Vila Nova de Gaia assinalou os 52 anos da Revolução dos Cravos com uma sessão solene marcada pela evocação dos valores de Abril, pela reflexão sobre os desafios atuais da democracia e pela atribuição de Medalhas de Mérito e de Honra a inúmeras personalidades e instituições de relevo nacional, entre as quais os arquitetos Souto Moura e Álvaro Siza Vieira. A cerimónia decorreu no Cine-Teatro Eduardo Brazão e reuniu autarcas, representantes de coletividades, entidades civis e militares, culminando com discursos emotivos e uma intervenção de Luís Filipe Menezes, presidente da autarquia gaienses, centrada no futuro das cidades, da cultura e da humanidade.
O Cine-Teatro Eduardo Brazão encheu-se para assinalar os 52 anos do 25 de Abril, numa cerimónia promovida pela Câmara Municipal e pela Assembleia Municipal de Vila Nova de Gaia, onde a memória da Revolução dos Cravos se cruzou com reflexões sobre liberdade, democracia, justiça social e os desafios do futuro.
A sessão teve início com um momento musical protagonizado pelo professor Valter Mateus, do Conservatório Regional de Gaia, ao violoncelo, antecedendo as intervenções dos representantes dos partidos com assento na Assembleia Municipal.
Ao longo do certame, sucederam-se discursos marcados pela evocação do espírito de Abril e pela preocupação com os sinais de desgaste democrático, o crescimento do populismo, a desinformação e o afastamento dos cidadãos da vida pública.
Beatriz Pinto, deputada da CDU, destacou que “Abril não é apenas passado, é uma responsabilidade presente”, defendendo que a democracia “não é um dado adquirido” e exige vigilância permanente. A eleita sublinhou ainda que “comemorar Abril é defender e valorizar o poder local e a sua autonomia financeira e administrativa”, acrescentando que “a história não é feita apenas pelos poderosos, é feita por quem resiste”.
Também Hélder Fontes, do Livre, centrou a sua intervenção na defesa da Constituição da República, que este ano assinala 50 anos. “Não precisamos de uma Constituição mais enxuta. Precisamos de uma Constituição com ainda mais direitos”, afirmou, recordando conquistas alcançadas após o 25 de Abril, desde o acesso ao ensino superior à universalização dos cuidados de saúde. “As utopias não são utópicas. São realidades se assim as quisermos”, declarou.
Pelo CDS-PP, Manuel dos Santos lembrou que “o 25 de Abril não foi um ponto final, foi um ponto de partida”, defendendo igualmente a importância do 25 de Novembro na consolidação democrática. “Se Abril nos deu liberdade, Novembro garantiu-nos a democracia”, salientou, apelando a “um Estado mais eficiente, mais próximo e mais justo”.
Já Hugo Pereira, representante da Iniciativa Liberal, destacou que “o 25 de Abril é de todos e para todos”, considerando que a liberdade corresponde ao “poder que cada indivíduo tem de conduzir a sua vida como entender”. O deputado alertou, contudo, que “o caminho aberto pelo 25 de Abril não está ainda terminado”.
A deputada municipal do Chega, Marta Marques, referiu que “celebrar o 25 de Abril não pode significar transformar esta data numa narrativa única, fechada ou ideológica”, defendendo que a democracia deve ser “ouvir as pessoas” e “respeitar quem entende diferente”.
Do lado do Partido Socialista, Álvaro Santos recordou a emoção vivida no dia da Revolução ao lado do pai. “Aproveita bem este dia, vais recordá-lo, porque este é um momento único da nossa história”, contou ter ouvido em 1974. O socialista alertou para os perigos da manipulação da informação e dos discursos de ódio, defendendo que “a democracia só se fortalece quando melhora a vida das pessoas”.
António Rocha, em representação do PSD, destacou a necessidade de “combater a desinformação, o populismo e a radicalização”, apelando à participação dos jovens na política e valorizando o papel do poder local como instrumento de proximidade democrática.
As intervenções políticas foram encerradas por Paulo Rangel, presidente da Assembleia Municipal de Vila Nova de Gaia, numa reflexão profunda sobre o significado contemporâneo da democracia.
“O 25 de Abril é o momento de homenagear todos aqueles que, com as circunstâncias e as limitações da sua contingência, fundaram a democracia”, começou por asseverar o presidente da Assembleia Municipal de Gaia, defendendo, contudo, que a democracia “não é um regime congelado” nem “uma fotografia tirada em 1974”.
“A democracia tem de garantir a cada nova geração a possibilidade de decidir o seu próprio destino”, enalteceu o líder da casa da democracia gaiense, acrescentando que “preservá-la em 2026 é um feito igualmente assinalável”.
Num dos momentos mais marcantes da sessão, Paulo Rangel valorizou o papel do poder local democrático, considerando-o um dos pilares fundamentais do regime democrático português. “Sem poder local, não há democracia”, evidenciou, sustentando que as autarquias representam “a garantia fundamental de que há democracia no Estado, na nação, no país”.
O presidente da Assembleia Municipal alertou ainda para os perigos do centralismo, defendendo que “um Estado centralizador é e será sempre um Estado fechado à democracia”.
Medalhas distinguiram figuras da cultura, educação, solidariedade e arquitetura
A cerimónia prosseguiu com a atribuição das Medalhas Honoríficas do Município a personalidades e entidades consideradas merecedoras do reconhecimento público de Vila Nova de Gaia.
Na categoria de Medalha de Mérito Profissional, Grau Ouro, foram distinguidos os maestros Cesário Costa e Rui Massena.
A Medalha de Mérito Educativo, Grau Ouro, foi atribuída a Hugo Berto Coelho, Joaquim Azevedo, Mário Mateus e aos Plebeus Avintenses, pelo trabalho desenvolvido na área da educação e formação.
Já a Medalha de Mérito Cultural, Grau Ouro, distinguiu o jornalista e crítico de cinema Mário Augusto e a artista Sissi Martins.
Na área do Serviço Público, receberam a Medalha de Mérito de Serviço Público, Grau Ouro, Adrian Bridge, Levi Guerra e Margarida Santos, pelo contributo prestado à comunidade.
A Medalha de Mérito Cívico, Grau Ouro, foi entregue a Domingos Vieira de Matos.
O momento mais simbólico da cerimónia aconteceu com a atribuição da Medalha de Honra da Câmara Municipal de Gaia, distinção que conferiu o título de Cidadão Honorário de Vila Nova de Gaia aos arquitetos Eduardo Souto Moura, duas referências maiores da arquitetura portuguesa e mundial.
Em representação dos homenageados, Álvaro Siza Vieira manifestou-se “muito sensibilizado e grato” pela distinção, evocando a relação afetiva com Gaia desde a infância. “A Gaia que eu desde menino olhava, posso dizer quotidianamente”, afirmou, agradecendo “a generosidade da Câmara de Gaia” ao conceder-lhe a medalha da cidade.
Menezes lança desafio a Siza Vieira para criar Centro Cultural em Gaia
O encerramento coube a Luís Filipe Menezes, presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, num discurso marcado por reflexões sobre os desafios do futuro, o envelhecimento da população, a fragmentação política e a necessidade de reforçar a dimensão humana das cidades. “Estamos a viver, porventura, a maior transformação que alguma vez o homem na Terra teve de enfrentar”, enalteceu o edil, alertando para um mundo “cada vez mais zangado, mais radicalizado e mais dividido”.
O autarca defendeu a importância da cultura, da criatividade e da solidariedade como formas de resistência a uma sociedade excessivamente tecnológica e desumanizada. “Queremos continuar a ter artistas, criadores, referências humanas”, declarou o autarca.
Num dos momentos mais surpreendentes da sessão, Luís Filipe Menezes lançou publicamente um desafio a Álvaro Siza Vieira, transformar um pavilhão gimnodesportivo projetado pelo arquiteto no futuro Centro Cultural de referência em Gaia. “Transformarmos aquele espaço no primeiro grande Centro Cultural fora da cidade do Porto”, propôs, sugerindo mesmo a criação do “Centro Cultural Siza Vieira”, dedicado à cultura e à arte contemporânea, que colaboraria com o Museu de Serralves, “numa lógica de complementaridade”.
O presidente da Câmara revelou ainda a intenção de propor à Metro do Porto que as futuras estações da nova linha recebam os nomes de Souto Moura e Siza Vieira. “Gaia vai ficar muito bem servida com duas grandes linhas de metro e essas duas grandes linhas vão ter duas estações a entrar no Porto junto à Arrábida. Eu irei propor à Metro do Porto que a penúltima seja que seja a Estação Souto Moura e que a outra, mais junto da ponte, seja a Estação Siza Vieira”.
Na ocasião, o edil ressaltou também o trabalho desenvolvido por Margarida Santos, revelando que será em Canelas que começará a ganhar forma um antigo sonho ligado à valorização da engenharia portuguesa, a criação de uma grande estátua de Edgar Cardoso. O presidente da Câmara sublinhou que a obra ficará situada na rotunda Edgar Cardoso, junto à futura grande estação de metro da zona, assumindo-se como uma homenagem simbólica a uma das maiores figuras da engenharia nacional e ao legado deixado pelo criador de algumas das mais emblemáticas pontes portuguesas.
Luís Filipe Menezes destacou igualmente o papel de empresários e mecenas no desenvolvimento cultural e urbano do concelho, elogiando Adrian Bridge pela aposta no centro histórico de Gaia e defendendo que, dentro de poucos anos, essa zona poderá tornar-se “a grande pérola da Área Metropolitana do Porto”. “Cultura e empreendedorismo com sentido social são a Constituição da República que Portugal precisa”, concluiu o edil.
A sessão terminou ao som do Hino Nacional, interpretado pelo Quinteto de Metais do Conservatório Regional de Gaia, sob direção do maestro Mário Mateus, encerrando uma cerimónia marcada pela celebração da liberdade, da democracia e do poder local.


