O mundo está a enfrentar uma «crise invisível da qualidade da água» que está a eliminar um terço do potencial crescimento económico em zonas altamente poluídas e quem o diz é o Banco Mundial, num relatório divulgado esta terça-feira, alertando que esta situação está a ameaçar o bem-estar dos humanos e o ambiente, nomeadamente a nível da saúde e da agricultura, pois a combinação de bactérias, produtos químicos, esgotos e plásticos pode sugar o oxigénio retido nos abastecimentos de água e «transformar a água em veneno para pessoas e ecossistemas».

Uma das causas apontadas para a elevada contaminação das águas é o nitrogénio, um fertilizante fundamental para a produção agrícola, mas muito volátil e instável que libertado para as águas, pode diminuir o nível de oxigénio das mesmas e causar zonas mortas. Segundo os dados registados pela entidade mundial referida, crianças que nasceram na Índia, Vietname e em 33 países de África e que estiveram expostas a elevados níveis de nitrogénio nos primeiros três anos de vida têm um crescimento mais limitado.

Em termos globais, um quilograma de fertilizante adicional por hectare de terreno gera um crescimento da produção entre os 4% e os 5%, refere o Banco Mundial, mas em contrapartida, o escoamento deste fertilizante para as águas representa «um risco suficientemente elevado» para aumentar o atraso no crescimento infantil entre 11% e 19%, bem como para diminuir os rendimentos ao longo da vida entre 1% e 2%.

Mas o problema não é limitado a países em desenvolvimento, pois de acordo com o mesmo relatório, só os Estados Unidos são responsáveis pela libertação de mais de mil novos produtos químicos para o meio ambiente todos os anos, o que constitui cerca de três novos químicos por dia.

Porém e além dos químicos, o Banco Mundial aponta ainda para o aumento dos níveis de salinidade na água e nos solos, sendo o problema causado pelas situações de seca extrema, tempestades e subida dos níveis da água do mar associados às alterações climáticas e mais grave «O mundo está a perder, devido à água salina, comida suficiente para alimentar 170 milhões de pessoas por ano».

O alerta já foi feito também pelo IPCC-Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas, em 2018, sobre os impactos da subida da temperatura em 1,5 graus centígrados até ao final do século XXI e na altura o IPCC alertou que com um esforço significativo ainda seria possível limitar a subida da temperatura, porém, um novo estudo agora divulgado, vem informar que se o percurso das emissões actuais se mantiver, o aumento dos dois graus Celsius poderá ser alcançado em meados deste século e podemos mesmo chegar aos três graus Celsius.

A Amazónia é a maior floresta tropical do mundo e possui a maior biodiversidade registada numa área do planeta, pois tem cerca de cinco milhões e meio de quilómetros quadrados e inclui territórios do Brasil, Peru, Colômbia, Venezuela, Equador, Bolívia, Guiana, Suriname e Guiana Francesa, ou seja, é um verdadeiro pulmão do mundo.

O número de incêndios no Brasil cresceu 84% até dia 20 de agosto deste ano, em comparação com período homólogo de 2018, tendo o País registado 74.155 focos até esta segunda feira, com a Amazónia a ser o bioma mais afetado e de  acordo com a imprensa brasileira, que cita dados do «Programa de Queimadas» do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o bioma ou conjunto de ecossistemas mais afetado é o da Amazónia, com 51,9% dos casos, seguindo-se o cerrado, ecossistema que cobre um quarto do território do Brasil com 30,7% dos focos registados no ano.

No início de agosto, o governo do Amazonas decretou situação de emergência no sul do estado e na Região Metropolitana de Manaus devido ao «impacto negativo da desflorestação ilegal e queimadas não autorizadas».

Ao Jornal Estadão, o pesquisador Alberto Setzer explicou que o clima em 2019 está mais seco do que no ano passado, o que propicia incêndios, mas garante que grande parte deles não têm origem natural, pois «Nesta época do ano não há fogo natural.Todas essas queimadas são originadas em atividade humana, seja acidental ou propositada. A culpa não é do clima, ele só cria as condições, mas alguém coloca o fogo», afirmou Setzer.

«Agora estou a ser acusado de pegar fogo na Amazónia. Nero! É o Nero a pegar fogo na Amazónia», disse Jair Bolsonaro, referindo-se ao imperador Nero, acusado de incendiar e destruir Roma.

Segundo o Observador, o presidente brasileiro afasta as culpas de si, após o terem responsabilizado pela situação, e diz que o elevado número de incêndios é normal, já que «é época de queimada por lá».

O Inpe, órgão do Governo brasileiro que levanta os dados sobre a desflorestação e queimadas no país, foi alvo de críticas recentes por parte de Bolsonaro, que acusou o Instituto de estar ao serviço de algumas organizações não-governamentais por divulgar dados que apontam para o aumento da desflorestação da Amazónia.

As recentes divulgações do Inpe apontam que a desflorestação da Amazónia cresceu 88% em junho e 278% em julho, comparativamente com o mesmo período do ano passado, no entanto, o Governo brasileiro nega esses dados.

«Todo o Verão o desmatamento é muito grande. Fazendeiros, soja, centrais hidroelétricas, porque com a construção das hidroeléctricas vêm muitos invasores atrás de terra, estrada. Também madeira, os madeireiros derrubando, para depois criar pasto. Esse é o cenário há muito. Mas neste ano de 2019 a situação piorou mesmo. Porque as pessoas estão invadindo os territórios indígenas, estão invadindo assentamentos. Os indígenas não têm mais sossego. E esse crime que está acontecendo é a partir da fala do Presidente. Quando o Presidente diz que não vai demarcar um território indígena, ele incentiva as pessoas a invadir as terras indígenas. Ou quando eles cortam a verba que era para o controle do desmatamento. E agora ele quer botar a culpa nas pessoas que moram aqui. Mas esqueceu que ele incentiva os madeireiros, os garimpeiros, os grileiros, a desmatar mais a Amazônia. Os grileiros são aqueles que se apropriam de terras, nomeadamente com documentos falsos. Estão por toda a parte no Brasil, onde é comum todo o tipo de pressão, usurpação, mas cada vez mais simplesmente abate das pessoas que são obstáculo. No Pará, que é o estado de Alessandra, há lugares do interior em que a sensação é de, a todo o momento, alguém poder sacar de uma arma. A diferença agora é a licença para matar que fica implícita, ou é extraída do que Bolsonaro e o seu governo dizem e fazem».

«Ele sempre falou assim: a Amazônia tem que virar capitalismo», diz Alessandra ecologista e grande defensora duma Amazónia limpa. «E é isso que está acontecendo, a Amazônia está morrendo por causa do capitalismo. O capitalismo da carne, o capitalismo da soja, do hidrovia, da ferrovia, das hidroeléctricas, arrendamento de terra. Então, quando o presidente fala lá em cima, o povo já está fazendo aqui em baixo».

É este infelizmente o panorama actual em que governantes sociopatas, psicopatas e culturalmente ignorantes, nomeadamente Trump e Bolsonaro, estão a empurrar o planeta para a destruição global com a maior parte de outros governantes mundiais simplesmente olhando e por essa razão cumpre-nos defender a todo o custo o que mais prezamos, a nossa própria vida, lutando por uma terra sem amos.

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