adaptação, tradução e encenação do texto “Sermão de Abrantes” do Gil Vicente. No que toca a sonhos para o futuro, gostaria de ter a possibilidade de explorar mais o trabalho de encenação e criação. Tenho muita vontade de desenvolver projetos onde possa promover interação e integração entre a população juvenil e sénior, cruzar os seus pontos de vista. E o Alentejo, onde me encontro de momento, parece-me um local propício para estes objetivos. Claro que gostaria de um dia voltar a Gaia, que afinal de contas é a minha casa. Gaia está nos meus sonhos sem sombra de dúvida, mas, para já, um pouco longe da realidade.

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