A Junta de Freguesia de Campanhã assinalou os 52 anos da Revolução dos Cravos com as habituais cerimónias. Após o hastear das bandeiras na sede da Junta, seguiu-se uma romagem ao cemitério, que culminou com a realização de uma sessão solene, no Auditório da localidade, que contemplou a homenagem a individualidades e elementos do território. Na ocasião, o autarca campanhense, Paulo Ribeiro, não escondeu a sua vontade de transformar o território na “melhor freguesia da cidade”.
Campanhã voltou a vestir-se de liberdade para celebrar o 25 de Abril. As celebrações começaram com o tradicional hastear das bandeiras na sede da Junta, acompanhado pela Fanfarra de Vilar de Andorinho, seguindo-se a largada de pombos pela Columbófila da Invicta, num gesto simbólico de paz e liberdade. O programa prosseguiu com uma romagem ao cemitério, onde foram depositadas coroas de flores em homenagem aos autarcas e democratas falecidos, bem como aos combatentes da Guerra do Ultramar.
O ponto alto das comemorações aconteceu no Auditório da freguesia, completamente lotado, numa demonstração da forte ligação dos campanhenses às celebrações de Abril. A sessão solene contou com representantes das forças políticas com assento na Assembleia de Freguesia, assim como com a presença do vereador do Desporto, Juventude e Associativismo da Câmara Municipal do Porto, Rodrigo Passos, do vereador Manuel Pizarro e do cónego Fernando Milheiro.
A cerimónia foi inaugurada por Carla Ribeiro, primeira secretária da Assembleia de Freguesia de Campanhã, em representação do presidente deste órgão António Nunes Rodrigues. Num discurso profundamente pessoal, a jovem autarca sublinhou o peso da herança democrática nas novas gerações. “Confesso-vos que não vivi o 25 de Abril, pelo menos presencialmente. Não senti o que foi viver antes da liberdade, nem o que foi acordar naquele dia, em 1974. Nasci em 1994, já em democracia, já com direitos que, para mim, sempre foram garantidos”, afirmou.
Ainda assim, destacou que Abril “faz parte” da sua identidade, graças às histórias transmitidas pelos pais e avós. “O 25 de Abril não é apenas uma data de calendário, é um compromisso. Um compromisso de memória, de responsabilidade e de futuro”, declarou, acrescentando que “a liberdade não é só aquilo que herdamos, é também o que continuamos a construir todos os dias”.
Também Sara Magalhães, representante da CDU, evocou a importância histórica da revolução, considerando que “constituiu uma realização histórica do povo português, um ato de emancipação social e nacional”. A representante da CDU salientou que o 25 de Abril “restituiu a liberdade aos portugueses” e permitiu profundas transformações sociais e económicas.
“Precisamos de acelerar o investimento nos serviços públicos, construir habitação pública e ter controlo público dos setores estratégicos. Precisamos de concretizar Abril”, defendeu Sara Magalhães.
Fernando Campelo, independente, falou da responsabilidade das gerações que herdaram a democracia. “A liberdade que hoje vivemos não foi conquistada por nós, mas herdada. E tudo o que se herda traz consigo a responsabilidade de preservar, valorizar e transmitir”, afirmou, lembrando que o espírito de Abril vive “em cada opinião que podemos expressar, em cada voto que depositamos e em cada escolha que fazemos enquanto cidadãos”.
Já Pedro Mendes, representante da coligação “O Porto Somos Nós”, centrou a sua intervenção no desenvolvimento de Campanhã e na necessidade de criar oportunidades para todos. “Celebrar o 25 de Abril não pode ser apenas recordar o passado”, revelou, defendendo que “a liberdade só faz verdadeiramente sentido quando se traduz em oportunidades”.
O representante social-democrata destacou ainda o potencial da freguesia. “Campanhã tem história, identidade e uma comunidade resiliente e trabalhadora. Durante demasiado tempo foi vista como periférica, quando na verdade tem todas as condições para ser um dos motores do futuro do Porto”, frisou.
Num dos discursos mais emotivos da sessão, Álvaro Vaz, representante do Partido Socialista, refletiu sobre a dificuldade de as gerações mais novas compreenderem plenamente o significado da ditadura e da liberdade. “É muito difícil saber o que é a liberdade sem nunca termos sentido o que era a ditadura”, evidenciou, frisando a importância do testemunho daqueles que viveram o antes e o depois da revolução.
“Aos que viveram o 25 de Abril, eu peço: tragam as vossas histórias de esperança enquanto ainda é tempo. Façam-nos sentir aquilo que tão sobejamente damos como adquirido”, apelou o socialista.
O cónego Fernando Milheiro aproveitou a cerimónia para destacar a importância da preservação da identidade e do património histórico de Campanhã, anunciando novidades relevantes para a Igreja Matriz da freguesia, recentemente reconhecida como imóvel de interesse público. “É muito importante conhecer para poder amar Campanhã”, asseverou, revelando que será adjudicada a obra de restauro da igreja matriz, num projeto integrado no programa “Rotas do Norte”. O sacerdote destacou a necessidade de preservar a autenticidade patrimonial. “Restaurar não é matar o passado, é aproveitar a riqueza do passado e transmiti-la com responsabilidade àqueles que vêm a seguir”, afiançou.
O presidente da Junta de Freguesia de Campanhã, Paulo Ribeiro, mostrou-se particularmente emocionado com a forte participação dos jovens nas comemorações. “Para mim é uma honra ser presidente da Junta e ter uma mesa repleta de jovens”, declarou, salientando também a presença inédita de um vereador da Câmara Municipal do Porto neste tipo de cerimónias na freguesia.
“Hoje temos liberdade para estar nesta sala cheia de jovens que querem dar o seu contributo à política”, referiu, garantindo continuar empenhado em transformar Campanhã “na melhor freguesia da cidade”.
“Eu sou campanhense, nasci em Campanhã e quero tornar esta freguesia conhecida internacionalmente”, enalteceu o autarca.
Por sua vez, Rodrigo Passos, vereador do Desporto, Juventude e Associativismo da Câmara Municipal do Porto, considerou o 25 de Abril “um dos dias mais bonitos e felizes do ano”. “É um dia que mobiliza avós e netos, amigos, associações, partidos, pessoas diferentes, unidas pela causa que mais importa: a liberdade”, referiu, sublinhando a importância de Campanhã no desenvolvimento da cidade. “O Porto só cresce de verdade quando cresce por inteiro”, declarou, acrescentando que a liberdade “vive na vida, no dia a dia das pessoas”.
Presente na ocasião, Manuel Pizarro, vereador da Câmara Municipal do Porto, assegurou, em exclusivo ao AUDIÊNCIA, que “dou um enorme valor a todo o trabalho que esta Junta de Freguesia tem feito de levar o 25 de Abril às pessoas mais jovens. Há, de facto uma coisa que é incontornável, há um 25 de Abril para aqueles que viveram a ditadura fascista e sabem bem diferença e, depois, há uma maneira diferente de ver o 25 de Abril para aqueles que, felizmente, puderam viver toda a sua vida em liberdade. Este trabalho de aproximação é muito importante. (…) O poder local democrático é uma das grandes conquistas do 25 de Abril. O país é muito melhor pela existência de Juntas de Freguesia e de Câmaras Municipais eleitas pelos cidadãos e não nomeadas por quem está no poder. Essa foi uma grande mudança e também temos de a acarinhar. A liberdade não é uma coisa plenamente alcançada, é algo pelo qual temos de lutar todos os dias, com persistência e com tolerância”.
A sessão solene culminou com a atribuição da Medalha de Mérito – Grau Ouro a diversas personalidades e instituições que se destacaram pelo seu contributo à freguesia e à comunidade. Neste seguimento, foram homenageadas a Casa São Roque, pelos serviços educativos prestados aos jovens da zona oriental da cidade; a Casa do Vale – CrescerSer, pelo apoio a crianças e jovens em risco; Rosa Meireles, pelo exemplo de solidariedade; Francisco Neves, pelo percurso de superação e inclusão através do desporto; Manuel António Oliveira, pelo contributo dado à educação; e ainda Almerindo Marques e José Amaral, os últimos eleitos vivos da primeira Assembleia de Freguesia de Campanhã em democracia.
O encerramento das comemorações ficou marcado por um momento cultural protagonizado pelos alunos da EBS do Cerco do Porto, antecedendo o tradicional cântico coletivo de “Grândola, Vila Morena” e do “Hino Nacional”, entoados em uníssono por um auditório emocionado.
Entre memórias, homenagens e discursos carregados de simbolismo, Campanhã voltou a afirmar-se como um território profundamente ligado aos valores de Abril, onde a liberdade continua a ser celebrada como património vivo e responsabilidade coletiva.


