COMO SE DESTRÓI UMA EMPRESA

A notícia que terça-feira de manhã “rebentou” nas parangonas das televisões, dando conta de buscas e detenções pela Polícia Judiciária, no âmbito de uma investigação em relação à empresa Águas de Gaia só apanhou desprevenido quem não estivesse atento à (agora triste) realidade de uma gestão, no mínimo desastrada, de uma empresa que já foi a “menina bonita” do concelho.

 

A operação “Águas Turvas”, desencadeada anteontem pela Polícia Judiciária e pelo DIAP do Porto e que terá sido resultado de cerca de 17 meses de investigações, levou à detenção de 13 pessoas ligadas à empresa municipal Águas de Gaia, entre dirigentes, técnicos e empresários, suspeitos de corrupção, favorecimento e manipulação de contratos públicos. A investigação aponta para um alegado esquema instalado dentro da empresa municipal, envolvendo adjudicações viciadas, pagamentos ilícitos, viagens, refeições, ofertas e utilização de trabalhadores e materiais da própria empresa em benefício privado.

O atual presidente da Câmara de Gaia, Luís Filipe Menezes, reagiu afirmando existirem “indícios fortíssimos” de que a empresa se transformara “num antro de ilegalidades”, falando mesmo num “enorme polvo” instalado no universo municipal.

O caso assume especial gravidade pelo contraste com a história da empresa. Criada em 1999, sucedendo aos antigos Serviços Municipalizados, a Águas de Gaia tornou-se rapidamente um dos maiores exemplos nacionais de modernização dos serviços públicos. Numa altura em que o concelho enfrentava graves carências de saneamento e enormes perdas de água, a empresa iniciou um vasto programa de investimento que transformou estruturalmente o território. Entre 1999 e 2006 foram investidos cerca de 155 milhões de euros, sobretudo na expansão do saneamento básico, construção de ETAR’s e modernização das redes de abastecimento.

Nesse período foram construídas cinco ETAR’s fundamentais — Lever, Gaia Litoral, Febros, Areínho e Crestuma — além de dezenas de estações elevatórias, reservatórios e milhares de metros de condutas. A gestão foi considerada exemplar a nível nacional. As perdas de água, que rondavam os 47% na década de 90, foram reduzidas para cerca de 14%, colocando Gaia entre os sistemas mais eficientes da Área Metropolitana do Porto. A despoluição das ribeiras e da frente marítima permitiu ainda a conquista de Bandeiras Azuis em todas as praias do concelho, algo impensável poucos anos antes.

Apesar dos elevados investimentos iniciais, a empresa conseguiu recuperar rapidamente financeiramente, apresentando resultados positivos logo nos primeiros anos da gestão liderada por Luís Filipe Menezes. Durante muito tempo foi vista como uma empresa sólida, moderna, tecnicamente eficiente e capaz de conciliar investimento público, sustentabilidade ambiental e estabilidade laboral.

Mas a partir da última década a imagem começou lentamente a degradar-se. Cresceram denúncias internas, suspeitas de favorecimento, aumento da dívida, excesso de chefias e sinais de descontrolo organizacional. Menezes afirmou recentemente que encontrou uma empresa “muito desequilibrada”, já dependente de subvenções municipais para sobreviver, situação impensável nos anos iniciais da empresa, quando a Águas de Gaia apresentava resultados positivos e era apontada como referência nacional.

Segundo a investigação, o alegado esquema criminoso assentava numa relação promíscua entre empresários e funcionários da empresa municipal. No centro do processo surge o empresário António Santos Mota, que entre 2009 e 2026 terá obtido mais de 80 contratos com a Águas de Gaia, num valor superior a oito milhões de euros. O Ministério Público sustenta que muitos procedimentos eram manipulados para favorecer adjudicações previamente combinadas.

A operação “Águas Turvas” continua sob investigação e todos os envolvidos beneficiam da presunção de inocência. Ainda assim, o caso deixa já uma imagem devastadora de quem nos últimos anos dirigiu os destinos de Gaia.

É a história de uma empresa que nasceu como símbolo de modernização e excelência pública e que depois com a mudança de ciclo eleitoral e político, surge associada a suspeitas de corrupção, má gestão e degradação institucional.