Vila Nova de Gaia passou a contar com um novo projeto cultural que aposta na literatura como ponto de encontro entre gerações. As Quintas Literárias, clube de leitura aberto à comunidade, arrancaram a 29 de janeiro, na Escola Secundária António Sérgio, com a presença da escritora Isabel Rio Novo, que falou sobre “A Matéria das Estrelas”. A iniciativa pretendeu estimular o gosto pela leitura, o pensamento crítico e a participação cívica, aliando a cultura e a solidariedade.
O concelho de Vila Nova de Gaia ganhou um novo espaço de partilha cultural e social com o lançamento das Quintas Literárias, um clube de leitura inclusivo e intergeracional. O projeto resultou de uma parceria entre a Liga dos Amigos do Centro de Saúde Soares dos Reis e o Rotary Club de Vila Nova de Gaia, que decidiram unir esforços para promover a cultura e, simultaneamente, apoiar causas sociais no concelho.
“Nós pertencemos a uma IPSS que apoia idosos isolados e tínhamos sido contactados pelo Rotary Club de Vila Nova de Gaia para apresentarmos os nossos projetos e perguntaram-nos em que medida podíamos fazer uma colaboração. Eu sugeri que fizéssemos uma sessão de tertúlias literárias, porque eu sou escritor e é uma coisa de que gosto muito”, revelou Miguel Miranda, presidente da Liga dos Amigos do Centro de Saúde Soares dos Reis e curador da iniciativa, em entrevista exclusiva ao AUDIÊNCIA, acrescentando que “tive logo a adesão fantástica do Rotary Club de Vila Nova de Gaia, que abraçou a ideia, desenvolveu e ajudou na organização, ao qual estamos muito gratos, porque estas sessões vivem do público. Nós não gostamos de estar a falar para nós mesmos, gostamos de falar para as pessoas”.
Mais do que um clube literário convencional, a iniciativa assume um compromisso social claro. “Se podemos chegar a mais pessoas e, ainda por cima, criar uma situação em que a literatura tem um objetivo solidário, não se esgota em si mesma, nem estamos a falar no vácuo, nem apenas para satisfazer egos e vaidades pessoais. Estamos a contribuir para um trabalho solidário de uma associação que presta apoio a idosos isolados e está a construir um centro de dia de apoio a doentes com demência, principalmente com Alzheimer. Isto é uma espécie de dois em um”, salientou Miguel Miranda.
Para Raquel Lima, presidente do Rotary Club de Vila Nova de Gaia, a iniciativa responde a dois grandes objetivos, angariar verbas para equipar uma sala do futuro centro de dia e aproximar gerações através da cultura. “O Rotary Club de Vila Nova de Gaia associou-se à Liga dos Amigos do Centro de Saúde de Soares dos Reis com os objetivos de angariar verbas para ajudar a equipar uma sala do centro de dia e de ligar gerações, ou seja, tentar ligar os jovens aos idosos através da literatura”, frisou, ao AUDIÊNCIA, alertando que “cada vez mais, os jovens estão afastados da literatura. Acredito que é importante falarmos sobre isso e trazermos esse tema também para estas sessões”.
Convidada para inaugurar o ciclo, Isabel Rio Novo manifestou, ao AUDIÊNCIA, emoção e sentido de responsabilidade ao associar-se à causa. “O sentimento é de muita gratidão por ter sido convidada pelo meu amigo e colega Miguel Miranda, por me poder associar a esta causa tão meritória e, sobretudo, por poder contribuir com aquilo que eu sei fazer, que são os livros”, afirmou a escritora, ressaltando que “à volta dos livros as pessoas reúnem-se, muitas vezes com o pretexto de falar deles, criando laços que são aquilo que nós precisamos, nos tempos que correm”.
Refletindo sobre o poder intemporal da literatura, Isabel Rio Novo afiançou que “ao passo que todos nós nascemos, envelhecemos e morremos, os livros ficam. Quantas vezes pegamos num livro escrito há séculos e encontramos lá uma voz que nos interpela. Entre outros poderes mágicos, os livros têm esse poder de abolir as fronteiras do espaço e do tempo”.
Após a apresentação da autora e das suas obras, Miguel Miranda centrou-se no mais recente romance da autora, “A Matéria das Estrelas” (2025). A obra parte de um episódio trágico ocorrido a 21 de janeiro de 1971, no qual o jovem guarda-marinha Jacinto da Silva Fernandes não comparece à chamada do navio-patrulha Flamínio, em Ponta Delgada, sendo encontrado inanimado na casa que arrendava. O incidente marcou o início de uma investigação conduzida por Eduardo, médico e familiar, que revisitou a vida do jovem e expôs segredos familiares e as hipocrisias de Portugal, nas décadas de 60 e 70.
A escritora revelou que a personagem de Jacinto foi inspirada numa figura real da família do seu marido, o escritor Paulo M. Morais. “O que acontece com ‘A Matéria das Estrelas’ e esta personagem de Jacinto é que é inspirada numa pessoa real, que existiu. (…) Mas, esta personagem foi um tio do Paulo e a tragédia que acontece, de um jovem com um futuro promissor e com vocação para a marinha, que parecia que nele os deuses do Olimpo tinham concentrado todas as qualidades, pois de facto era bonito, inteligente, meigo e acontece-lhe um acidente inexplicável a partir do qual a sua vida se altera completamente e passa o resto da vida em estado vegetativo e esse mistério, essa procura da verdade existiu, não nos moldes que aparecem contados no romance”, explicou a autora.
Isabel Rio Novo explicou ainda que os seus romances têm vindo a estabelecer pontes entre si e com as obras de Paulo M. Morais. “Parte da vontade de escrever a história de Jacinto, decorreu da existência de um romance anterior, do Paulo, ‘A Boneca Despida’, que conta a história da mãe de Jacinto, Julieta, uma mulher que viveu mais de cem anos e que atravessou o século XX português com todas as suas transformações e, ao mesmo tempo, esteve em vários lugares, nomeadamente no então Império Português, inclusivamente, em Macau, pelo que isto acabou por ser a vontade também de fazer uma espécie de spin-off desse livro. Portanto, já são cinco os romances, dois meus e três do Paulo que partilham personagens”.
Sobre o processo criativo partilhado, Isabel Rio Novo confidenciou que “partilhamos a vida e a escrita, além de um escritório bastante acanhado. Caminhamos muitas vezes à beira-mar e vamos preenchendo essas caminhadas com conversas sobre a vida e sobre a escrita. Fui apropriando-me de histórias que o Paulo me ia oferecendo”.
As Quintas Literárias afirmaram-se, assim, como um projeto que vai além da promoção da leitura, tendo a missão de incentivar o envelhecimento ativo, a saúde mental e a coesão social, reforçando o papel da cultura como ferramenta de bem-estar e cidadania ativa.


