Numa entrevista alargada e sem filtros, Alexandre Gaudêncio faz um resumo de um ano de mandato exigente em virtude da pandemia por que o mundo atravessa. Terminar o segundo mandato com todo o programa eleitoral realizado é um objetivo, mas o trabalho deste executivo continua cada vez mais desafiante frente a uma nova realidade. Uma entrevista em que se fala sobre o futuro de uma possível recandidatura, envolta em fatores decisivos na vida do autarca democrata.

 

 

 

Vamos começar por fazer um resumo deste ano. Claro que a COVID-19 é um tema que vem ao de cima porque também teve grande impacto na Ribeira Grande. Qual é o balanço que faz deste ano que termina?

Acima de tudo foi um ano atípico, e julgo que é transversal a todas as comunidades e a todas as autarquias. Ninguém estava à espera que acontecesse uma pandemia, principalmente ali logo no final do primeiro trimestre. Atendendo a essa questão tivemos que “recalendarizar” e reapontar caminhos que não estavam definidos no início do ano, nomeadamente a questão dos apoios sociais e a questão do esforço financeiro que a autarquia fez com a questão empresarial, daí ter dito que foi um ano atípico.

No entanto gostaria de ressalvar que dentro desse ano atípico, não posso deixar de destacar algumas iniciativas inéditas que o município teve relativamente à COVID-19. Recordo foi a primeira autarquia dos Açores a comprar computadores para apetrechar as escolas ali logo na primeira vaga da pandemia; foi também uma das primeiras autarquias dos Açores a implementar uma série de regras e uma série de medidas que tiveram em conta os efeitos que esta pandemia trouxe para a economia local, nomeadamente a isenção de taxas relativamente ao comércio e aos particulares. Foi a Ribeira Grande a pioneira em algumas dessas medidas aquando da primeira vaga.

Quero ainda dar nota que atendendo à situação que vivemos na primeira vaga, nós antecipámos uma série de investimentos que estavam previstos começarem mais tarde, mas que tiveram início mais cedo ao nível de pequenas empreitadas. Recordo que também foi durante este ano de 2020 que a autarquia teve um recorde do número de pequenas empreitadas. Nós acreditámos e continuamos a acreditar que só através dessa dinâmica no tecido empresarial local (entenda-se construção civil) poderíamos minimizar o impacto desta pandemia. O facto é que vamos terminar o ano com um número recorde de empreitadas. São mais de seis milhões de euros que estiveram literalmente na economia local, o que permitiu, de certa forma, atenuar este impacto negativo que tivemos.

Em traços gerais, tratou-se de uma antecipação ou um reposicionamento de políticas públicas que não estavam previstas no início do ano e que, fruto da pandemia, obrigou-nos a fazer esse reposicionamento e, assim, vamos terminar o ano com o número recorde quer ao nível de empreitadas, quer ao nível do nosso plano de investimentos que vai ultrapassar sem dúvida o ano anterior.

 

 

Há aqui três pontos sobre a COVID-19 que gostava que falássemos. O primeiro é sobre a cultura e os eventos, segundo é sobre a restauração, e o terceiro é a sua luta por se saber os números da COVID-19 por freguesia.

Começando precisamente por aí: desde a primeira hora que a autarquia sugeriu quer à Delegação de Saúde Concelhia, quer à Autoridade de Saúde Regional que esses números fossem divulgados por concelho e por freguesia. Não para sabermos dados confidenciais, mas acima de tudo para se ter um panorama no território de onde é que poderia haver maior contágio local. O facto é que com o anterior Governo Regional e com o anterior Diretor Regional da Saúde não havia essa interpretação e essa boa vontade, chamemos-lhe assim, e esses números nunca nos foram facultados da forma como está a acontecer neste momento com este novo Governo Regional.

Por outro lado (julgo que esta questão era transversal), independentemente de algumas pessoas não concordarem com a ideia, o facto é que hoje em dia todos os dias saem os números por freguesia. Acho que isto transmite um sentimento quer de preocupação quer de segurança (e isso também depende dos números por freguesia) às populações das diversas localidades. Eu acho que isso só é benéfico, principalmente para quem reside nos locais com mais casos positivos, e também para percebermos que realmente ninguém está à margem desta pandemia que estamos a viver. Mais do que isso, julgo que se fez justiça àquela que era uma preocupação que o município manifestou, e que felizmente hoje em dia, com este novo Governo, que, torno a dizer, teve essa leitura e nós aplaudimos.

Quanto aos eventos, nós não conseguimos antecipar grandes iniciativas no próximo ano, atendendo à situação do evoluir desta segunda vaga. Há aqui uma abertura ou uma luz ao fundo do túnel, que tem que ver com o plano de vacinação da COVID-19. Soubemos que vão vir cerca de 20 mil vacinas a partir de janeiro para os Açores, o que é um bom sinal, mas até que isso cubra toda a população, vai demorar algum tempo e temos essa noção, portanto, prevemos que aquilo que vai acontecer vai ser um primeiro semestre ainda atípico, com muitas restrições, atendendo a que este plano de vacinação só deverá ficar concluído aqui nos Açores até ao final do ano 2021 e que até lá essas medidas de restrição vão-se manter. Não quero dizer com isto que vai ser tudo cancelado ou omitido.

A autarquia estará atenta para aquelas que vão ser as recomendações da autoridade de saúde. Não iremos fazer nada sem estar em sintonia com a autoridade regional.

Sobre a restauração, nós estamos atentos à evolução da economia. O primeiro semestre será, ainda e infelizmente, um semestre bastante duro ao nível do desenvolvimento económico, e a autarquia ,neste momento, está a ponderar manter os apoios que estão em vigor até ao final do primeiro semestre de 2021.

Esta medida ainda está a ser estudada, mas provavelmente será uma medida a ter em conta já no início do próximo ano para entrar em vigor logo em janeiro e poder, pelo menos, se manter durante o primeiro semestre de 2021.

Quanto a outro tipo de apoios, a autarquia da Ribeira Grande tem feito vários protocolos com a Câmara de Comércio e Indústria de Ponta Delgada, precisamente com essa preocupação de gerar economia local na restauração e no comércio. Tanto é que até ao final do ano estamos com um programa de consumo no comércio local e na restauração. Foram iniciativas que também foram feitas pela primeira vez na Ribeira Grande. Pela experiência e pelos números, quer da primeira campanha, quer desta, há muitos estabelecimentos que estão a aderir ao “Comprar é ganhar”.

Por outro lado, abrimos um período de candidaturas para apoio a fundo perdido às empresas. Contabilizámos mais de 100 pedidos de apoio, o que totaliza cerca de 80 mil euros que vão ser transferido a partir de janeiro para as empresas que se candidataram a esse apoio. Isto não invalida que possamos abrir uma nova vaga de candidaturas. Este regulamento foi aprovado em Assembleia Municipal e podemos, a qualquer momento, reabrir esse período de inscrições. Prevemos que este programa (infelizmente) terá que ser aberto novamente para permitir este tipo de apoio.

Julgo que também vão aparecer vários apoios (por parte do Governo Regional) para os empresários locais da restauração e do comércio, mas também passando pela hotelaria.  Estaremos atentos. A autarquia da Ribeira Grande mostrou desde o princípio que será também um meio de informação aos seus empresários sobre os mecanismos de apoio que existem, e estou em crer que com este novo Governo os apoios vão surgir e vão permitir atenuar este impacto negativo que a pandemia está a trazer.

 

 

Mas a precisar de apoios, também vai estar a Câmara Municipal, isto porque tirando a agricultura que é um fator importante no concelho, aquilo em que o município estava a apostar, ou seja no turismo e na economia tradicional, é um rombo completo. Com estas isenções todas, o dinheiro não vai entrar nos cofres do município. Como é que o município vai sobreviver? Vai multiplicar os cinco milhões que o vereador da oposição Carlos Silva diz que dá para mundos e fundos? São esses cinco milhões que vão resolver salários da estrutura autárquica?

Duas notas sobre essa questão: em primeiro lugar é preciso perceber que o vereador Carlos Silva entrou praticamente no final do mandato e que não teve qualquer histórico sobre aquilo que se passou da Câmara, ou pelo menos não passaram esse histórico que a Câmara teve durante quer este mandato, quer o anterior. Em segundo lugar, esses cinco milhões que é referido pelo Carlos Silva (e bem e com toda a razão), têm que ver com o plano de trabalhos que o município tem traçado, e com uma série de compromissos para fazer face às obrigações que o município tem. Os cinco milhões estão cabimentados para compromissos que a autarquia tem assumidos para fazer face a essa verba. Não quero com isso pareça, como aconteceu num passado recente, em que a autarquia punha e dispunha de situações, nomeadamente de empreitadas, e depois não pagava aos empreiteiros. O que nós estamos a fazer, e segundo os dados do anuário financeiro da ordem dos contabilistas certificados, a Câmara da Ribeira Grande neste momento é a segunda melhor do país ao nível do seu equilíbrio financeiro. Eu acho que isso explica bem o rigor e a transparência que estamos a colocar nas contas públicas. Dizer-se que temos cinco milhões de euros para fazer faço àquilo que bem nos apetecer, não é bem assim, como já tive a oportunidade de explicar. Isto só demonstra a nossa responsabilidade sobre os nossos compromissos.

Referindo ainda, em relação à perda de receitas, este ano, com todas estas isenções, significou um rombo de cerca de 400 mil euros em todo o orçamento do município. Este valor foi devidamente calculado quando tomámos esta opção das isenções das taxas porque em contrapartida desses 400 mil euros que deixámos de receber, vimos aumentadas as transferências do orçamento de Estado para com a autarquia em quase 900 mil euros. Esta diferença que dá um saldo positivo de 500 mil euros, permite-nos fazer este tipo de apoios a fundo perdido e outras iniciativas que eventualmente venham a ser necessárias fazer para revitalizar a economia local. São contas que do nosso ponto de vista estão devidamente estruturadas e cabimentadas, e a perda de receita vai sobrepor-se com aquilo que estamos a receber a mais.

 

 

Na última entrevista que concedeu ao jornal, queixava-se que o Governo Regional devia ao município cerca de um milhão de euros. Isto está ultrapassado?

À data que nós falamos recordo-me perfeitamente que o Governo Regional devia à Câmara da Ribeira Grande cerca de um milhão de euros. Estas contas foram sanadas, chamemos-lhe assim. Estamos a falar de contratos que o Governo tinha com o município já desde há mais de 10 anos a esta parte. Quando nós entrámos para a autarquia, desde 2013, esses pagamentos que deveriam ser semestrais tiveram um atraso de mais de um ano e meio. Em junho deste ano, o Governo Regional de então pagou a diferença que tinha para trás, ou seja, à data de hoje, e porque estas dívidas vencem-se de semestre a semestre, o Governo continua a dever-nos dinheiro, neste caso, à volta de 300 mil euros.

 

 

Este executivo, não só na sua pessoa, é constantemente criticado pelo PS. Este conjunto de críticas que surge cada vez mais tem que ver com uma preparação da candidatura de Carlos Silva para presidente da Câmara Municipal?

Não vou falar dos outros partidos, vou falar daquilo que tem sido o nosso trabalho. Quando se chega ao ano eleitoral, há sempre mais um frenesim do que havia nos anos anteriores. Aquilo que temos denotado ao longo deste mandato é que este começa com uma série de vereadores do Partido Socialista e depois termina com vereadores completamente diferentes. Na minha opinião, esta pode ser alguma jogada de bastidores para que alguém possa aparecer e eventualmente possa até surgir uma candidatura à Câmara Municipal da Ribeira Grande. Não é normal num mandato o Partido Socialista mudar o seu vereador que até tinha sido candidato à Câmara Municipal da Ribeira Grande para ser presidente. Denoto eventualmente alguma estratégia de bastidores que é legítimo e normal.

Quanto às críticas, julgo que uma coisa é fazer-se oposição construtiva e outra coisa é fazer uma oposição por oposição. Aquilo que temos assistido muitas vezes é que se critica sem apresentar soluções, e isto tem sido infelizmente um problema desde que entrámos aqui nesta Câmara Municipal. Muitas vezes o que aparece do Partido Socialista são críticas por críticas e não apresentam soluções para as críticas que são apresentadas.

Da nossa parte temos tido uma posição, chamemos assim, de diálogo e de concertação. A título de exemplo, durante o Plano e Orçamento que foi aprovado para 2021, não tivemos uma única proposta do PS para a sua implementação para o ano que se avizinha, e eu acho que isso só denota que neste momento o Partido Socialista na Ribeira Grande existe para fazer ou apenas oposição a quem está no poder em vez de apresentar uma solução alternativa àquela que é a governação do PSD na Câmara.

Nós demos com muita antecedência, aos vereadores da oposição e à própria Assembleia Municipal, os documentos do Plano e Orçamento para 2021, e não recebemos qualquer proposta de alteração aos respetivos documentos. Isso só denota, na minha opinião, essa teoria de que o Partido Socialista neste momento na Ribeira Grande só existe para criticar aquilo que a Câmara faz porque se houvesse um espírito construtivo, realmente teríamos visto outra postura aquando da aprovação do Plano e Orçamento para 2021.

 

 

A Câmara Municipal propôs-se a fazer um contrato ARAAL para o porto de Santa Iria. Vão continuar a dar apoio à Junta de Freguesia da Ribeirinha e estão disponíveis para este contrato?

Nós estamos sempre do lado da solução e nunca do lado do problema. O que nós vemos é que um contrato ARAAL poderia ser positivo, na medida em que através de uma autarquia local (como aconteceu num passado recente com o anterior Governo Regional) foram feitos diversos contratos com diversas autarquias pelos Açores, e a Ribeira Grande nunca se viu contemplada com nenhum contrato ARAAL.

Não foi por falta de interesse e iremos manifestar a mesma intenção por quem vai tutelar essa área no Governo Regional. Por aquilo que temos conhecimento, foi apresentado (embora de forma não oficial) um projeto ou um estudo prévio ao presidente da Junta de Freguesia da Ribeirinha, ainda pelo anterior Diretor Regional dos Assuntos do Mar, e que à partida seria uma solução para aquele porto, coisa que até então desconhecíamos. Continuamos a achar que o porto de Santa Iria é um dos ex-libris do concelho, um dos ex-líbris da freguesia, e merece ser recuperado.

 

 

A Câmara prevê continuar a obra do Passeio Atlântico já em 2021. Acha que o Governo Regional dos Açores vai apoiar desta vez?

Nós esperamos que sim, porque aqui a Ribeira Grande, infelizmente, foi sempre um parente pobre no que diz respeito a intervenções do Governo Regional. Por exemplo, ao nível da sua requalificação marítima. Enquanto que noutros concelhos foi o Governo Regional a fazer a contenção da orla marítima, que é competência do mesmo, na Ribeira Grande têm sido os vários executivos camarários a suportar essas obras. Como deve calcular, uma obra de quatro ou cinco milhões de euros que ainda falta terminar, se não tivermos uma comparticipação financeira do Governo Regional, será muito mais difícil de a fazermos, mas não quer dizer que não faça, apenas que irá demorar mais tempo. Se tivermos uma comparticipação ou se o Governo Regional fizer a sua parte (que é aquilo que nós pedimos na contenção da orla marítima, que representa mais de 50% do total desta obra), iremos com certeza ter uma obra feita no mais curto espaço de tempo possível.

Recordo aqui que aquando da candidatura de José Manuel Bolieiro para o Governo Regional, na Ribeira Grande foi pedido que na sua intervenção no concelho ficassem contempladas três obras fundamentais: porto de Santa Iria, frente marítima e estrada das Caldeiras da Ribeira Grande. Aquilo foi também uma visão do atual presidente do Governo, é que estas três obras seriam contempladas no orçamento e por isso vamos ver com alguma expectativa o que é que está previsto a nível de Obras Públicas para o concelho. Não vamos abrir mão dessa reivindicação, independentemente do presidente do Governo deste momento ser da mesma cor política do executivo da Câmara da Ribeira Grande.

 

 

A Ribeira Grande já era o “parente pobre” mesmo no tempo de Ricardo Silva, que era da mesma cor partidária do antigo Governo Regional. Há aqui uma falta de consideração para com a Ribeira Grande e os ribeiragrandenses?

Factos são factos e temos que reconhecer que a Ribeira Grande foi sempre um parente pobre ao nível das obras públicas do Governo Regional. Pode-me dizer que investiram, por exemplo, na nova escola Gaspar Frutuoso.  Mas neste momento a proteção da orla marítima está no topo das prioridades juntamente com as duas obras que referi.

A novidade aqui é que pela primeira vez desde há muitos anos a esta parte, há um Governo Regional liderado pelo PSD e um executivo da Câmara Municipal da ribeira Grande liderado pelo PSD. Esperamos que as nossas reivindicações cheguem a bom porto. Nós estamos cá em representação do povo que nos elegeu e iremos reivindicar em primeiro lugar os interesses dos ribeiragrandenses sempre à frente dos interesses partidários.

 

Já que estamos a falar de reivindicações, é intenção do município reivindicar a devolução da Caldeira Velha?

A Caldeira Velha, como sabemos, foi um problema político. Recordo que nós ganhámos as eleições em 2017 e logo a seguir o Governo Regional rescindiu o contrato que tinha com o município. Era legítimo porque o contrato dizia que era renovado de três em três anos, desde que não houvesse denúncia de nenhuma das partes. Efetivamente houve essa denúncia, mas não houve qualquer contacto prévio dessa intenção.

Continuo a ter a teoria de que foi uma situação política. Até então estávamos a gerir o espaço com todas as recomendações, mas o facto é que ficámos completamente surpreendidos por uma decisão unilateral. Estamos a falar de uma receita que rondava os 400 a 500 mil euros por ano. Recorde-se que na altura as entradas na Caldeira Velha eram 2€ por pessoa.

Com o novo Governo, vamos ver qual é que vai ser desenlace. Uma coisa é certa: o município não ficou parado à espera que a Caldeira Velha voltasse para a sua gestão. Continuamos a fazer uma série de ações que são reconhecidas a nível nacional do âmbito da preservação ambiental. Ainda este ano vamos receber novamente a bandeira verde do Eco 21, o que representa que o município está a cumprir com as regras ao nível da sustentabilidade ambiental, portanto iremos esperar com alguma expectativa.

Uma nota ainda na Caldeira Velha: perdeu-se, na minha opinião, uma excelente oportunidade de regularizar a situação precária que aqueles trabalhadores estavam. Os trabalhadores estavam em regime de recibo verde e estavam todos já referenciados para internalizar no município através da lei dos precários. Quando aconteceu essa situação, automaticamente estes trabalhadores deixaram de ficar referenciados na lei dos precários e neste momento continuam com a sua situação por regularizar. Queremos ver agora qual é que vai ser o desenlace. O que nós esperávamos é que nada disso tivesse acontecido, que continuássemos a gerir a Caldeira Velha. Se por ventura havia algum pormenor de gestão, estaríamos com certeza disponíveis como sempre estivemos no passado. Agora vamos esperar para ver o que é o futuro nos reserva.

 

A Câmara Municipal da Ribeira Grande tem dado nota mais recentemente de uma grande vontade de investimento nos mais jovens, falo desde as bolsas de mérito assim como o berço de empresas, apoios para habitação… aqui não posso deixar de recordar algo que o antigo presidente da autarquia Ricardo Silva disse aquando da recolha de contributos para o plano estratégico 2020-2030 no Teatro Ribeirangrandese. A Ribeira Grande será um concelho virado para quê? Tecnologia, jovens…?

Acima de tudo, e nós estamos neste momento a terminar o plano estratégico 2020-2030 depois da recolha de contributos contraídos naquela sessão no Teatro Ribeiragrandense, mas julgo que a Ribeira Grande pode-se especializar aqui em duas ou três áreas fundamentais, desde logo o mar. Eu acho que temos um potencial a nível do mar como poucos municípios têm nos Açores. Não falo só pela questão dos desportos aquáticos, mas falo essencialmente de uma orla marítima que terá que ser melhor gerida, chamemos assim, de forma a que haja maior impacto na comunidade local. Até há pouco tempo, a Ribeira Grande vivia de costas viradas para o mar. Aliás, era quase sinónimo de pobreza ter uma casa à beira-mar. Hoje é precisamente o contrário. Basta ver a intervenção que este executivo está a levar a cabo, e repararmos que há logo uma dinamização social e económica dos espaços à beira-mar que são requalificados. Os investimentos turísticos tiveram um ‘boom’ nos últimos anos devido a essa intervenção que o município teve com visão estratégica de virar a cidade para o mar.

Acho que devemos continuar com essa visão porque estamos a ver que o mar é muito apetecível para quem vem de fora, mas cada vez mais também pelos residentes que olham para esse potencial como um potencial económico que não podemos desvalorizar. Por outro lado, também não posso deixar de referir que a Ribeira Grande deverá tender-se em não perder o comboio das novas tecnologias. Neste momento estamos com um projeto que para nós vai ser um projeto âncora, que é uma incubadora de empresas de base local que será no antigo matadouro, cujas obras inclusivamente já começaram. Estamos a pensar nos nómadas digitais, ou seja, pessoas que procuram sítios para viver durante longas temporadas, e que tenham acesso à tecnologia para permitir, por exemplo, a questão do teletrabalho. Essa questão não se colocava muito até à pandemia, mas o que vemos cada vez mais, é que há países que se especializam em atrair esses nómadas digitais, que tenham elevado poder de compra, e que passando aqui uma longa temporada ajudem a dinamizar a economia local. Por exemplo, o facto de termos uma incubadora social a meia dúzia de metros de uma praia e o facto de estar a meia dúzia de metros de um centro de uma cidade com todos os serviços que estão ao dispor, pode ser apetecível para jovens casais ou jovens que, independentemente de estarem ou não família, poderem passar mais tempo na Ribeira Grande. É um fenómeno ou um conceito que estamos neste momento a equacionar seriamente, e que a Ribeira Grande, com aquele polo construído, poderá ser um centro, neste caso no meio do oceano, e uma forma de atrair esses nómadas digitais.

 

Já que falámos no mar, fale-nos do monumento ao surfista na rotunda entre Ribeira Seca e Conceição.

Foi uma ideia que nós tivemos ao longo do ano 2020, que está devidamente contemplada no seu Plano e Orçamento. Foi desenvolvida por um artista local com residência aqui no concelho, o Rui Goulart, e contámos com a colaboração de uma fundição que existe no Norte do país e cuja estátua, uma figura mais ou menos abstrata em cima de uma prancha de surf. Isto vai permitir requalificar um espaço que estava degradado. Era uma rotunda que tinha antigamente um chafariz, esse chafariz já não tinha reparação possível e das duas uma: ou retirávamos o chafariz e púnhamos uma peça de arte, ou tentaríamos que colocar novamente um chafariz, à semelhança do que existia anteriormente.

Optámos por esta primeira solução. Cada vez mais a Ribeira Grande quer ser conhecida como a capital de surf, e julgo que o monumento vai a esse encontro.

 

Há fome na Ribeira Grande?

Continua a haver fome na Ribeira Grande. Nós temos relatos de pessoas que solicitam os serviços de Ação Social do município para fazer face a carências alimentares. A título de exemplo, por causa desta situação que se está a viver em Rabo de Peixe atualmente, já contabilizámos 70 pedidos de cabazes alimentares num espaço de cinco ou seis dias. Já tivemos 70 famílias a pedir o apoio do município para suprir carências alimentares devido à cerca sanitária em Rabo de Peixe.

 

Como define a vila de Rabo de Peixe, que tem andado nas bocas do mundo pelos vários comentários depreciativos em programas de grande audiência nas televisões do Continente? Como é que define a vila de Rabo de Peixe? Está a ser vítima de uma injustiça?

Se conhecessem a realidade, com certeza que aquilo que dizem ou disseram, iria ser reformulado. Para que se entenda, Rabo de Peixe tem cerca de 9.500 pessoas, segundo os números estimados atualmente. Esta vila é uma vila com uma dimensão ou densidade populacional acima da média nacional. Estamos a falar de 9.500 pessoas em pouco mais de 16 quilómetros quadrados, o que aponta para alguns problemas sociais, mas também muito potencial económico.

Claro que há uma conotação negativa devido à situação do RSI. Compreende-se porque é, efetivamente, o local dos Açores onde há mais RSI. Estamos a falar de cerca de 20% da população que neste momento recebe RSI. Mas, na minha opinião, há uma lógica associada: profissões que têm altos e baixos ao longo do ano. Por exemplo os pescadores. Se não fosse o RSI numa classe piscatória, essa desigualdade social ainda seria maior. O que quero dizer com isto, é que neste momento o rendimento social de inserção é um garante de haver alguma estabilidade ao nível económico no final do mês para muitas famílias. Não quero com isto dizer que não possa haver abusos, mas por esses abusos, tem que haver uma maior fiscalização e daí estamos de acordo em que haja uma maior fiscalização a esses apoios.

Não podemos é dizer que toda a vila de Rabo de Peixe ou o concelho da Ribeira Grande é o “campeão” do RSI, mas que depois não se conheça outra realidade. Neste momento, e temos conhecimento disso porque andamos na rua, há famílias que não recebem qualquer rendimento ao nível da sua profissão há mais de três semanas ou um mês porque as condições do mar não permitem ir à pesca. Isso é dramático.  Só vivendo a realidade e só conhecendo as pessoas é que podemos dizer ou traçar uma conotação negativa a Rabo de Peixe.

Ainda em relação a Rabo de Peixe, há um outro potencial económico que tem que ver com a terra. Há um potencial a nível industrial. A própria Associação Agrícola, que neste momento é uma das maiores entidades empregadoras do concelho, temos a Cofaco em Rabo de Peixe que fatura mais de 50 milhões de euros por ano ao nível das suas vendas, temos uma indústria como a Yoçor, que foi uma das melhores empresas no ano passado segundo o jornal Açoriano Oriental… quer dizer, tende-se a esquecer do potencial que Rabo de Peixe tem. Como autarca e como presidente de Câmara, é com grande orgulho que temos no nosso concelho uma vila como Rabo de Peixe.

 

Também temos que ser realistas e olhar para dentro. Rabo de Peixe tem graves problemas de “pobreza de espírito”.  O que tem de haver aqui é uma mudança de mentalidades. Tem que haver algum tipo de acompanhamento, e tem que ser um acompanhamento virado para a sociologia. Rabo de Peixe é um caso de estudo por esses motivos. Como é que se soluciona um problema de forma a que seja duradouro?

Eu acho que passa muito pela educação e a escola tem um papel fundamental em Rabo de Peixe para mudar essa tal mentalidade. Se olharmos para os números de Rabo de Peixe, e olhando principalmente para a escola básica, vamos ver que a taxa de absentismo e de abandono escolar é elevadíssima. A pergunta que se coloca é: o que é que tem sido feito para combater este absentismo e este abandono escolar? Julgo que o novo Governo tem uma responsabilidade acrescida nessa matéria. Se até então não se conseguiu ultrapassar ou melhorar esses números, julgo que têm que ser desenvolvidas novas políticas ao nível do ensino em Rabo de Peixe. Julgo que só com as novas gerações é que vamos conseguir mudar essa mentalidade, e julgo também que as políticas de educação devem ser feitas à realidade de cada local. Se em Rabo de Peixe perguntar porque é que os miúdos não gostam de ir à escola, mas se calhar gostam de ir pescar ou estar com os pais junto ao mar, porque é que não se leva o ensino para junto dos alunos e do mar? É uma questão que fica no ar. Ou seja, julgo que é preciso reinventar a educação em Rabo de Peixe para permitir mudar essa mentalidade.

Por outro lado, também gostaria de destacar outro aspeto: também temos alunos brilhantes em Rabo de Peixe e que ingressam no ensino superior com médias elevadíssimas, e frequentam cursos como medicina ou direito.

A educação pode ajudar a mudar essa mentalidade, que acaba por ser cultural. Da parte do município, estamos com a nossa ação comprometida, ou seja, a nossa autonomia a esse nível é limitada. O que nós podemos fazer é alertar as entidades competentes, criar programas de ensino como temos feito – e recordo aqui que a Ribeira Grande tem programas inéditos ao nível de ensino, temos por exemplo um programa que se chama “o jardim da minha rua”, que não é mais do que incentivar a população local para resguardar melhor os seus jardins e cuidar melhor das suas ruas. Isso é que vai mudar a mentalidade dos mais novos, e julgo que só assim é que vamos contribuir para que as novas gerações possam dar o melhor contributo para a nossa sociedade.

 

É evidente um ótimo relacionamento do município, nomeadamente da pessoa do seu presidente da Câmara Municipal, com o presidente da delegação da ANAFRE nos Açores, que é também o presidente da Maia no concelho da Ribeira Grande. Ou seja, há uma sintonia muito interessante entre ambos. Esta relação pode evoluir para um patamar que permita que se viva ainda melhor na Ribeira Grande?

Nós temos tido uma preocupação de conversar sempre com as nossas localidades e presidentes da Junta de Freguesia que são, ao fim ao cabo, os representantes do povo nas suas localidades e eles mais do que ninguém sabem das dificuldades que passam diariamente. As juntas de freguesia são apelidadas de parente pobre da democracia porque não têm recursos nem meios para fazer face a muitas solicitações que diariamente lhes chegam à porta. Tem sido através das juntas de freguesia que temos conseguido atenuar uma parte dessa parte negativa.

Em relação à minha situação com o presidente da ANAFRE, trata-se de uma relação que não vem de agora. Já conheço a pessoa em questão, o senhor Jaime Rita, desde outros tempos. Temos tido uma relação julgo que cordial, e temos correspondido àquilo que nos é solicitado.

Recordo aqui uma proposta que a ANAFRE colocou, em que as câmaras deveriam cada vez mais delegar competências nas autarquias locais, e é isso que temos feito. Foi proposto no orçamento para 2021 um valor que ultrapassa os 600 mil euros de delegação de competências no orçamento camarário. Em comparação com os anos anteriores, quase que duplicámos os apoios às juntas de freguesia.

 

 O que parece que vai acontecer agora com os seus presidentes de junta (em que até agora tínhamos uma parte que dizia que eram desprezados pelo Governo Regional e que os benefícios iam só para os do Partido Socialista)? Vamos ter os do PS a dizer que agora só os do PSD recebem ou a autarquia tem um relacionamento que supera estas situações?

Acho que temos provado ao longo dos últimos mandatos, que temos feito protocolos com todas as freguesias, independentemente da sua cor política.

Como disse, esses 600 mil euros que vão ser delegados nas juntas, foram feitos critérios transparentes e objetivos que são transversais em todas as localidades. Isto teve que ver com a lei das finanças locais, ou seja, a percentagem que já é atribuída às juntas de freguesia pelo orçamento de Estado é a mesma base que serve para a Câmara transferir para as juntas, e nesse patamar ninguém é desconsiderado. Pelo contrário, são critérios objetivos de transferência de competências em que cada local não é desprezado pela sua cor política.

Por outro lado (que eu posso deixar com garantia), à semelhança do que tem sido nosso apanágio desde o primeiro mandato, sempre que as juntas de freguesia tiverem novos projetos que queiram ver realizados, que sejam benéficos para a população e que estejam no âmbito da competência da autarquia, nós nunca nos recusamos a fazer protocolos interadministrativos. Esta Câmara foi pioneira nisto. Fora os contratos de competências ao nível dos chamados “muros e passeios”, temos feito muitas obras em parceria com as juntas, obras de referência a nível local, e até ao momento nunca recusámos qualquer pedido que foi feito para com o município.

 

Os Açores são uma região pequena em termos populacionais, onde todos conhecem todos. Agora com este Governo, se houver preferências, pretende intervir para que o equilíbrio seja uma constante?

Acho que isso está bem explanado no programa do Governo. Vai ser criada uma direção regional do poder local. Eu acho que sou por aí significa que este presidente do Governo tem outra visão, até porque ele próprio foi autarca. Esta direção regional do poder local também tem como missão tornar transparentes os protocolos que eventualmente venham do orçamento da Região. Vamos esperar com alguma expectativa. Claro que o município está atento e, se for caso de discriminação quer positiva, quer negativa, com certeza que estaremos aqui para apontar o dedo.

 

Sei que não é da sua competência, mas não posso deixar de perguntar o que é que a autarquia pode fazer em relação ao assunto da orla costeira das Calhetas.

Nós estamos a acompanhar o problema e temos nota que já há um estudo prévio e um plano de intervenção naquela costa, que basicamente será fazer uma intervenção como se fez junto ao porto de pescas de Rabo de Peixe, que é criar uma contenção na erosão marítima através de um “paredão” ao longo daquela encosta, o que será bastante caro. Sabemos que qualquer intervenção marítima é muito dispendiosa, mas esta não pode deixar de ser feita, sob o risco da freguesia das Calhetas ter mais uma rua que desaparecerá nos próximos anos.

A ideia que eu tenho é que há um projeto que já está em carteira pelo Governo Regional e vamos esperar que os próximos orçamentos regionais possam contemplar essa intervenção.

 

Há uma grande reivindicação da freguesia da Conceição que é a casa mortuária. Por outro lado, será construída uma na Matriz.

Vamos avançar já com uma empreitada que está contemplada no orçamento 2021 com uma casa mortuária na Matriz que ficará nas imediações do atual cemitério Nossa Senhora da Estrela. Será uma casa mortuária que ficará no parque de estacionamento daquele cemitério e irá abranger as freguesias vizinhas: Ribeirinha e Matriz.

A Conceição reivindica que deve ter uma própria casa mortuária na sua freguesia. O próprio município já se predispôs a disponibilizar um terreno que é camarário para o efeito, que ficará nas imediações da futura esquadra da PSP da Ribeira Grande, e que, segundo tenho a informação, a própria Junta de Freguesia está a liderar o seu projeto, que será apresentado assim que estiver concluído.

 

Como é que se encontra o equilíbrio entre o necessário para o imediato e para o investimento futuro? Como é que se explica que um investimento não é para ter retorno imediato?

O trabalho que temos desenvolvido nos últimos anos demonstra que não estamos aqui a mudar o rumo das coisas de dia para dia. Nós definimos um plano estratégico que termina em 2020 e estamos a definir o novo plano estratégico que irá terminar em 2030. Julgo que esses documentos estratégicos orientam a nossa ação diária e dão uma visão para fora de que estamos a cumprir com um desígnio, independentemente de haver algumas vicissitudes a meio, por exemplo esta questão da pandemia. Mas, diria que só com uma visão de futuro é que podemos dar nota que estes investimentos (por exemplo a nível das obras públicas, porque é que investimos no Passeio Atlântico e não em outra rua que precisava) fazem parte de um plano estratégico. Isto não quer dizer que a meio do percurso não haja algumas nuances.

É extremamente importante as autarquias terem documentos estratégicos de médio a longo prazo para permitir essa visão de futuro.

 

Falou há pouco em 400 mil euros, que foi aquilo que o município deixou de arrecadar em 2020 por efeito da pandemia. Para 2021, qual é a estratégia neste momento que o município tem? Está a pensar em algum financiamento bancário, está a pensar em reclamar mais verbas do Governo Regional ou, eventualmente, do central?

Este rombo que estamos a viver, por ventura vai continuar em 2021. Ao avaliar pela segunda vaga que estamos a viver, e que a Ribeira Grande está a viver com mais intensidade do que na primeira vaga, estamos com alguma expectativa sobre aquele que vai ser o programa do Governo Regional.

Recordo que há aqui também um envelope financeiro considerável que virá para os Açores e esperamos que isto também tenha efeitos na economia local. Como disse, estaremos atentos para também reivindicar aquilo que precisamos de reivindicar. Como deve calcular, nós não temos números oficiais de quanto é que isto representou de perda na economia local, até porque quem faz esse controle não é diretamente o município.

As expectativas são boas, ou seja, prevê-se que em 2021 já haja um acréscimo de cerca de 4% na economia local, mas em contrapartida tivemos – e segundo as previsões – um decréscimo de 10% este ano. Isso significa que só em 2022-2023 é que vamos estar nos números que tínhamos antes da pandemia. Por isso, durante este período há que haver um envelope financeiro para colmatar essas necessidades.

Iremos, com certeza, pedir apoio ao Governo Regional no que diz respeito a este rombo que estamos a ter. Diria até que este programa do Governo, tendo uma componente empresarial forte que foi apresentado com medidas para o comércio, se houver uma medida forte para o comércio será menos um impedimento para a autarquia. Por exemplo, se o comércio tiver medidas suficientes para se manter, a autarquia não precisa de continuar com a isenção de impostos. Pode ser uma dessas medidas.

Quanto ao financiamento bancário, neste momento não estamos a equacionar, até porque estamos numa situação relativamente estável. Estamos sim a equacionar o financiamento bancário para antecipar outros problemas, nomeadamente ao nível da habitação social. Recordo que a Câmara Municipal já terminou a sua estratégia local de habitação, estamos só à espera que seja aprovada pelo Instituto de Reabilitação de Habitação e Reabilitação Urbana de Portugal, e assim que for aprovado contamos ter uma forte componente no nosso orçamento camarário para o problema da habitação na Ribeira Grande, que já começa a ser considerável. Por isso mesmo pretendemos recorrer a financiamento bancário para colmatar as necessidades de habitação do nosso concelho.

Nós temos dados muito concretos, até porque a estratégia local de habitação aponta para uma estatística muito atual. No concelho da Ribeira Grande temos cerca de 10.500 fogos. Dessas 10.500 casas, 510 são habitações sociais, o que é bastante representativo, pois somos o concelho da região com mais habitação social. Dessas 510 habitações sociais, 320 situam-se em Rabo de Peixe, e dessas 510 habitações sociais, cerca de 25% precisam de reparação urgente. Isto está contabilizado. São à volta de três a quatro milhões de euros para que todo o parque habitacional neste momento existente fique em boas condições, e temos também um número considerável de famílias, entre 10 a 12% que estão nas habitações sociais em sobrelotação, por isso é que se diz que há três ou quatro casais a viver na mesma casa, é um facto.

São essas referências que nós temos sobre a necessidade urgente de olharmos para soluções no mercado para poder fazer com que estas pessoas tenham um mínimo de condição possível de habitação.

Esta estratégia local de habitação também aponta algumas soluções. Prova disso, a Câmara Municipal do Porto inclusivamente já assinou um contrato-programa com o Governo da República para financiar a sua estratégia local de habitação. É isso que nós queremos, que a partir do momento em que a estratégia local seja aprovada, possamos partir para as soluções, e essas soluções colocam o Governo Regional, o Governo da República e também a autarquia. Se toda a gente fizer o seu papel, estou em crer que podemos colmatar as necessidades que estão identificadas.

Se me perguntar quantas casas é que isto significa, neste momento apontamos para cerca de 150 a 200 moradias quase urgentes em que é preciso essa intervenção. Se serão requalificações ou moradias novas, a própria estratégia local de habitação aponta algumas soluções. Nós até podemos financiar a fundo perdido ou a juros bonificados, por exemplo casais jovens que queiram recorrer à banca e poderem construir a sua casa, portanto, isso faz parte de uma das estratégias. A outra estratégia tem que ver com autoconstrução, ou seja, por exemplo o município cede alguns terrenos ou lotes pré-infraestruturados e o próprio casal constrói a sua habitação. Outra vertente tem que ver com a construção pura e dura no âmbito social e poder depois fazer habitação social a famílias que estão identificadas. São essas as três componentes que eu gostaria de destacar e que estão bem vincadas na estratégia local de habitação.

Não posso deixar de referir que há aqui uma infraestrutura que está por acabar na Matriz com 52 apartamentos. O Governo Regional que sessou funções referiu que já tinha adquirido a sua parte, e esta é uma lufada de ar fresco no sentido de podermos colocar ali pessoas que estão em grave carência habitacional.

 

É normal os autarcas guardarem para o último ano de mandato as obras mais emblemáticas. Quais serão as da Ribeira Grande?

Os mandatos autárquicos são de quatro anos e muitas das grandes obras têm um desfasamento no tempo para terminarem ou pelo menos começarem nos últimos anos de mandato. Mas isso muitas vezes não tem que ver com o planeamento que é delineado à partida, pelo contrário, tem que ver com alguns atrasos, tem que ver com a contratação pública, tem que ver com o visto do Tribunal de Contas… dando um caso em particular, o campo de jogos de Rabo de Peixe (que é uma das bandeiras deste mandato) ficará concluído até meados do próximo ano 2021. Julgo que é a grande obra deste mandato.

Para além disso, estamos a falar da continuação do Passeio Atlântico, a chamada frente-mar, para a qual estão alocados no próximo ano cerca de 600 mil euros para continuarmos essa última fase, que irá já entrar na zona do Monte Verde. Queremos que esta seja uma obra que tenha a comparticipação do Governo Regional e, daí, podermos concluir todo o projeto no mais curto espaço de tempo possível.

Será uma intervenção até à rotunda entre Conceição e Ribeira Seca, que fará uma nova intersecção ou um novo arruamento que vai ligar aquela rotunda à zona do Monte Verde, e depois a requalificação toda da estrada do Monte Verde até à nova ponte que foi construída.

Estas duas obras, a par da requalificação da estrada Maia-Lombinha da Maia, ficarão concluídas até ao final do mandato.

 

Todos os projetos a nível turístico atrasaram. Isto também atrofia os projetos do município. Como é que vão dar a volta?

A nível dos grandes projetos, a Ribeira Grande tem neste momento 20 projetos já no serviço de urbanismo, alguns deles já com parecer positivo.

Não conheço nenhum investidor que tenha desistido dos respetivos projetos. Pelo contrário, mantêm alguma expectativa até porque este quadro financeiro de apoio está a terminar, portanto 2014-2020, e daí, quase todos eles submetidos a financiamento comunitário, têm que ter os projetos aprovados até final de 2020. Todos eles, pelo menos do que tenho conhecimento aqui na Câmara, estão bem caminhadas para serem aprovados até final do ano.

Estamos a agilizar a cada vez mais esse processo de licenciamento. Recordo também que foi aprovado na Assembleia Municipal uma desmaterialização de processos físicos ao nível do licenciamento (em que a partir de janeiro queremos implementar), qualquer pessoa em casa ou qualquer investidor ou particular, pode em qualquer computador submeter um projeto de licenciamento na Câmara.

Aquilo que aprendemos com a primeira vaga da pandemia foi precisamente que as novas tecnologias devem estar ao dispor dos cidadãos e não ao contrário. Os serviços públicos reorientaram-se e neste momento estamos a fazer um forte investimento nas novas tecnologias precisamente para que as pessoas não percam o interesse e que esta celeridade possa melhorar.

Quanto aos novos projetos de turismo, realmente a Ribeira Grande estava a colocar-se numa posição dianteira ao nível da atração turística e continuamos com esta intenção. O que nós denotámos dos investidores é que realmente estão a fazer um compasso de espera no tempo, mas aquilo que também é dito pelos mesmos, é que quando houver abertura novamente à normalidade que se espera, a adesão à procura será ainda maior do que aquela que havia antes da crise. Por isso mesmo todos eles mantêm os seus projetos aqui em carteira. Aquilo que também é dito pelos especialistas é que quando esta normalidade voltar, os destinos que já tinham alguma procura, terão uma procura ainda maior. Os Açores, como sabemos, estavam a ter uma procura muito acentuada, devido também à liberalização do espaço aéreo. Acho que a aposta no turismo foi uma boa aposta a partir do momento em que se abriram as rotas aéreas, o que permitiu que os Açores fossem descobertos por outras pessoas.

Neste momento, estamos a planear vender a Ribeira Grande digitalmente nos próximos meses, para que quando isto volte à normalidade, haja esse apetite de ir ver como é que é na realidade esse local. É com essa base que estamos a trabalhar.

 

Com tanto investimento, é desta que a praia do Monte Verde vai receber a atenção especial do município?

A praia do Monte Verde sempre recebeu a atenção especial do município, mas tem um problema crónico: o desaguo de uma ribeira e de uma levada.

Nós não podemos saber o que é que há de descargas numa ribeira a montante ou a jusante. Estão identificados os pontos críticos de “contágio” das linhas de água. O que a autarquia está a fazer é criar soluções nesses pontos críticos.

Infelizmente ainda há algumas moradias com ligações diretas para as linhas de água, o que não pode acontecer em pleno século 21. Recordo que quando tomámos posse, o saneamento básico na cidade era pouco mais de 40%, e vamos terminar este mandato muito acima ou muito próximo dos 85% de taxa de saneamento básico na cidade. Eu acho que isso denota a preocupação ambiental que o município está a ter.

Quanto à praia do Monte Verde, será uma praia que queremos requalificar. Fica no centro da cidade e com estas novas infraestruturas será, sem sombra de dúvidas, uma praia de eleição na ilha de São Miguel. Queremos que assim o seja, mas vamos ter sempre um problema de desaguo de ribeira.

As análises que nós temos daquela zona apontam que do lado poente da praia não há qualquer problema na qualidade das suas águas, mas na zona do lado de desaguo da ribeira, sempre que há uma descarga anormal a montante, não conseguimos controlar o que é que vai sair na água, mas isto é um problema transversal a quem tem ribeiras e quem tem rios a atravessar as suas cidades.

 

Recentemente a Câmara Municipal fez um investimento de 400 mil euros em lâmpadas LED. Aproveitando os fundos comunitários a fundo perdido que vêm, numa proteção ao ambiente, não poderia a Câmara Municipal da Ribeira Grande reivindicar que algum desse dinheiro fosse investido aí?

A preocupação que o município está a ter ao nível do saneamento básico é precisamente para tentar resolver esses problemas críticos que a cidade tinha. Este é um problema crónico que a Ribeira Grande tem, mas até há bem pouco tempo era normal.

2021 vai trazer uma preocupação acrescida de continuarmos esse trabalho de saneamento básico. Temos também o grande projeto de levar as águas residuais da cidade até à ETAR de Rabo de Peixe, cujo projeto foi inclusivamente adjudicado e até consignado, mas a empresa que ganhou esse concurso não levou o projeto avante. Neste momento estamos a lançar o novo concurso, que são cerca de dois milhões de euros.

 

E a Câmara Municipal tem condições financeiras?

Temos sim, e é tanto que já estamos a avançar com o novo procedimento para o concurso ser lançado até ao final do ano.

 

A grande aposta do município para a formação turística é a capital do surf. De facto é uma grande aposta, mas não há dúvida nenhuma que em Portugal o que movimenta realmente o desporto é o futebol. A Ribeira Grande tem sido parente pobre ou muito humilde nesta área. Este é um ano de exceção e o concelho tem duas equipas até a este momento a lutar pelos primeiros lugares do campeonato, com destaque para o Clube Desportivo de Rabo de Peixe, invencível até ao momento da entrevista [10/12/2020]. Será que o município não prestará a atenção necessária ou não acha que o futebol pode também catapultar o município para outros patamares?

Nós encaramos a questão do futebol com bastante veemência. Temos no nosso Plano e Orçamento mais de um milhão de euros ao desporto. Acho que isso diz bem da preocupação que o município tem tido.

Temos um regulamento de apoio ao desporto que é transversal a todas as modalidades, no qual o futebol leva a maior fatia do bolo; temos também um protocolo quer com o Ideal quer com o Rabo de Peixe a nível da publicidade nas camisas, em que refere precisamente “Ribeira Grande capital do surf”, porque sabemos que de 15 em 15 dias estão no Continente português.

Neste momento o município é o maior patrocinador de ambos os clubes. Ainda no ano passado, o Sporting Clube Ideal recebeu mais de 100 mil euros de apoios da Câmara Municipal da Ribeira Grande. Não conheço nenhuma câmara nos Açores que neste momento dê tanto dinheiro, neste caso a um único clube de futebol. Com certeza que o Rabo de Peixe, neste novo patamar em que está, irá ter uma verba semelhante àquela que o Ideal teve no ano passado. Tudo isto para dizer que realmente encaramos o desporto como uma arma de promoção turística.

 

O que é que pode prometer aos ribeiragrandenses que fará por cumprir até ao final do mandato?

Nós temos um programa eleitoral que foi sufragado pela maioria dos ribeiragrandenses, o qual estamos a tentar cumprir na íntegra. Neste momento, à data que estamos a falar, mais de 85% do programa eleitoral já foi cumprido.

Costumo dizer que é minha intenção não defraudar as expectativas de quem nos elegeu e é com essa base olhamos para o programa eleitoral diariamente e sabemos o que é que já foi feito e o que é que falta fazer.

Neste momento a prioridade é acudir àqueles que mais precisam. Não foi por acaso que nós avançámos com testagens à COVID-19 aos nossos funcionários e ao comércio, ou que avançámos com o selo COVID-FREE ao comércio local para dar alguma segurança aos nossos empresários.

Julgo que esses novos desafios que estão a aparecer colocaram algumas barreiras Não quero arranjar desculpas mas o que quero dizer é que à data a que estamos a falar mais de 85% está cumprido e vamos tentar fazer de tudo para terminar o mandato com 100% concluído.

 

E no próximo mandato? Já tem ideia definida do que é que gostaria de implementar?

O próximo mandato depende de vários fatores, desde logo o fator da disponibilidade pessoal e familiar; o fator de haver apoio partidário. Neste momento represento as cores do PSD com muito orgulho, mas terá que haver um apoio partidário.  Para nós podermos concorrer a este tipo de cargo, carece sempre de alguma expectativa que é criada e de algum apoio que é necessário a nível partidário. Por outro lado, há um processo judicial que está a decorrer neste momento. Eu pessoalmente estou a aguardar serenamente pela sua conclusão, o que pode também ter impacto nessa possível recandidatura ou não.

 

Teme esse processo?

Como qualquer processo judicial, nós nunca sabemos o final até ficar concluído. Portanto, neste momento há uma série de fatores que estão dependentes e à data que estamos a falar não consigo dizer se vamos apresentar uma recandidatura ou não à Câmara da Ribeira Grande.

 

Mas qual à sua vontade?

A minha vontade é sempre fazer parte da solução e nunca do problema. Aliás, durante a minha presidência no PSD, a minha demissão teve que ver precisamente para fazer parte da solução. Se até então o facto de ter um processo judicial significava que havia outros companheiros meus com melhores condições para avançar – como se veio a verificar e ainda bem que neste momento o PSD é que está a liderar os destinos da Região.

Não tenho problema nenhum nem desapego nenhum em deixar o lugar à consideração de quem tiver melhores condições para avançar. Temos que ser cientes que nestes cargos estamos aqui provisoriamente. Estes são mandados de quatro anos. Estamos a terminar aqui um segundo ciclo e o terceiro só virá se esses fatores ficarem em cima da mesa pesados e contribuírem para efetivamente poder avançar.

Com toda a frontalidade que eu assumi uma candidatura à Câmara Municipal da Ribeira Grande, com toda frontalidade também e com o desapego que me é reconhecido, e havendo companheiros com melhores condições, não tenho problema nenhum em deixar o lugar à disposição para que outros continuem a fazer um bom trabalho. O que está aqui em causa não é o Alexandre nem a Câmara PS ou PSD. O que está em causa são os destinos da Ribeira Grande e dos ribeiragrandenses.

 

Há uma alternativa no PSD ao Alexandre Gaudêncio?

Julgo que aqui na Ribeira Grande temos uma boa Comissão Política Concelhia, com bons quadros, e julgo que o PSD na Ribeira Grande não irá ficar refém de ninguém por si. O PSD vale pelo seu conjunto e pelos seus ativos. Há pessoas com muita capacidade para continuar a lutar pela sua terra.

 

Para terminarmos a entrevista, como é que passa a consoada?

Por norma é passada na minha casa com a família mais próxima, nomeadamente os filhos, pais, sogros e irmãos. É um Natal muito familiar. Somos cerca de 15 a 20 pessoas lá em casa.

Os cozinhados são feitos pela minha mãe, pela minha tia e pela minha esposa. Há um pormenor. Quem me conhece sabe que não gosto de bacalhau, é o único prato que não consigo comer, mas por incrível que pareça, a minha tia faz um bacalhau com natas que é o único que como durante o ano. Toda a gente fica admirada como é que eu não consigo comer esse prato tão típico português, mas na noite de Natal consigo comer. Não deixa de ser uma curiosidade.

É uma noite de Natal muito tranquila, que vivemos com muito entusiasmo principalmente por causa dos mais pequenos. Como sabem tenho dois filhos, uma filha com 10 anos e um filho com quatro. Acho que é com essa magia e nostalgia de Natal que vamos passando aos mais pequenos e acabamos por matar saudades do Natal que vivíamos nós com aquela idade.

Não é mais do que viver em família e passar aquele serão que acaba por ser muito querido por todos nós.

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