Há uns dias atrás fomos surpreendidos com a morte de um conhecido actor, facto que constituiu notícia amplamente divulgada pela comunicação social que inicialmente não referiu causas, mas deu azo a muitas conjecturas até porque o referido actor era relativamente novo, tinha família constituída, esposa e cinco filhos, num ambiente de calor humano notável.

O corpo de Pedro Lima estava no mar, junto a uma falésia, foi localizado e recuperado por uma embarcação da Estação Salva-vidas de Cascais, terá enviado mensagens de despedida e deixado uma carta.

Além de actor e de modelo, foi também atleta olímpico na modalidade de natação por Angola, tendo representado o País em 1988 e 1992, participou em filmes, peças de teatro, telenovelas e era surfista.

Tudo aponta para a prática de suicídio a que não será alheia a sua condição financeira influenciada negativamente pelo actual surto pandémico, potenciador também de graves situações de ansiedade e depressão que aparentemente não conseguiu ultrapassar.

«A saúde mental continua a ser o parente pobre no Serviço Nacional de Saúde», denunciou Daniel Sampaio em entrevista, pois não é visível nem palpável e por essa razão é menosprezada, por outro lado acreditamos que ao possuirmos tudo de bom na vida jamais teremos um problema de saúde mental.

Enquanto continuarmos a desvalorizar a depressão e a doença mental, enquanto continuarmos a pensar que quem nos entra pela casa dentro via TV com um sorriso nos lábios, tem uma vida fácil e nada lhe falta e não pode ser simultaneamente perseguido pelos piores pensamentos, não vamos ser capazes nem de nos compreendermos, nem compreendermos os outros, ou seja, são muitos os preconceitos em torno da saúde mental e estamos convencidos que tudo se resolve com força de vontade e sem ajuda.

Procurar ou pedir ajuda é algo a que não estamos habituados, nascidos e criados numa sociedade que nos formata para o sucesso, para sermos os melhores em tudo a qualquer preço, que os nossos filhos sejam os mais bonitos, os mais inteligentes, os mais fortes, os mais bem-sucedidos, que vão para a melhor escola com os melhores professores, tenham o melhor emprego, a melhor casa, o melhor carro, a melhor família, num ciclo sem fim de sucesso, pois consideramos assim atingir o paradigma da felicidade.

Mas nem tudo é como queremos ou como pretendem que queiramos e por exemplo agora terminaram as aulas de um ano lectivo atípico, muitas crianças e jovens teriam motivos para festejar, para assinalar o fechar de um ciclo, no entanto faltou-lhes a despedida dos professores e dos amigos, o dizer até ao ano, para bem da sua saúde mental.

Os dados epidemiológicos portugueses relativos à Saúde Mental evidenciam que há muito a fazer nesta área em Portugal, nomeadamente a necessária dotação financeira para a saúde mental muito acima da que é praticada e são necessários mais recursos humanos, é crucial melhorar a prevenção das doenças, a educação para a saúde mental, a prevenção do alcoolismo e dos comportamentos aditivos e dependências, a reinserção social e profissional e a luta contra o estigma, é preciso melhorar o acesso dos doentes aos cuidados de saúde, aos cuidados continuados e aos programas de reinserção, bem como alargar as respostas no domínio dos cuidados na comunidade e acesso à terapêutica e aos tratamentos mais adequados, em suma é necessário apostar fortemente na prevenção, diagnóstico, terapêutica e reabilitação dos doentes com patologias mentais.

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