Alguns de nós ainda recordamos, com saudade, a série televisiva humorística da NBC, criada em 1982 e extinta em Maio de 1993, que tinha como cenário a vivência cotidiana de um bar de Boston,  no qual se encontravam diariamente as mesmas pessoas. Sim, estamos a falar da “Cheers – Aquele Bar”, que a RTP chegou a transmitir. O Bar, que tem mesmo o nome de “Cheers”, onde se fez as gravações, está lá, na capital do estado de Massachusetts, e actualmente faz parte do roteiro turístico da cidade, graças à fama que lhe deram as onze temporadas na televisão. Vem isto ao propósito de dizer que quem se recorda desta série melhor visuará um estabelecimento do mesmo género, que existiu até há bem pouco tempo na cidade de Fall River.

No coração da Bedford Street, entre as linhas das ruas 14 e 16 existiram, entre muitos outros, três negócios vizinhos que fazemos questão de mencionar: a nascente, a padaria portuguesa Barcelos; a poente, a loja e fábrica de chouriços Luíz; e praticamente no meio destes dois, mesmo na esquina das ruas 15 e Bedford, estava o Billy’s Café. A padaria, em meados do século vinte tinha o nome de Moonlight Bakery e por volta de 1980, pouco mais ou menos, é que mudou para Barcelos, mantendo-se o nome nos nossos dias, mesmo transformada em “coffee- shop”. Quanto ao Luíz Chouriço, manteve-se o nome até ao seu encerramento, por volta do ano 2000, sendo seu último proprietário Zulmiro Luíz, luso-americano, filho do fundador. Agora vamos falar do Billy’s Café, que é o pilar desta crónica, e que abriu ao público em 1934.

Do seu historial, praticamente desconhecido, não consta haver um proprietário de nome Bill ou Billy, nem William. Mas a resposta à questão do nome do estabelecimento aparece-nos na edição de 22 de Maio de 2005 do jornal Standard-Times (de New Bedford), num artigo da autoria de Robert Higgins. Em conversa com a dona do negócio naquela altura, o jornalista obteve a explicação de que na década de trinta os bares faziam a sua própria cerveja e ali, naquele, na esquina das ruas 15 e Bedford, quando a cerveja estava pronta colocavam na janela uma fotografia de um bode, o que aqui é vulgarmente chamado de “billy goat”. Por isso se entende que o “billy goat” (bode) andava sempre à janela e o lugar passou a ser conhecido por bar do “billy”, origem do nome oficial que em 1944 aparece pela primeira vez na diretoria da cidade: Billy’s Café.

Como qualquer bar, cervejaria ou taberna, para o negócio render é necessário apresentar ao público o mínimo de condições para ali segurar a freguesia e dela extrair o maior volume de sumo possível. Petiscos atraem bebida e sandes servem de refeição, para se poder beber mais. Tudo dito, e não houve muito que pensar. O edifício estava ladeado por uma padaria e por uma charcuteria e americanos adoram comida portuguesa. Caçoila e chouriço nunca faltou no estabelecimento, e às sextas feiras havia peixe frito. Dos vários donos que teve, ainda há quem se recorde de um tal Tommy, que no início da década de setenta vendeu o bar a Richard Correllas Jr. Este, por sua vez, por motivos de saúde e pelo avanço da sua idade desfez-se dele no ano 2000, vendendo-o a Rachel Valente, que uns anos mais tarde aparece com o sobrenome de Gagne, e que conseguiu segurar o negócio por doze anos. Billy’s Café encerrou definitivamente em 31 de dezembro de 2012.

Nunca tivemos o costume de frequentar bares aqui, na América. Mas quis o destino meter-nos a trabalhar entre a Padaria Barcelos e o Billy’s Café, por cerca de uma década, nos anos noventa. Cumprimos a nossa missão, e ao redor do quarteirão ganhámos amizade, respeito e confiança. Chegámos mesmo a conhecer os fregueses do Billy’s, que só por si fariam uma nova “Cheers” – a “Cheers de Fall River”, como eles próprios classificavam o estabelecimento, além de ser conhecido por “Yankee – Red Sox Bar”. Tal como todos os “Sport-Bars”, tinha o seu “Hall of Fame” e todas as paredes eram decoradas com quadros de momentos de glória e personalidades que por ali passaram, com um destaque especial para o grande chefe de culinária Emeril Lagasse, criado nas imediações.

Da freguesia fiel que o frequentava diariamente, pouco mais de meia-dúzia, que daria um bom elenco para “Cheers de Fall River”, sobresaíam estas personagens: agente policial, bombeiro, vereador, trabalhador de construção, operário fabril, advogado, entre outros. Ali ninguém era melhor do que ninguém e, para justificar a canção de abertura do show, todos sabiam os nomes uns-dos-outros. Até nós mesmos, não por pertencer ao grupo, mas sim por prestação de serviços, ainda recordamos alguns: Jimmy Pacheco, Walter Gonçalo, Richard Correllas, entre outros.

Tínhamos um respeito enorme pelo sr. Richard Correllas, o proprietário. Luso-americano por parte da mãe, falecido  a 11 de setembro de 2018, com 81 anos. Nos mesmos moldes, a presença assídua de Walter Gonçalo, outro luso-americano, amigo de toda a gente, com aquele sorriso no rosto que a todos impunha respeito. Também já partiu para a eternidade, em 16 de Abril de 2016, com 73 anos. Ele era a pessoa que mais recordava com nostalgia as etapas da vida, com a tal saudade que só português sente.

No artigo supra-citado do jornal Standard Times está registado que aos vinte e seis anos de idade Walter Gonçalo começou ali a trabalhar como cozinheiro, tarefa que desempenhou durante quatro ou cinco anos. Pelas nossas contas decorria o ano de 1969, e a sandes popular que levou o nome do Billy’s Café a todos os quadrantes da cidade já havia sido inventada. Pelo que um dia nos contou Mr. Richard Corellas, nos anos cinquenta um tal “Portuguese Manny”, que trabalhava na cozinha, num certo dia recheou um pão comprido com rodelas de chouriço frito e palitos de batata. Apresentou-o numa mesa onde dois amigos bebiam cerveja. Estavam com fome, deliciaram-se, e no dia seguinte pediram o mesmo, fazendo com que mais gente experimentasse. Assim nasceu a famosa “Chouriço & Chips Sandwich” do Billy’s Café.

Na altura em que Walter começou com as lides da cozinha, ia ao Luíz buscar chouriço e também à padaria comprar o pão comprido, onde muitas vezes se cruzou com  Emeril Lagasse, que ali trabalhava. Aquele rapazinho, que veio a ser a celebridade luso-americana que todos nós conhecemos, muitas vezes ia também ao Billy’s comprar a “Chouriço & Chips Sandwich”. Aliás, nos seus programas de televisão já mencionou mil e uma vezes o Billy’s Café da Bedford Street, da sua mocidade, e da sua rica cidade de Fall River.

Walter lembrava-se do tempo em que a sandes custava 25 centavos, e depois passou para trinta e cinco, e a meados dos anos cinquenta já valia meio-dólar. Em 2005 de quatro dólares crescia quinze cêntimos.

No lado da Rua 15 havia a “porta das senhoras”, que dava acesso directo a um quarto de refeições com quatro mesas, e dali também se ia ao balcão da cozinha, onde se comprava as sandes para se comer noutros lugares. Para além da “Chouriço & Chips” a outra sandes que dava que falar era a “Caçoila”. A sandes de chouriço & chips do Billy’s foi tão longe, que se perdeu no horizonte. Por volta de 2006 tivemos o prazer de conhecer um vendedor de ferramentas na cidade de Taunton, que reconhecendo o meu sotaque quis confirmar a minha nacionalidade de origem. Foi confirmado e adiantado que era da cidade dos teares.  Quis contar-me, então, que a esposa nascera em Fall River e era cem por cento portuguesa, e que quando estava grávida, para a filha mais velha, teve o desejo de comer uma sandes de Fall River. Que era muito longe, e que já era tarde não chegou para convencer a criatura. Lá teve de ir o pobre-homem a Fall River para a mulher não ficar desconsolada e para o bebé não correr riscos.

Mas esta “estória”, só por si não justifica o valor da sandes do Billy’s Café, que era tão simples e ao mesmo tempo tão gostosa. Temos a certeza que ela foi mais longe, sem contar com a propaganda que dela fez Emeril Lagasse para o mundo inteiro. Se nos derradeiros anos do século vinte, a cerca de duzentas milhas da nossa casa encontrámos numa ementa de restaurante cem por cento americano a “Pizza de Fall River”, foi porque o Chouriço conseguiu lá chegar. De facto, o seu ingrediente principal, ou topping, neste caso, era o chouriço. Só nos resta acrescentar que nos anos oitenta Fall River era a única cidade da América do Norte que tinha a Pizza de chouriço, confecionada exclusivamente pela empresa “Domino’s”.

Fall River é uma cidade boa para se viver. No entanto, há gente que a nega, dizendo que é uma cidade rafeira, sem nível, e feita para gente de baixa classe. Mas muita desta gentinha aqui vem trabalhar, e usa a cidade como seu ganha-pão. Outra que cá não mora nem trabalha quando quer bacalhau ou queijo de São Jorge, a Fall River vem buscar. Quando quer vinhos e licores portugueses, aqui se desloca, e antes do chouriço faltar, a Fall River vai comprar. Por isso e muito mais: Viva Fall River!!! Com esta nos despedimos. Haja saúde.

 

 

 

 

 

Fall River tem bom chouriço,

Inteiro ou às rodelas,

Muita gente de serviço

E também boas morcelas.

 

Tem lindas massas sovadas,

Pão fresco todos os dias,

E as famosas malassadas

Nas lojas e padarias.

 

Tem bons vinhos e licores,

Tem artes e maravilhas.

Tem produtos dos Açores

E também de outras ilhas.

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