AFONSO CRUZ LEVOU “A COZINHEIRA DO DITADOR” ÀS QUINTAS LITERÁRIAS

A terceira edição das Quintas Literárias realizou-se no passado dia 14 de maio, na Escola Secundária António Sérgio, em Vila Nova de Gaia, e contou com a presença do escritor português Afonso Cruz, que apresentou o romance “A Cozinheira do Ditador”. Perante uma sala cheia, o encontro promoveu uma conversa profunda sobre literatura, poder, opressão, cultura e convivência, num projeto solidário e intergeracional dinamizado pelo Rotary Club de Vila Nova de Gaia e pela Liga dos Amigos do Centro de Saúde Soares dos Reis.

 

 

A sala da Escola Secundária António Sérgio voltou a encher-se para mais uma edição das Quintas Literárias, iniciativa que cruza literatura, intervenção social e diálogo entre gerações. Desta vez, o convidado foi o escritor, ilustrador, músico e fotógrafo Afonso Cruz, autor de mais de 40 obras traduzidas em várias línguas, que esteve em destaque com o livro “A Cozinheira do Ditador”.

O projeto nasceu de uma parceria entre o Rotary Club de Vila Nova de Gaia e a Liga dos Amigos do Centro de Saúde Soares dos Reis, unindo a promoção da leitura à angariação de fundos para causas sociais. Raquel Lima, presidente do Rotary Club de Vila Nova de Gaia, explicou a génese da iniciativa e o propósito solidário associado ao evento. “Uma parceria entre o Rotary Club de Vila Nova de Gaia e a Liga dos Amigos do Centro de Saúde Soares dos Reis. O objetivo do Rotary é ajudar a comunidade e a Liga marcou presença num dos nossos jantares solidários e nós quisemos associar-nos à Liga na construção de um centro de dia com o objetivo de ajudar os doentes de Alzheimer. O intuito é conseguirmos equipar uma sala”, revelou a responsável, destacando o carácter inclusivo do projeto. “Criamos as Quintas Literárias também com o intuito de conseguirmos juntar várias faixas etárias”, acrescentou.

Também Miguel Miranda, presidente da Liga dos Amigos do Centro de Saúde Soares dos Reis e curador da iniciativa, sublinhou a importância da parceria e o impacto social do projeto. “As Quintas Literárias nasceram de uma parceria entre a Liga e o Rotary Club de Vila Nova de Gaia. Nós fomos originais, estas duas instituições juntaram o útil ao agradável que é estarmos a promover a leitura e a literatura e ao mesmo tempo estarmos a ter um sentido útil nas coisas”, asseverou.

Miguel Miranda recordou ainda que os fundos angariados revertem para o apoio a idosos isolados e para a construção de um centro de dia destinado a doentes de Alzheimer. “A Liga dedica-se ao apoio a idosos isolados no domicílio e estamos a construir um centro de dia para doentes de Alzheimer que já está cerca de um terço construído e vamos agora lançar uma segunda fase no valor de 600 mil euros”, revelou, deixando ainda um agradecimento público à presidente do Rotary. “Estou agradecido sobretudo à Raquel pelo seu espírito de colaboração, o seu espírito aberto, novas propostas e corremos o risco de dizer que somos mesmo inovadores”, destacou.

Na apresentação do convidado, Miguel Miranda não poupou elogios ao percurso de Afonso Cruz. “Em primeiro lugar, quero dizer que está perante vós um dos maiores escritores portugueses, não maior em tamanho, mas maior mesmo em obra”, afirmou, descrevendo-o como “um escritor prolixo muito positivo, com uma escrita enxuta e límpida”.

O curador da iniciativa destacou ainda o carácter multifacetado do autor. “O Afonso Cruz não só é escritor, como é um artista multifacetado, dedica-se à ilustração, à fotografia e à música”, afiançou, enumerando também os vários prémios conquistados ao longo da carreira, entre eles o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco, o Prémio Literário Maria Rosa Colaço, o Prémio da União Europeia para a Literatura e o Prémio Fernando Namora.

Durante a conversa, Afonso Cruz partilhou histórias sobre a origem de algumas das suas obras, entre elas “Jesus Cristo Bebia Cerveja”, romance que nasceu, curiosamente, de uma ideia publicitária. “O ‘Jesus Cristo Bebia Cerveja’ nasceu de um dos primeiros trabalhos que tive”, contou, explicando que a frase fazia parte de uma campanha pensada para uma cervejeira.

O autor aproveitou ainda para refletir sobre os hábitos alimentares na antiguidade e desmontar ideias feitas. “Nós não sabemos se Jesus Cristo bebeu vinho, mas podemos ter a certeza absoluta de que bebeu cerveja, porque toda a gente bebia cerveja naquela altura”, explicou, perante a atenção e o entusiasmo do público.

A conversa centrou-se depois em “A Cozinheira do Ditador”, romance que aborda as relações de poder, a opressão e a desumanização, através da metáfora da comida e do ato de cozinhar. Neste seguimento, Miguel Miranda confessou o impacto que a leitura lhe causou, assegurando que “gostei imenso do livro. Tem aquela característica única dos bons escritores que é conseguir sugar o leitor para dentro do livro e dar-lhe a vontade compulsiva de ler”.

Sobre a origem da obra, Afonso Cruz explicou que “o livro nasceu de uma série de textos que fui escrevendo para um produtor de teatro, o Giacomo Scalisi, em que ele produziu uma série de espetáculos cujo tema principal era a comida. (…) Pensei que se calhar seria interessante reunir estes textos e transformá-los num romance”.

O escritor reconheceu ainda que o contexto político e social atual influenciou inevitavelmente a escrita. “O Ditador vem pelo contexto que vamos vivendo. Os escritores não são imunes ao que se passa à sua volta”, contou.

Ao longo da sessão, foram analisados diversos aspetos simbólicos da obra, desde a estrutura narrativa até à construção das personagens. Miguel Miranda destacou o facto de o romance funcionar “como uma parábola sobre todas as opressões e todas as ditaduras”, enquanto o autor explicou a dimensão social das figuras que compõem o enredo.

“Relativamente às personagens, elas acabam por representar partes da sociedade ou classes sociais”, explicou Afonso Cruz, falando também sobre o simbolismo da mesa vazia do Ditador, que come sempre sozinho rodeado de 40 cadeiras vazias. “Comer sozinho é o oposto do que significa comer. Comer é um exercício estético, ético”, sublinhou. Para o autor, o isolamento conduz inevitavelmente à desumanização. “O autoritarismo leva também a um grande isolamento e consequente desumanização”, acrescentou.

Outro dos aspetos destacados por Miguel Miranda foi a capacidade de síntese do escritor. Referindo-se ao capítulo “A lã era áspera”, o curador elogiou a forma como o autor consegue abordar temas duros sem recorrer à explicitação. “Isto é levar o texto até ao osso, sem precisar da faca de desossar da cozinheira”, comentou Miguel Miranda.

O encontro terminou com uma participação ativa do público, intervenções dos presentes e uma sessão de autógrafos que prolongou o ambiente de proximidade entre os leitores e o escritor.

Entre reflexões sobre literatura, política, comida, convivência e humanidade, as Quintas Literárias voltaram a afirmar-se como um espaço de diálogo cultural e social em Vila Nova de Gaia, mostrando que os livros podem também servir causas maiores e aproximar diferentes gerações em torno da palavra.