Mais uma tragédia, ensombrando este nosso mundo pleno de egoísmo e completa falta de solidariedade para com o próximo, seja ele de que continente for, ocorreu há dias no Canal da Mancha, onde mais 31 refugiados, entre os quais cinco mulheres e uma criança, morreram no naufrágio de uma embarcação rudimentar que se dirigia para a Grã-Bretanha.

Numa primeira reacção, o primeiro-ministro francês, Jean Castex, falou numa «tragédia» e afirmou no Twitter que «os meus pensamentos estão com os muitos desaparecidos e feridos, vítimas de passadores criminosos que os exploram na sua angústia e miséria».

Por sua vez, o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, comentando o acontecimento também referiu estar «chocado e profundamente triste» com esta notícia, acrescentando que «os meus pensamentos e condolências vão, antes de mais, para as vítimas e para as suas famílias. Mas também quero aproveitar para dizer que este desastre mostra o quão perigoso é cruzar o Canal da Mancha desta forma».

Na sequência, Boris Johnson convocou o gabinete de crise e em declarações aos jornalistas depois da reunião, admitiu que os esforços para conter este fluxo de migrantes em pequenos barcos «não têm sido suficientes», acrescentando que «a nossa proposta é aumentar o nosso apoio, mas também trabalhar em conjunto com os nossos parceiros nas praias em causa, nos locais de lançamento destas embarcações».

O Ministério do Interior britânico informou, entretanto, que o número de migrantes que atravessaram o Canal da Mancha para entrarem ilegalmente na Grã-Bretanha ao longo deste ano é três vezes superior ao registado em 2020, elevando o total para mais de 25.700.

O Presidente francês, Emmanuel Macron, também afirmou que «a França não vai deixar que Calais se transforme num cemitério» e prometeu mesmo «encontrar e castigar os responsáveis» por esta tragédia, apelando a que seja feita uma reunião de emergência entre os ministros europeus que «estão preocupados com o desafio da migração».

Por outro lado e noutra região do globo, mais concretamente na fronteira entre a Bielorrússia e a Polónia, milhares de refugiados tentam obter passagem para outros países, assim escapando à tensão existente na zona, derivada do apoio explícito dos Estados Unidos e União Europeia via NATO ao regime neo nazi ucraniano e visando o cerco à Rússia.

Toda esta situação ocorre depois de em 2013 Lampedusa ter sido palco de outra catástrofe em que pereceram 368 refugiados no mar Mediterrâneo e daí até aos dias de hoje periodicamente vão sucedendo os episódios de tentativas de fuga de milhares de homens, mulheres e crianças que não conseguem viver ou sobreviver em cenários bélicos e acabam as suas vidas nas águas do mar Mediterrâneo.

Estamos, pois, mais uma vez no muro das lamentações de algumas potências europeias que hipocritamente choram lágrimas de crocodilo perante a desgraça dos refugiados, sabendo que essa desgraça decorre essencialmente das perigosas aventuras bélicas do imperialismo estado unidense com reflexos negativos em África e Médio Oriente, ou seja, lamentam mas são coniventes ao apoiarem a política hegemónica e geoestratégica do aliado do outro lado do Atlântico e, quando enfrentam os resultados, erguem muros ou constroem campos de concentração cercados por arame farpado e equipados com câmaras de vigilância, assim impedindo a entrada nos seus países daqueles que fogem às aventuras imperialistas de hegemonia global.

A solução para este problema no presente não está na política de repressão brutal, repatriamento, deportações e construção pela União Europeia de campos de refugiados, mais propriamente campos de prisioneiros, está na luta contra as intervenções imperialistas pela protecção dos direitos dos refugiados, pela concessão de asilo, garantindo todos os seus direitos à habitação digna, trabalho, educação, bem-estar social e plena implementação da Convenção de Genebra e dos tratados internacionais relativos à protecção de refugiados e no futuro próximo, a União Europeia terá que repensar a sua política de alianças e deixar de ser o pau mandado do aliado estado unidense para melhor cuidar dos interesses e direitos das populações europeias, pois nem Trump nem Biden representam nada de novo.