O Winnipeg, o barco da esperança (1939-2019) -Vou contar-vos uma história que com certeza não conhecem…no dia 4 de agosto de 1939 partia do porto fluvial de  Pauillac , pouco distante de Bordéus, um cargueiro com mais de 2.000 refugiados espanhóis em França. Eram os derrotados republicanos da guerra civil espanhola (também denominada A Cruzada entre os Nacionalistas, Quarta Guerra Carlista entre os Carlistas e A Rebelião ou Sublevação entre os Republicanos, conflito armado ocorrido na Espanha entre 1936 e 1939).

Passado um mês o barco atracou em Valparaíso (um dos mais importantes portos chilenos) Era o Winnipeg, o barco da esperança, como lhe chamaram aqueles esperançosos viageiros que já pouco podiam perder e escolher entre as ilusões perdidas e um futuro cheio de incertezas. Atrás ficava a Europa que acabava nos Pireneus e enfrente um horizonte longínquo no fim do mundo onde poderiam realizar novas vidas e novas esperanças. Importante será também lembrar as condições de como foram recebidos na Franca os refugiados que fugiam de Espanha.

Não houve qualquer centro de acolhimento, nem nenhuma forma de solidariedade institucional, apenas a indiferença e a intempérie dos campos de concentração. Muitos dos refugiados saiam dali para ser repatriados à Espanha franquista, o que significava uma morte segura, o cárcere ou seguir combatendo na II Guerra Mundial.

É naquele momento histórico que o poeta chileno  Pablo Neruda como cônsul especial para a imigração espanhola na Embaixada de Chile em Paris, apoiado pelo governo empreende a tarefa de “resgatar espanhóis republicanos dos campos de concentração em Franca”. O Winnipeg era um paquete misto inicialmente com capacidade para 100 passageiros, foi necessário modificar sua capacidade para albergar a más de 2.000 personas. Enquanto Neruda preparava a expedição do Winnipeg, no Chile se debatia o projeto do asilo. Num determinado momento, o governo  cedeu perante as pressões dos seus adversários políticos cancelando a expedição migratória. Foi devido a gestão do próprio Neruda, que o governo chileno reconsiderou sua postura, e o Winnipeg pode chegar ao Chile com seu carregamento de republicanos espanhóis; esse que Neruda chamou «seu mais belo poema».

No dia 26 de agosto de 1939  o barco realiza uma primeira escala na cidade de  Arica (norte do Chile), onde descenderam um grupo de passageiros que se instalaram naquela cidade; tarde-noite do dia  2 de setembro, o Winnipeg chega finalmente a Valparaíso. No dia seguinte, às 9 da manhã, descem os primeiros refugiados. Lembram com emoção o recebimento, eram esperados pelas autoridades civis e militares, dirigentes políticos, sindicatos, estudantes, e um numeroso público, que entonavam canções republicanas.

De este contingente, um grupo de importantes intelectuais e artistas famosos que se integraram na vida social e artística chilena entre eles; Leopoldo Castedo, historiador, conhecido historiador, Elena Gomez de la Serna, jornalista radiofónica, Diana Pey, pianista e compositora, Victor Pey, jornalista e amigo pessoal do presidente Salvador Allende, Agnes América Winnipeg Alonso Bollada, filha de pais vascos que nasceu a bordo do navio, José Ricardo Morales Malva ,dramaturgo, escritor nascido em Málaga e que na sua vida chilena ajudou ao nascimento da primeira escola superior de teatro na Universidade do Chile , também o pintor José Balmes ( Prémio Nacional das Artes) que lembra esta gesta com estas palavras; “Nunca jamás, ni siquiera al final de mi vida voy a hacer lo suficiente por agradecer el hecho de estar en este país y de ser ciudadano chileno, gracias justamente a Pablo Neruda. Como alguien dijo alguna vez ‘las deudas de amor no se terminan de pagar nunca’ y esta es una gran deuda que yo tengo con él todavía”

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