Num ano em que a Ribeira Grande assinala 40 anos de elevação a cidade, o AUDIÊNCIA esteve à conversa com Alexandre Gaudêncio, presidente da autarquia, que admite que a cidade e o concelho têm sabido evoluir e crescer, aproveitando as oportunidades e potencialidades características. Com um plano estratégico já definido, a Agenda 2030, Alexandre Gaudêncio tem como objetivo terminar as obras mais emblemáticas que caracterizam estes seus dois mandatos, nomeadamente, a frente mar, requalificar a zona da ribeira e o Caminho da Tondela, sempre numa perspetiva de captar cada vez mais pessoas e investimento para a Ribeira Grande.

 

 

 

40 anos da cidade da Ribeira Grande a comemorar-se a 29 de junho, dia de S. Pedro. Normalmente, um dia para reconhecer os méritos de alguns cidadãos ou instituições. Este ano também vai acontecer isso?

Sim, temos previstas algumas condecorações, quer a pessoas em particular, quer empresários e instituições, de acordo sempre com as regras sanitárias que estão em vigor. Prevemos que o dia 29 de junho possa ser celebrado, dentro das restrições que estão em vigor, mas com alguma cerimónia, alguma solenidade alusiva à data para não deixarmos passar em claro uma data tão importante, que além de ser feriado municipal assinala os 40 anos de elevação a cidade. Estamos a preparar um programa que vai desde uma vertente mais cultural, mais lúdica, passando por uma questão mais solene, que não poderia deixar de ser. Não podendo haver as festividades a que estávamos habituados como as cavalhadas ou as marchas de S. Pedro, devido à situação da pandemia, mas vamos ter o chamado evento híbrido que são eventos que serão transmitidos via online e outros eventos presenciais, respeitando sempre as recomendações da autoridade de saúde. O culminar destes eventos vai ser precisamente no dia 29, com a sessão solene que está programada para as 18h, com a condecoração destas individualidades e coletividades e que, de certa forma, ajudam a preservar a nossa memória coletiva e com estas condecorações passar às novas gerações estes exemplos que queremos que continuem a acontecer na nossa cidade.

 

Como qualificaria a cidade da Ribeira Grande após 40 anos?

Diria que a cidade soube crescer e soube, acima de tudo, aproveitar esta oportunidade de passar de vila a cidade e para aqueles que eram mais incrédulos à data, portanto, em 1981, havia uma certa resistência de alguns ribeiragrandenses que preferiam uma boa vila a uma má cidade, mas julgo que quem teve esta visão teve razão no sentido em que a cidade soube crescer e soube acompanhar a evolução dos tempos. E se repararmos, principalmente para os últimos anos, vemos um crescimento acima da média das outras cidades regionais, nomeadamente aqui dos Açores, e vê-se uma cidade rejuvenescida e com alto potencial de crescimento contínuo atendendo à sua potencialidade dos seus recursos endógenos. Portanto, destacaria, acima de tudo, que é uma cidade que tem sabido aproveitar as suas oportunidades sendo que, algumas das obras mais emblemáticas, já poderiam ter sido feitas há muito mais tempo.

 

Esta cidade tem mais anos do que o atual presidente da Câmara Municipal. Gostava de ter nascido ainda na vila, ou na cidade como nasceu?

Eu nasci em 1983, a cidade foi elevada em 1981, portanto, já conheço a Ribeira Grande como cidade, não conheço como sendo vila. Dos relatos que fui apanhando e dos vários documentos históricos, a começar pelos meus pais que sempre viveram cá e que viram essa evolução de passar de vila a cidade, houve claramente um grande investimento e uma visão estratégica de quem à data, e recordo que a Ribeira Grande na década de 60/70 já se falava nesta possibilidade de passar a cidade, e houve aqui um movimento muito interessante, que era o chamado Círculo dos Amigos da Ribeira Grande, que organizava uma série de palestras, de eventos culturais, que começou a trazer muita massa crítica à Ribeira Grande e foi a partir daí que se começou a pensar na elevação a cidade. Recordo um dos grandes eventos da década de 70 que foi um cortejo etnográfico denominado “O Homem e o Transporte” que acabou por dar corpo ao potencial que a Ribeira Grande já tinha nessa data, que era um alto potencial principalmente ao nível industrial e ao nível do setor primário, a lavoura, a agricultura, foram sempre setores muito importantes da atividade do concelho. Portanto, eu já nasci sendo cidade, não conheço outra realidade, mas pelo que me é relatado era um momento que se vivia com algum carinho mas sem sombras de dúvidas que a Ribeira Grande cresceu a olhos vistos nos últimos anos.

 

40 anos, dos quais quase 8 são sob a sua presidência. O que faz um jovem querer ser presidente da Câmara de uma cidade?

Acima de tudo, querer contribuir para a evolução da sua terra. Eu nasci, cresci e estudei e fiz uma parte da minha vida profissional na Ribeira Grande, portanto, conheço o concelho, fiz parte de muitas instituições de cariz social, cultural e desportivo do concelho e esta minha vivência sobre essas várias associações também acabou por dar uma visão e, se calhar, uma sensibilidade diferente do que, por ventura, se eu não tivesse passado por essas instituições. E foi por ver, à data, quando apresentamos a nossa candidatura em 2013, que a Ribeira Grande estava num caminho que, na minha opinião, não era o mais desejado pela maioria dos ribeiragrandenses que me fez encabeçar um projeto que veio a se revelar vencedor e que, do nosso ponto de vista, tem merecido destaque pela quantidade e pelo número de investimentos que temos realizado. Mas o que me fez, sem sombra de dúvida, agarrar este projeto foi o querer dar o meu contributo pessoal ao desenvolvimento da minha terra, e conhecendo uma realidade que, se calhar, nem todos conhecem que é uma realidade associativa, desportiva e cultural como forma de dar um cunho pessoal na evolução também destas entidades.

 

Dos sonhos de um jovem, à presidência da Câmara, com muitos objetivos, muitos sonhos, muitos foram alcançados, mas outros nem por isso. De forma sintética, o que tem como principal conquista, e qual aquela que ainda lhe está atravessada na garganta?

Um dos principais desígnios que nós quisemos colocar já no projeto de 2013 foi tornar uma Câmara mais humana. E acho que isso foi conseguido atendendo não só à nossa envolvência com as pessoas, com a nossa abertura no contacto pessoal com as pessoas, mas também em querer ajudar as pessoas das mais diversas formas, desde as instituições, desde as pessoas em particular. Recordo que em 2013 o concelho, e de forma transversal o país, vivia uma crise económica e com uma taxa de desemprego anormal, muito elevada, e isso também fez com que as pessoas olhassem para esse projeto de forma diferente, de forma mais carinhosa, e que fosse quase uma luz ao fundo do túnel para a resolução dos seus problemas. Por outro lado, também gostaria de destacar a visão estratégica que nós tivemos à data, que foi virar a cidade para o mar. Isto foi um desígnio que julgo que foi conseguido mas que ainda não está totalmente conseguido. Se nós conseguimos nestes primeiros oito anos mudar esse paradigma de olharmos o mar da cidade como potencial, que estava até ao momento de costas para o mar, esta obra ainda não foi terminada, não por culpa da Câmara mas por culpa, sem sombra de dúvida, de uma falta de apoio por parte das entidades do Governo Regional da altura e de agora do novo Governo Regional, que tudo faremos para que este objetivo seja alcançável no mais curto espaço de tempo possível. Portanto, a Câmara mais humana e virar a cidade para o mar foram desígnios que, na nossa opinião, foram conseguidos, o que não foi ainda conseguido foi realmente terminar a tão almejada obra da frente mar que, neste momento, já foram dados todos os passos burocráticos e até a nível de projeto final para que esta obra fique concretizada nos próximos quatro anos.

 

Qual a sua opinião sobre as opiniões dispares dos principais candidatos do PS às próximas eleições, já que o candidato à Assembleia Municipal, Fernando Cordeiro, que o acusa de não ter concretizado o projeto que o PS tinha para o Passeio do Atlântico, e por outro lado a candidata do mesmo partido que elogia o trabalho desenvolvido, embora acreditasse que pudesse ser feito mais. Afinal o projeto é mesmo do PS e não o conseguiu fazer ou há outras coisas pelo meio?

Nós quando entramos em 2013, e falando concretamente da requalificação da frente mar da cidade, ainda havia uma série de burocracias para resolver que nos foram deixadas pelo anterior executivo, pelo PS, que governava a Câmara Municipal. Desde logo, a aquisição de cerca de 30 moradias que faltavam ser concretizadas e sabemos que cada moradia tem a sua especificidade, há um morador em cada uma, é preciso negociar, é preciso avaliações, e este trabalho foi conseguido quase em tempo recorde. Recordo que foi já no final do primeiro mandato, portanto, durante quatro anos, tivemos a tratar de todo o processo burocrático na resolução desse problema que era um problema efetivo e que nos foi deixado pelo PS.

 

Que nada tinha feito nessa área então?

Nada tinha feito nessa área. Estamos a falar na aquisição de cerca de 30 moradias que tiveram um custo de cerca de 2 milhões de euros, só nesta vertente. Depois, o projeto do PS, efetivamente era um bom projeto, era um projeto que tinha uma ponte, na nossa opinião, megalómana para o tipo de investimento que nós queríamos, porque o que nós queríamos era uma coisa muito simples, era ligar as duas margens da ribeira para fazer a ligação da chamada frente mar numa terceira travessia sobre a ribeira da Ribeira Grande. E isto foi também conseguido em tempo recorde, poupando, neste caso, recursos financeiros aos contribuintes do concelho da Ribeira Grande. Isto porque o projeto do PS, só para a ponte, custava cerca de 3 milhões de euros e nós fizemos aquele projeto com pouco mais de um milhão de euros, ou seja, três vezes menos do que o que estava a ser projetado pelo PS e cujo resultado está à vista. Nós, muitas vezes, e é quase um lema que temos aqui neste executivo, é que não apregoamos obras megalómanas, queremos sim é mostrar trabalho. Mostrar trabalho com qualidade, com rapidez, e que vá ao encontro da expetativa de quem nos elegeu. Julgo que foi isso que foi conseguido, e que agora estão dados os passos para finalmente terminamos esta tão almejada obra da frente mar.

 

Dois milhões de euros que é, quase, 10 por cento do orçamento municipal…

Exato. Temos tido um orçamento a rondar os 20/22 milhões de euros anualmente, mais coisa menos coisa atendendo também às transferências do Estado, mas representa, efetivamente, cerca de 10 por cento.

 

Que é muito dinheiro para um município como este.

Tal e qual. E daí também fazer referência da falta de solidariedade que a Ribeira Grande sempre teve, não é só uma questão recente, mas que sempre teve relativamente ao investimento regional. Já disse isso algumas vezes mas se a Ribeira Grande ficasse numa outra ilha, julgo que este investimento já estava feito há muitos anos. Olhe-se, por exemplo, outras sedes do concelho espalhadas pela região fora, onde têm as suas requalificações citadinas e urbanísticas, nomeadamente, das frentes mar, devidamente requalificadas, e este sempre foi um anseio em que a Ribeira Grande quase lutou por si própria. E daí também, se calhar, não ter avançado mais depressa porque estamos a falar de investimentos públicos municipais, que são limitados, que não têm uma abrangência como tem, por exemplo, um orçamento regional, e daí ser uma das razões porque este projeto está a levar tanto tempo. Ainda há pouco tempo tive a curiosidade de ver no arquivo da RTP Memória que há um historiador muito conhecido da década de 70, que já nessa data, nos primórdios da RTP Açores, houve um documentário aqui na Ribeira Grande e que esse historiador dizia que a Ribeira Grande não sabia aproveitar aquilo que de melhor tinha, que era o mar. E via-se na altura que as traseiras das casas davam para o mar, os esgotos davam para o mar, era quase o esgoto da Ribeira Grande e não era mesmo bem visto as pessoas irem para o mar na Ribeira Grande. E isto mudou completamente nos últimos anos e foi este executivo camarário que também teve a audácia de olhando para aquilo que estava a acontecer ao nível do turismo, ter feito um plano estratégico do turismo e ter canalizado grande parte do seu investimento na captação de negócios privados e por isso a Ribeira Grande, hoje em dia, é conhecida e reconhecida também devido a esta visão que a Câmara Municipal teve.

 

Falamos dos 40 anos da cidade da Ribeira Grande, no investimento brutal que a Câmara teve de fazer no Passeio Atlântico, e o resto do concelho? Como é possível gerir esta situação de investimento forte sem deixar cair as restantes nove freguesias que estão fora do perímetro urbano?

O concelho é constituído por 14 freguesias, e nós sempre tivemos uma atuação junto de todas as freguesias ao longo destes últimos dois mandatos. Recordo que foi também esta Câmara Municipal que já durante o decurso do ano passado praticamente duplicou as verbas de apoio às Juntas de Freguesia. Porque nós acreditamos que as Juntas são verdadeiros parceiros do desenvolvimento local, costumamos dizer, em jeito de brincadeira mas a sério, que um euro investido por uma Junta tem mais valor do que um euro investido por uma Câmara ou um Governo Regional porque tem um retorno imediato na comunidade. E daí termos essa preocupação de, com todas as Juntas, independentemente da sua cor partidária, podermos trabalhar de perto, de forma organizada e de forma transparente, nesta distribuição de verbas. E destacaria uma coisa que esta Câmara fez e que poucas fizeram no passado que foram acordos interadministrativos para fazer obras em específico. Por exemplo, ao nível do orçamento participativo, sempre que uma freguesia numa determinada localidade ganhava uma das obras, e desde que a Junta de Freguesia pedia depois para fazer a execução da obra, esta Câmara Municipal teve a ousadia de transferir o dinheiro para a Junta para que fosse a Junta a desenvolver a obra, independentemente da sua cor política. Só neste mandato que está a terminar, transferimos cerca de 3 milhões de euros para as Juntas de Freguesia, quer em contratos interadministrativos, quer também nos protocolos anuais, o que, à realidade regional, está muito acima da média que as Câmaras Municipais transferem para as suas Juntas de Freguesia. Temos de ter uma visão transversal do concelho, olhando para cada problema ou cada situação de cada localidade com olhos de ver mas olhando para as Juntas de Freguesia como parceiros ativos do desenvolvimento local, e foi isso que foi conseguido nos últimos oito anos.

 

 

Então o orçamento tem que crescer bastante para que um jovem presidente consiga por em prática as ambições de um povo?

Tal e qual. E por isso temos feito, muitas vezes, das tripas coração para tentar chegar a todas as solicitações que nos são pedidas. Gostaria também de destacar que, e verdade seja dita, os orçamentos camarários, nomeadamente nos Açores, sobrevivem muito à custa das transferências do Orçamento de Estado. A Ribeira Grande, do seu bolo total de receitas, cerca de 80 por cento são transferências do Orçamento de Estado e a lei das finanças regionais que está em vigor veio aumentar significativamente estas receitas para as Câmaras Municipais. E se não fosse isso, não estaríamos hoje em dia numa situação folgada financeiramente e que pudesse abarcar todos estes objetivos que nos têm chegado, nomeadamente ao nível das necessidades de investimento das 14 freguesias.

 

Uma das formas também de aumentar o orçamento e conquistar mais verbas destes poderes que estão acima do município, é a apresentação sucessiva de projetos válidos. Isso não escasseia aqui na Câmara?

Não, pelo contrário. Nós temos em carteira já projetos para entrar no novo quadro comunitário de apoio. Há agora um quadro comunitário de apoio que está a terminar, o Açores 2020, e que esta Câmara Municipal tem apresentado todos os projetos que estão ao seu alcance para ter o máximo de financiamento ao nível do financiamento a fundo perdido. Nós temos já um plano estratégico desenhado até 2030, a Agenda 2030, e que haja o mote para que a cidade continue a crescer como tem vindo a crescer nos últimos anos. E isto independentemente de quem ficar cá, isto ultrapassa e extravasa o mandato autárquico, mesmo com esta visão, para não acontecer aquilo que aconteceu quando entramos em 2013, que não tínhamos qualquer documento estratégico, não tínhamos qualquer visão de futuro da cidade, e teve de ser o novo executivo que entrou a por mãos à obra e começar a traçar esse plano estratégico que agora termina mas que tem já esta visão de futuro e permite esta ambição para continuar o desenvolvimento a que temos vindo a assistir nos últimos anos.

 

Sensivelmente a meio deste último mandato, ficou marcado por um caso polémico que teve a ver com a intervenção do Ministério Público nas instalações e nomeadamente sobre as atitudes do presidente no exercício de funções. Como é que está essa situação? É um tema que lhe complica a gestão corrente do município ou nada tem a temer e dá-lhe mais força para continuar?

Claro que ninguém gosta de passar por uma situação como aquela que passamos. E para ser muito franco, não há nada nem ninguém que nos prepare para um momento de confronto quase da nossa ação governativa como aquele que vimos a 2 de julho de 2019. Fomos apanhados completamente de surpresa numa investigação que estava a decorrer, e que, dentro da normalidade deste tipo de investigação, fomos completamente transparentes e abertos relativamente àquelas que eram as dúvidas que tinham sido levantadas pelo Ministério Público. Tanto que colaboramos de imediato com a investigação, neste momento a investigação ainda decorre, portanto, não temos pormenores sobre eventuais acusações ou sequer quais são as prenuncias que daí advém, mas uma coisa é certa e gostaria que ficasse bem ressalvado. Nós estamos de consciência tranquila porque tudo aquilo que fizemos, e que continuamos a fazer, é sempre em prol dos ribeiragrandenses e do concelho da Ribeira Grande. E se, porventura, pode haver alguma dúvida ainda neste tipo de investigação julgamos que os tribunais servem precisamente para isso, para se esclarecer estas dúvidas em sede própria. Mas isso não nos tira o sono, pelo contrário, dá-nos ainda mais ambição para continuarmos a trabalhar, e sem sombra de dúvidas, estamos de forma bastante tranquila à espera do resultado desta investigação e mostramos toda a nossa disponibilidade para responder sobre os nossos atos. Como disse, tudo foi feito em prol do concelho e dos ribeiragrandenses e julgo que isto está bem patente aos olhos de todos. Claro que ninguém gosta de passar por isto, foi uma experiência que nos deu ainda mais sentido de missão na forma em que estar ao serviço da causa pública está sempre sobre o escrutínio direto de todos e de tudo. E, por isso mesmo, esta situação vem-nos dar ainda mais ambição para trabalharmos cada vez mais e melhor sempre em prol do nosso concelho.

 

Os ribeiragrandenses definem-no, normalmente, como um deles. Expressões como “Alex” ou “Alexandre” são usuais em vez de presidente. Como caracteriza este tipo de comportamento das pessoas mesmo quando tinha pessoas à espera nas escadas e atendia toda a gente, mesmo lhe estragando a agenda?

É verdade. Isto acho que demonstra a nossa forma de ser e de estar quer na vida, quer na política. Pessoalmente, tenho sempre isto presente, não gosto de dizer que sou político, gosto de dizer que sou mais um a fazer política e quem me conhece, até pelas razões que inicialmente referi, sempre fui cá da terra, sempre me dei bem cá, sempre participei em inúmeras atividades, portanto, conheço muita gente que desde novos e os que me conhecem melhor tratam-me por Alex que é o meu diminutivo desde os tempos de escola, quem me conhece menos bem chama-me por Alexandre e isso acho que só demonstra, por um lado, o carinho, demonstra também a nossa forma de ser e de estar na vida e reconheço como essa proximidade que temos tentado cultivar desde que estamos cá na Câmara Municipal.

 

 

 

“Estamos sempre à procura de novas oportunidades para trazer mais pessoas e mais movimento para o concelho”

 

Surf, turismo de natureza, indústria, agricultura e agora os nómadas digitais, entre muitos outros, são os polos em que assenta a projeção para o desenvolvimento do concelho da Ribeira Grande. E o presidente é o “culpado” disto. Como explica?

Acima de tudo, o que temos tentado fazer ao longo dos últimos anos é tentar arranjar estratégias de captação quer de pessoas, quer de negócios para o concelho. Se há bem pouco tempo conseguimos, finalmente, trazer a capital do Surf para a Ribeira Grande, e acho que este é já um dado consolidado, se bem que há sempre mais por fazer ao nível das suas infraestruturas e reconhecemos que ainda há trabalho por fazer, mas o conceito já fica quase de cor para quem visita a Ribeira Grande. Nós estamos sempre à procura de novas oportunidades para trazer mais pessoas e mais movimento para o concelho. E agora, o fenómeno que estamos a apostar e a trabalhar, tem a ver com a questão dos nómadas digitais porque foi um fenómeno que apareceu devido à pandemia, cada vez mais o teletrabalho veio para ficar e atendendo às características únicas da cidade e do concelho, julgamos que temos aqui todos os atrativos para fazer da Ribeira Grande um sítio para que as pessoas se instalem e possam trabalhar remotamente como se estivessem em qualquer parte do mundo. Temos assistido a alguns exemplos por esses países fora que têm feito esta aposta e que tem sido, claramente, uma aposta ganha, e atendendo às características da Ribeira Grande, onde estamos a apostar, cada vez mais, na questão da sustentabilidade, por exemplo, ao nível da mobilidade onde já investimos, numa rede de ciclovias, e prevemos nos próximos anos continuar a investir nesta questão da mobilidade suave, estamos a investir também na requalificação de zonas degradadas transformando-as em zonas verdes e de maior conforto para a população local, e agora, ao nível da tecnologia posso adiantar que até ao final de 2020 praticamente todo o concelho ficará abrangido com a rede de fibra. E isto são fenómenos importantes para esta questão dos nómadas digitais porque quem procura este tipo de vida são pessoas que ficam durante uma temporada longa em localidades que oferecem boa qualidade de vida, desde logo, a proximidade ao mar, desportos relacionados com o mar como temos aqui na Ribeira Grande e direcionado para o surf, uma boa velocidade de internet e depois uma série de atrativos que a cidade tem para oferecer, seja a nível cultural, gastronómico e também ao nível do alojamento porque a ideia com este fenómeno é ocupar todo este conceito para que quem quer se instalar cá durante, 4, 5 ou seis meses, ou até um ano, possa fazê-lo com toda a qualidade que a Ribeira Grande e os Açores são reconhecidos. Portanto, é quase uma imagem de marca que queremos usar daqui por diante, sendo, sem sombra de dúvidas, uma oportunidade que a Ribeira Grande quer agarrar para dar um novo impulso na retoma da economia após a pandemia.

 

Rabo de Peixe é uma das 14 flores do concelho, e falo em flores porque a Festa da Flor estava a implementar-se fortemente no concelho, nestes dois anos não se realizou, mas não deixam de existir flores no concelho. Rabo de Peixe, é orgulho ou preocupação?

Rabo de Peixe sempre foi orgulho. Aliás, Rabo de Peixe e as outras 13 freguesias. Mas gostaria de destacar o facto de Rabo de Peixe muitas vezes ser referenciado pelas piores razões quando, efetivamente, quem refere essa menção negativa é porque não conhece a realidade. Além de ser uma vila altamente qualificada ao nível da sua população e falo concretamente com pessoas que têm muitas provas dadas ao nível social, cultural, recreativo e até empresarial, muitas vezes quando se fala de Rabo de Peixe tende-se a falar só pelas piores razões quando isto não é uma realidade que se compactua com o que vemos no dia a dia. Rabo de Peixe é, com muito orgulho, uma das nossas vilas, seja numa vertente mais ligada ao mar, ou numa vertente mais ligada à terra, seja numa vertente mais cultural ou desportiva porque é um local que tem uma densidade populacional mais elevada em relação aos outros locais, mas que tem uma potencialidade também muito superior em relação aos outros locais devido, precisamente, ao facto de ter muito mais pessoas qualificadas, muito mais instituições que ajudam a elevar também o concelho da Ribeira Grande.

 

A Ribeira Grande, nos últimos oito anos, foi dos concelhos que mais se desenvolveu. Os prémios e correspondentes méritos são prova disso.

Sim, e temos feito também por isso. Ou seja, quer prémios ao nível da sustentabilidade como os Prémios do Eco21, da Bandeira Azul, que só vêm comprovar que a Ribeira Grande está no bom caminho ao nível da sua sustentabilidade ambiental, e este é um fenómeno que queremos continuar a apostar. Já percebemos que este é um conceito que não queremos abdicar, ou seja, a Ribeira Grande é conhecida pelas suas paisagens e queremos cada vez mais apostar em zonas verdes no concelho.

 

Então subscreve a declaração da presidente da Junta de Freguesia da cidade da Maia, no Norte de Portugal, quando considera que São Miguel é o jardim de Deus na terra…

É verdade. Por acaso é uma frase muito bem escolhida pela nossa amiga Odete, presidente da Junta. E, sem dúvidas, esta mais valia que temos que não queremos desconfigurar. Por outro lado, a Ribeira Grande tem sabido preservar essa imagem de marca, as suas belezas, também nos últimos oito anos temos feito um trabalho inexcedível na recuperação de trilhos pedestres, de zonas verdes, dando maior visibilidade às nossas zonas balneares que têm vindo a aumentar ao nível das bandeiras azuis, e isso só demonstra a nossa sensibilidade também para a questão da sustentabilidade. É um conceito que vai fazer parte do futuro, aliás, faz parte da estratégia 2030, e que não queremos abrir mão dela.

 

Com base na agenda que lançou, como vê a Ribeira Grande daqui a 4 anos?

Vejo a Ribeira Grande com projetos que estão por terminar, e que vão ficar concluídos, sem dúvida, nos próximos quatro anos. Falo concretamente da frente mar, que é, porventura, o projeto para aqueles que não acreditavam que fosse possível fazer um projeto desta envergadura, estou em crer que nos próximos quatro anos este projeto ficará, finalmente, concluído, também com o apoio do Governo Regional. Esta Câmara Municipal tudo tem feito para, com as parcerias, nomeadamente com o Governo Regional, que é fundamental para que esta obra fique concluída nos próximos anos, tudo fará para ter este apoio que nunca o teve no passado. Nos próximos quatro anos vejo também uma Ribeira Grande ainda mais desenvolvida, preocupada com a sustentabilidade, com o ordenamento do território, e acima de tudo com o ensino, que é uma área que temos vindo a apostar desde que entramos para a Câmara em 2013 e que na nossa opinião estava descurada. A Câmara da Ribeira Grande, anualmente, investe cerca de 800 mil euros no ensino, temos projetos inovadores, desde uma rede de ATLs, desde o apoio extracurricular aos alunos do 1º ciclo, fizemos aqui uma estratégia sempre em colaboração com as escolas no sentido de dotar os nossos edifícios escolares de melhores condições. Por exemplo, neste momento, já não temos escolas com amianto, isto foi resolvido nos nossos mandatos e era uma situação que já se arrastava há muitos anos. E quem diz isso, diz outras obras que foram feitas ao longo dos últimos oito anos. Mas gostaria de destacar, acima de tudo, que daqui a quatro anos vejo uma cidade e um concelho ainda mais pujante, ainda com mais desenvolvimento, sabendo agarrar as oportunidades que estão a aparecer principalmente ao nível destes programas de apoio que estão já aí à porta, e que a Ribeira Grande se coloca na dianteira porque já tem o seu plano traçado num horizonte temporal até 2030.

 

Além de virar a cidade para o mar, pretende também virar a cidade para a ribeira, sem esquecer o Caminho da Tondela…

Sim, há três ou quatro projetos que serão uma das nossas bandeiras para os próximos quatro anos. Se a Ribeira Grande, neste momento, já está virada para o mar, agora queremos virar a cidade para a ribeira. A ribeira da Ribeira Grande também sempre teve uma conotação muito negativa junto da população local porque, até há relativamente pouco tempo, a ribeira é que fazia moer os moinhos da Ribeira Grande que faziam depois o pão, e que depois entrou em desuso devido à introdução de novas tecnologias. E a ribeira depois começou a ser tratada quase como o esgoto da cidade. E em pleno século XXI, julgamos que temos de dar um passo em frente e requalificar a nossa ribeira para ser mais um ponto de atração turística. Não são todas as cidades que se podem orgulhar de ter uma ribeira a passar no seu centro, aliás, veja-se o caso, claro que com dimensão diferente, a ribeira do Porto o que representava para o Porto até há uns anos atrás e que fruto de uma visão estratégica dos dois municípios, Porto e Gaia, hoje em dia são locais de atração turística. E a Ribeira Grande, na sua dimensão, também pode ambicionar em ter esta atratividade olhando para a ribeira, requalificando as suas margens e dotando a cidade com esse espaço verde, aberto, arejado e com uma ligação que se quer, depois, à frente mar. O Caminho da Tondela acaba por ser também uma ambição já de longa data, já se fala pelo menos há mais de 20 anos, que é uma ligação que vai permitir abrir o centro da cidade à variante que existe a passar na nossa cidade. É um projeto que, neste momento, já tem o seu projeto de execução aprovado, prevemos lançar a concurso público até final deste mandato o primeiro torço que envolve cerca de 300 a 400 metros, numa intervenção que já começou a ser feita no Largo da Grota.

 

Nestes dois anos em que a Covid-19 reinou, algumas iniciativas extrafronteiras do concelho tiveram de reduzir a intensidade. Mas nota-se uma grande vontade por parte do presidente e do município em colocar em prática geminações com a diáspora e com o Norte de Portugal Continental, no sentido de criar uma interação e motivação aos mais jovens para que não seja redutor viver no concelho da Ribeira Grande…

Sim, realmente tem sido uma preocupação. O Norte do país, desde logo destaco esta abertura de portas através do Jornal AUDIÊNCIA que tem permitido, através da sua gala, trazer muita gente do Norte do país anualmente à Ribeira Grande, e nós temos estabelecido contacto profícuo quer com autarquias, quer com empresários e pessoas a nível individual, e acho que é uma mais valia e uma oportunidade que a Ribeira Grande tem para se dar a conhecer num mercado que é extremamente interessante como o do Norte do país. E é um mercado que tem, se calhar, mais afinidade do que no resto do país devido à questão cultural, à questão do valor do trabalho que nós aqui também damos muito valor a esta área, e acima de tudo por ser um potencial gerador quer de intercâmbios sociais e culturais, quer na atração de investimento privado. E esta é uma porta que nos abriu e que nós queremos agarrar. Posso adiantar que já assumimos publicamente a intenção de trabalharmos já num processo de cooperação ou já de geminação com o concelho da Maia, na zona norte do país, e temos já bastante adiantado um processo de geminação com Brampton que é uma cidade que fica no Canadá e que tem uma grande implantação de gente natural do nosso concelho. São essas duas cidades que estão já na forja para podermos adiantar de forma mais profícua este entendimento.

 

Em 2022 concretizar-se-á?

Sim, é esse o objetivo até porque Brampton já se arrasta há algum tempo e já começamos este protocolo de interação e com o município da Maia, sendo uma intenção mais recente, mas faremos de tudo para que aproveitando também a boleia da geminação entre a freguesia da cidade da Maia e a freguesia da Maia da Ribeira Grande, aproveitar também as sinergias com o próprio município da Maia.

 

Que mensagem gostaria de deixar aos ribeiragrandenses e quais os seus desejos para a Ribeira Grande?

Acima de tudo o que desejo é que a Ribeira Grande continue a crescer como tem crescido nos últimos anos. Vínhamos numa onda de desenvolvimento inigualável e isto só foi possível graças ao esforço de uma equipa, e quero destacar a equipa que me acompanhou nestes últimos anos, e com uma visão estratégica de alguém que olhou para a Ribeira Grande com outros olhos. Isto julgo que foi a grande novidade que foi conseguida para nos destacarmos em relação a outras localidades quer da ilha, quer da região. E gostaria de deixar a mensagem que tudo o que foi feito foi sempre em prol do concelho, em prol dos ribeiragrandenses e, como é sabido, gostaria que este projeto tivesse continuidade porque estes projetos quando apresentamos têm uma longevidade de 10 a 12 anos, que são os três mandatos autárquicos, que são projetos como, por exemplo, a frente mar que não são possíveis de serem concretizados em meia dúzia de anos. E daí, pedirmos também esta compreensão às pessoas e fazer de tudo para que nesta ambição de longo prazo, os 12 anos, podermos terminar uma obra que começamos em 2013 e que vai deixar, algumas dessas obras, inclusivamente, já estão concluídas, mas que vai deixar a Ribeira Grande nas bocas do mundo pelas melhores razões. E era essa que gostaria que ficasse como mensagem final, que é deixar a palavra de que a Ribeira Grande, como cidade e como concelho, ultrapassa e extravasa as questões particulares e individuais de cada um de nós. E esse sentimento de sociedade, de coletividade, deve ser a nossa forma de ser e de estar na vida e na política, pensando sempre no bem comum e nunca nas questões pessoais ou político-partidárias. A Ribeira Grande está acima, sempre, destas questões pessoais e partidárias.

 

Tem orgulho na Ribeira Grande?

O orgulho é uma palavra que fica sempre bem, e se há pessoa que tem orgulho na Ribeira Grande, eu sou uma delas. Aliás, foi esse trabalho que tentamos desenvolver nos últimos oito anos, deixar que os ribeiragrandenses se sentissem orgulhosos da sua terra. Também não foi por acaso que ao longo dos últimos oito anos investimos bastante quer nos eventos culturais, quer nos eventos musicais, como forma até de os mais novos se identificassem e se orgulhassem da Ribeira Grande. Portanto, é com muito gosto que vemos que as pessoas se orgulham da Ribeira Grande hoje, se calhar, mais do que no passado.

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com