António Teves Ferreira foi uma das primeiras vinte pessoas que conheci, da qual tenho carregado algumas lembranças para a vida inteira. Sempre bem vestido, barbeado, elegante, fino na aparência, cortês, calmo, de trato afável e com um pingo de humor fora de comum. Intrigava-me, porém, o facto de lhe chamarem por Mestre António, conhecido na Ribeira Grande inteira por Fona, que era a alcunha da família.

Mestres eram aqueles homens que tinham ofícios que lhes garantia sustento e bem-estar, a eles próprios e aos seus familiares. Era um estatuto social, mas não condizia nada com aquele senhor de chapéu côco, quase sempre vestido de fato, usando guarda-chuva como bengala, para além de servir de protector de chuva e sol.

Por isso, quando me senti o suficientemente entendido, tentei saber porque lhe era aplicado o referido título. A explicação veio clara, como a água das Lombadas: António nasceu no seio de uma família de mestres. Tanto o pai como os irmãos eram pedreiros. Ele, por sua vez, ficando no ramo da pedra, inclinou-se à cantaria, e segundo diziam alguns, era um bom oficial, um canteiro de valor. Por isso nunca perdeu o título de mestre.

No canto noroeste do cruzamento das ruas Gonçalo Bezerra e São Vicente existiu por cerca de um século uma mercearia muito conhecida. Ponto de referência para alguns, para outros paragem obrigatória. À sua frente estava o botequim, do qual não nos lembramos ter visto funcionar, a não ser servindo de armazém ao estabelecimento comercial. Segundo nos foi dito, de início o botequim abria por umas horas quando a mercearia fechava, cumprindo os horários estabelecidos por lei. Mais tarde passou só a servir de arrecadação.

Em Fevereiro de 1928 Mestre António renunciou à sua profissão e decidiu ser comerciante, comprando a mercearia e o botequim a um tal senhor de sobrenome Pinheiro, que residia no piso superior do edifício principal. Consta que negócio e imóveis antes de pertencerem a este Pinheiro eram de um outro António. Um tal de António Andrade. Tudo isto nos leva a crer, portanto, que o estabelecimento comercial nasceu, sem dúvida, no início do século vinte, e a partir de fevereiro de 1928 passou a ser conhecida por Loja do Mestre António Fona. Sendo um ponto de referência da Ribeira Grande por cerca de cem anos, foi desactivada na viragem do século vinte para vinte e um, quando o seu último proprietário, sr. José Morgado Teves, achou que se devia reformar, ao mesmo tempo que via seus filhos interessados a seguir vida noutros ramos de actividade.

No início Mestre António teve de contratar dois ou três empregados, porque ao que parece o seu filho mais velho, José Morgado Teves, nasceu depois da data da compra, e mais tarde é que a Sra. Esmera deu à luz o filho mais novo, de nome Nicolau. Quando ambos se fizeram entendidos é que passaram a trabalhar na loja.

Algures na segunda metade da década de 1940 aparece na mercearia um novo empregado, um tal de José Francisco da Ponte, que morava nas imediações. Este, com vinte e poucos anos de idade, que nunca frequentara a escola, aprendeu as letras do alfabeto e, começando a juntar umas com  outras viu como se escreviam as palavras, reparando que com elas se podia construir frases. O mesmo aconteceu com o conhecimento dos algarismos. José da Ponte nos confessou com uma ponta de orgulho que começou a trabalhar na loja com uma tabuada na algibeira. Mestre António gostava dele. Tanto, que até foi o padrinho de batismo dos seus primeiros dois filhos. Ali trabalhou por mais de quarenta anos, divididos por duas entidades patronais. Pai e filho. Mestre António e José Teves, respectivamente. Passou à reforma em 1990, com 68 anos de idade.

Sendo José Morgado Teves o proprietário, por volta de 1970 seu irmão, o Nicolau, emigrou para o Canadá. Por isso foi necessário contratar mais dois braços para trabalhar na loja. Entrou em cena um rapaz de nome Eduíno, até Filomeno e Emanuel atingirem as idades de trabalhar, depois da escola e durante as férias.

Estas memórias da loja me trouxeram outras, apontadas pelo nosso amigo Mário Moura, no ano memorável de 1997 (Memórias dos Moinhos da ribeira Grande, edição dos Amigos dos Açores, pág. 62) Procurei o livro e pus-me em busca da página que relacionava a dita loja com os moinhos. Tal como havia memorizado há mais de duas décadas, lá encontrei a preciosíssima informação, que veio corroborar com as minhas lembranças. De acordo com Mário Fernando Oliveira Moura, “as lojas, quer a mercearia, quer a de bebidas, defronte, ambas na confluência das ruas de São Vicente e de Gonçalo Bezerra, abasteciam toda a população de Trás-os-Mosteiros, passando pela Canada da Palha, Adro das Freiras, Botelho, Vale e Gonçalo Bezerra. Área onde havia um maior número de moinhos e de moleiros (…)” Creio que se esqueceu da Ponte Nova e de São Vicente. Do conteúdo do depoimento de José Morgado Teves, registado na mesma página, vem a afirmação de que era ali que se serviam os moleiros. Não só os locais, como também os que vinham de fora, para usar as mós daquela área. Às vezes ficavam de um dia para o outro, e iam à loja do Mestre António compar alguma coisa, ou simplesmente para beber. Se não apanhavam a mercearia aberta, lá estava o botequim.

Muitos negócios se trataram na Loja do Mestre António. Tanto na área principal da mercearia, como no quarto das traseiras, no espaço privado e no botequim. O quarto de trás não era acessível ao público. Nele só entravam, às escondidas, certos senhores para combinar negócios em privacidade ou simplesmente para beber sem serem vistos. O espaço privado tinha sempre a porta da rua fechada, a qual só se abria por dentro depois de um sinal feito na rua por um ou outro freguês do sexo feminino, que desejava ser servido em privacidade, muitas vezes, levando consigo debaixo do xaile a garrafinha de meio litro, para ser atestada de águardente da terra, muito afamada naquela zona. Este espaço também era o que dava acesso ao piso superior do edifício, que nunca o conhecemos por moradia, mas sim, também, como lugar de armazém. O espaço principal da mercearia tinha duas portas: uma para o lado dos líquidos, que era a que ficava mais perto do canto com a rua de São Vicente, que nem sempre estava aberta e dava acesso directo ao espaço onde muitos matavam o bicho durante o dia; a outra, a porta do meio, era a principal acessora ao interior do estabelecimento, estando o espaço de mercadorias aberto com aquele em que dois ou três homens tomavam um copinho, raramente passando deste número em horário de funcionamento da mercearia. Até porque, a personalidade do Mestre António e todo o pessoal da loja impunham respeito; e o respeito começava com as apararências e o controlo sonoro.

Para não cair no esquecimento, recordo ainda ter visto um balcão de mercearia no rés-do-chão da casa do sr. João Temudo, que era a única de dois andares naquela zona, e ficava no canto oposto da loja do Mestre António, na rua Gonçalo Bezerra. Sobre isto, aquilo que a curiosidade me fez saber foi que ao ser construído aquele edifício houve a ideia de se fazer concorrência ao Mestre António, e que depois de uma ligeira tentativa se acabou por desistir.

A mercearia também se distinguia das outras pela sua  higiene. Mestre António e seus filhos, José e Nicolau, usavam batas claras de tom acastanhado. José da Ponte não usava bata. Mangas arregaçadas, limpo, asseado e vestido a prumo. Era o “faz-tudo” e mais alguma coisa. Até consertava os fogões a petróleo que a mercearia vendia, para satisfação dos fregueses, vendendo-lhes, entretanto, espivitadores, bocalos, anilhas, vedantes, e espalhadores de cerâmica.

No tempo em que pouco dinheiro corria pelas mãos das pessoas, nesta loja também se usou, para além do rol dos fiados e das cadernetas, a moeda-mercadoria. As pessoas trocavam aquilo que não lhes fazia falta por coisas que necessitavam, destacando-se mais a troca de milho e ovos. Voltando a referir o depoimento de José Morgado Teves anotado por Mário Moura, achámos graça a esta história:

Certa manhã entrou na loja um indivíduo a comprar um ovo de cigarros. Troca efectuada. Dali a pouco o ovo foi comprado por uma mulher, que ao tentar estrelá-lo reparou que estava cozido. Voltou a mulher à loja, a queixar-se de ter sido enganada. A senhora desculpe, mas aqui não se vende ovos cozidos. Se isto aconteceu, nós também fomos enganados e, por favor, aceite as nossas desculpas. Outro ovo para a mulher. José da Ponte ao ter disso conhecimento, meteu-se nesta história, dizendo que achava saber quem trouxera à loja aquele ovo, e pediu ao patrão para deixar aquele assunto à sua conta. Problema resolvido. No dia seguinte, o mesmo indivíduo, novamente, com o ovo que lhe serviria de refeição veio comprar cigarros. José da Ponte saiu-se-lhe com esta: «Hás-de querer vender agora um ovo choco…» Um ovo choco? «Já vendeste um cozido. Já, agora, vendes um choco, e para ser melhor, então já vendias frango e tudo!…»

José Morgado Teves finaliza o seu testemunho com estas palavras: «A gente agora é que se ri.»

Muito mais há a dizer da Loja do Mestre António, mas o tempo não perdoa e o espaço muito menos. Peço a Deus que a paciência dos leitores não se esgote. Da margem ocidental do Atlântico segue um abraço para cada um dos filhos de José Morgado Teves: Filomeno, Emanuel e Sãozinha, netos do Mestre António. Haja saúde!

 

A loja do Mestre António

Tinha mil e um artigos.

Pertencia ao património

De lojas e bons amigos.

 

Eu fui à loja do Fona

Mercadorias comprar.

Usei uma saca de lona

Para as poder transportar.

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