LUÍS FILIPE MENEZES PROMETE REERGUER A ÁGUAS DE GAIA APÓS “SITUAÇÃO CATASTRÓFICA”

Numa reunião convocada a 18 de novembro, na Casa da Presidência, o presidente da Câmara Municipal de Gaia, Luís Filipe Menezes, revelou as conclusões preliminares de um levantamento exaustivo à empresa municipal, apontando para uma situação financeira “catastrófica” e um legado de gestão que considera ter conduzido a empresa ao colapso técnico e económico. Durante a sessão, foi também apresentada a nova administração, que passou a ser liderada por Fernando Barbosa, que assume a presidência executiva, acompanhado por Rosa Cortez e José Carlos Tentugal Valente como vogais não executivos, que contará com o apoio do consultor Joaquim Poças Martins, como co-manager, para reforçar a direção e acelerar a recuperação da empresa.

 

 

A manhã do passado dia 18 de novembro marcou o primeiro grande esclarecimento público sobre o estado atual da Águas de Gaia, uma das maiores empresas municipais do país e, durante anos, símbolo de excelência no setor do abastecimento de água e saneamento.  

Luís Filipe Menezes, recém-eleito presidente da Câmara Municipal de Gaia, convocou uma reunião, na Casa da Presidência, destinada não apenas a apresentar a nova equipa diretiva, mas também a expor, com detalhe, aos jornalistas, aquilo que classificou como uma “situação catastrófica”, com implicações diretas nos serviços prestados e nos custos suportados pelos munícipes. 

Para o quadriénio 2025-2029, a administração passa a ser liderada por Fernando Barbosa, que assume a presidência executiva, acompanhado por Rosa Cortez e José Carlos Tentugal Valente como vogais não executivos. A mesa da Assembleia Geral terá Luís Filipe Menezes como presidente e António Machado como secretário. A grande novidade, porém, reside na entrada de Joaquim Poças Martins como co-manager, figura criada para reforçar tecnicamente a direção e acelerar a recuperação da empresa. Na ocasião, o edil não escondeu a confiança absoluta no engenheiro, afirmando que “a pessoa que convidámos para assessorar o Conselho de Administração é o Cristiano Ronaldo do setor em Portugal, é o melhor técnico português nesta área, é consultor do Banco Mundial, não é um amador que vai gerir a Águas de Gaia. Face à situação quase dramática em que estava a Águas de Gaia precisávamos mesmo do Cristiano Ronaldo, portanto é o engenheiro Poças Martins, que já foi presidente da Águas de Gaia e não podíamos encontrar ninguém melhor para assumir esta responsabilidade”.   

O diagnóstico apresentado por Poças Martins, consultor da Águas de Gaia, não deixou margem para dúvidas quanto à gravidade do estado desta empresa municipal que, já foi “a melhor do país”, e enfrenta hoje uma dependência de fundos municipais para evitar prejuízos. Segundo o consultor, “a Águas de Gaia teve, em 2024, receitas na ordem dos 88 milhões de euros — 25 milhões da água, 25 milhões do saneamento e 31 milhões dos resíduos urbanos — mas para não ter prejuízo vive de mesadas. Recebe um subsídio da Câmara Municipal de 7 milhões de euros, senão dava 7 milhões de prejuízo”.  

O engenheiro reforçou, ainda, que “os resultados de 2024 são próximos de zero e só são positivos devido a este subsídio”, algo que classifica como impensável no tempo em que Luís Filipe Menezes liderou o município. “No mandato de Luís Filipe Menezes isso seria impossível. A Águas de Gaia era lucrativa, fazia obras para a Câmara, até avenidas inteiras fez e nunca pediu um subsídio”, destacou o consultor. 

O panorama atual revelado inclui ainda uma dívida bancária que ronda os 30 milhões de euros, depois de ter chegado aos 40 milhões meses antes. Neste âmbito, o presidente da Câmara Municipal de Gaia classificou a situação como “catastrófica”, recordando que a empresa “tem taxas altíssimas porque não consegue negociar com os prestadores de serviços” e que, apesar disso, “lançou uma sede de 10 milhões de euros mais IVA”, que não fazia sentido, já que, enquanto o edifício era construído para os administrativos, “os operários estão em contentores por tempo indefinido”. 

O concurso de resíduos sólidos recentemente lançado foi outro dos pontos que motivou uma forte crítica. Poças Martins descreveu-o como “ruinoso”, explicando que, num município onde as tarifas já figuram entre as mais altas do país, o custo da recolha iria disparar de 15 para 50 milhões de euros por ano. “A boa notícia”, disse, “é que o concurso ruinoso já foi anulado”. O engenheiro anunciou que um novo concurso será preparado rapidamente e com critérios realistas, de modo a proteger o ambiente e permitir, se possível, uma descida das tarifas. 

Ao falar sobre o sistema de resíduos e saneamento, o consultor evidenciou que “o problema não é a SIMDOURO, o problema não é a SULDOURO, o problema não é a SUMA”, argumentando que estas entidades funcionam segundo a lógica normal das empresas privadas que procuram maximizar lucro. Para o engenheiro, o erro esteve na ausência de fiscalização e gestão rigorosa por parte da Câmara Municipal e da Águas de Gaia, porque, segundo o qual, “compete ao cliente, a Câmara, geri-los. O que não tem sido feito”. 

Poças Martins destacou que, no caso da SULDOURO, o município pagava há alguns anos cerca de 4,5 milhões de euros e que esse valor ascendeu a 15 milhões, sem que o serviço tivesse melhorado na mesma proporção. Quanto ao contrato com a SUMA, revelou que, mesmo antes do concurso agora cancelado, o valor passou de 11 para 18 milhões de euros anuais, aumento que descreveu como “não claro” e desproporcional à qualidade do serviço prestado. A SIMDOURO, responsável pelo tratamento das águas residuais, também foi identificada como parceira cujo desempenho precisa de ser acompanhado de forma diferente, com maior exigência e controlo por parte do município. 

Contudo, a Águas de Gaia enfrenta ainda outras fragilidades estruturais. As perdas de água rondam os 20%, valor que Poças Martins pretende reduzir para 10%. A dívida acumulada de clientes ascende a 7 milhões de euros, com casos de utilizadores que “não pagam água há mais de 10 anos e não lhes tem acontecido nada”. Neste seguimento, o consultor denunciou também que a dívida tem crescido quase 1 milhão de euros por ano e que esta ausência de cobrança tem impacto direto nas faturas dos restantes munícipes. “Se queremos que as tarifas baixem, temos de estancar rapidamente esta hemorragia”, sublinhou o co-manager da empresa municipal. 

A reorganização interna já começou e, pelas palavras do engenheiro, com uma rapidez invulgar. De acordo com o consultor, “o organograma da Águas de Gaia era composto por 6 diretores e 40 chefias. Em 48 horas, passámos de 6 diretores para 2 e de 40 chefias para 15”. Poças Martins classificou a estrutura anterior como um exemplo de “organizações onde só há índios para poder haver mais chefes”, sublinhando que a simplificação já está em funcionamento e permitirá reduzir custos de forma imediata. 

No plano operacional, está prevista a criação de um gabinete de anomalias, “único no país”, destinado a reduzir custos de exploração e acelerar respostas no terreno. Em paralelo, será instalada uma sala de comando com dados em tempo real sobre roturas, avarias ou ocorrências na via pública, que ficará acessível também aos meios de comunicação social. 

Em matéria ambiental, Poças Martins garantiu que “a Águas de Gaia será exemplar em termos de sustentabilidade e cumprimento das regras ambientais”, mantendo, contudo, “uma postura muito crítica” relativamente a políticas nacionais e europeias que prejudiquem os gaienses. Durante a conferência de imprensa, o engenheiro informou ainda que os passadiços das praias serão reparados, as ribeiras requalificadas e que o município prevê construir duas piscinas em Oliveira do Douro e Avintes, semelhantes às já existentes em Canidelo e na Figueira, para permitir zonas balneares seguras sem exposição à poluição do rio Douro. 

Para o futuro, a meta financeira é clara, poupar mais de 70 milhões de euros em 12 anos. Poças Martins explicou que “a primeira coisa a fazer, exigida pelo presidente da Câmara, é acabar com o desastre”. Os ganhos resultantes desta reestruturação, garantiu, serão revertidos para os munícipes, uma vez que “a orientação que temos do senhor presidente é um serviço de qualidade ao preço mais baixo possível. O senhor presidente não deu a indicação de querer a Águas de Gaia com lucro. Os ganhos vão reverter em favor dos gaienses”. 

Por seu turno, Luís Filipe Menezes, salientou que a nova administração representa também uma mudança na forma de governar. “Em três administradores, só um é executivo. Os outros dois trabalham pro bono, por militância cívica de cidadania”, enalteceu o edil, assegurando que o custo da gestão atual é “inferior àquilo que, no passado, era o custo da administração da Águas de Gaia”.  

Com uma estratégia definida e uma liderança reforçada, a Águas de Gaia avança para um futuro que promete maior eficiência, sustentabilidade e tarifas mais justas para os gaienses.