Era apenas Furada. Um pequeno recanto aberto pelas águas junto à foz do Douro. Depois chegaram os pescadores, vindos de outras paragens, e passaram a dizer que iam pescar ‘à Furada’. O tempo fez o resto. A Furada tornou-se Afurada e o lugar transformou-se numa das comunidades piscatórias mais singulares e genuínas do país.
Se há festas que se vivem intensamente, as de homenagem a São Pedro são das que permanecem vivas e profundamente arreigadas no coração da freguesia da Afurada.
Com o nome original referido em documentos medievais de “Furada”, dos reinados de D. Dinis e D. Manuel, tem uma história muito própria e diferente da maioria das freguesias portuguesas. A Afurada nasceu e cresceu em torno da pesca e da chegada de comunidades piscatórias vindas de outras zonas do litoral.
Quanto à origem do nome Furada, alguns historiadores associam-no à geografia do local, junto à foz do Douro, numa zona de areais, canais e aberturas criadas pelas águas do rio e do mar. A palavra “furada” significaria precisamente uma abertura, passagem ou corte natural no terreno provocado pela água.
Curiosamente, o nome acaba por refletir um lugar moldado pela água, pelo rio, pelo mar e pelas gentes que para ali vieram viver da pesca.
Os primeiros habitantes ligados à pesca vieram sobretudo das praias de Espinho, Ovar, Furadouro e Murtosa, localidades da costa de Aveiro com fortes tradições marítimas. Muitos desses homens e famílias fixaram-se na margem sul do Douro, criando uma comunidade que rapidamente adquiriu características próprias.
Essa comunidade cresceu significativamente ao longo do século XX. A Afurada tornou-se um dos mais importantes núcleos piscatórios da região, especialmente ligado à pesca da sardinha. A identidade local foi sendo moldada por uma cultura muito particular, onde a solidariedade característica das gentes do mar e da pesca, a par da religiosidade popular e da vida comunitária, passou a fazer parte do quotidiano.
A devoção a São Pedro nasceu dessa realidade. Os pescadores veem nele um homem simples e pescador como eles, antes de se tornar apóstolo. Daí que o santo tenha sido adotado como padroeiro e protetor da comunidade, mantendo-se até hoje no centro da identidade afuradense.
Na Afurada, São Pedro não é apenas um santo venerado no altar da igreja ou transportado em procissão pelas ruas engalanadas. É também o homem do mar, um companheiro de jornada, alguém que conhece o cheiro do peixe e das redes, a dureza das madrugadas e a incerteza das correntes, e daí o tornarem o seu protetor.
Antes de ser santo, Pedro foi pescador. Antes de ser o fundador da Igreja, foi um homem simples, habituado ao trabalho árduo e à vida junto das margens do lago da Galileia. Talvez por isso continue a ser tão compreendido pelos pescadores de hoje. Entre eles existe uma espécie de cumplicidade silenciosa, construída ao longo de gerações, entre quem vive do mar e quem, segundo a tradição cristã, conheceu como poucos os seus perigos e as suas promessas.
Na Afurada, São Pedro não é apenas um santo venerado no altar da igreja ou transportado em procissão pelas ruas engalanadas. É também o homem do mar, um companheiro de jornada, alguém que conhece o cheiro do peixe e das redes, a dureza das madrugadas e a incerteza das correntes, e daí o tornarem o seu protetor.
Durante uma semana, a Afurada transforma-se. As ruas ganham cor, a música enche o ar, os encontros multiplicam-se e a comunidade reencontra-se consigo própria. Mas, por detrás da alegria, existe algo mais profundo: a memória coletiva de um povo que nunca esqueceu as suas raízes.
Ainda hoje, mesmo num tempo diferente, permanecem os gestos, as promessas e a devoção. Nas procissões, nas flores, nas velas e nos olhares de quem acompanha a imagem do santo, percebe-se que a religiosidade popular continua viva. É uma fé simples, sem grandes discursos, mas profundamente enraizada na alma de uma comunidade que aprendeu a confiar tanto no seu trabalho como na proteção divina.
Talvez seja por isso que São Pedro pareça tão à vontade no meio da festa. Imagina-se facilmente o velho pescador a percorrer as ruas da Afurada, a cumprimentar conhecidos, a escutar histórias do mar, a beber um copo e a comer umas sardinhas, e a sorrir perante a alegria de um povo que sabe celebrar a vida. Afinal, quem passou a existência entre homens simples dificilmente recusaria juntar-se a eles nos seus momentos de felicidade.
É essa mistura de fé, tradição, identidade e convívio que torna estas celebrações únicas. Mais do que um acontecimento festivo, representam um encontro entre passado e presente, entre o sagrado e o popular, entre a devoção e a alegria.
Conferência de Imprensa
O programa detalhado das festas será hoje divulgado numa conferência de Imprensa de Eduardo Matos, presidente da Junta da Afurada. Na sede autárquica, pelas 11h30m, serão divulgados todos os detalhes desta festa popular e religiosa.
No entanto, já são conhecidos alguns pormenores deste evento. Amanhã, 26 de junho, às 15 horas, haverá o tradicional hastear das bandeiras, seguindo-se à noite a abertura da animação musical com o DJ Picota. No dia seguinte atuam José Malhoa, Sandro Correia e o grupo Nénu e Amigos. O fim de semana prossegue com os concertos de Diapasão e Nuno Bastos, aos quais se juntam grupos de samba e música sertaneja.
A vertente religiosa assume particular destaque a 29 de junho, Dia de São Pedro, com a missa solene em honra do padroeiro, seguida da procissão pelas ruas da Afurada. As celebrações prosseguem nos dias seguintes com música popular, fado, marchas, atividades para crianças e fogo de artifício. O encerramento acontece a 6 de julho, com a tradicional saudação dos pescadores a São Pedro, à meia-noite, um dos momentos mais simbólicos e identitários das festividades.


