Há peripécias do quotidiano existencial que o ser humano dificilmente esquecerá; ou melhor, só esquecerá em definitivo quando deixar de respirar. Por isso, se hoje me perguntassem onde é que eu estava há 58 anos, neste mesmo dia, ignoro totalmente qual seria a minha resposta! No entanto, depois de um raciocínio pausado, talvez pudesse responder assim de uma forma histórica: – Muito provavelmente, a bordo do paquete Niassa, em pleno Atlântico Sul, quase a dobrar o Cabo da Boa Esperança, integrado no contingente militar corporizado pelo Batalhão 1.906, sob o comando do saudoso Coronel Guardado Moreira, um “beirão” respeitável que já nos deixou. Com mais precisão, estava integrado na CC 1.654, uma das quatro companhias que constituíam a Unidade comandada pelo já saudoso e ilustre Oficial de Alta Patente, originário da Zebreira, no concelho de Idanha-a-Nova, e que englobava também a CCS, a CC 1.653 e a CC 1.655. O nosso destino era um destino que num tempo que se vai perdendo de vista e nos vai reduzindo à ínfima espécie, envolvia inúmeros mancebos lusos, que se revezavam em direção às principais possessões africanas então sob administração portuguesa, nomeadamente, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, S. Tomé e Principe e Timor, hoje países soberanos, mas ao tempo ainda parcelas territoriais das diversas que Portugal administrou ao longo de quatro séculos e onde deixou como herança “mais rica” a “língua de Camões”. Nesses já distantes Primavera/Verão de 1967 que aqui venho recordar, creio que estaríamos a navegar, muito provavelmente, ao largo da costa namibiana a contemplar a infinita e riquíssima fauna marinha que enobrece as águas da costa ocidental de África, ali sob a influência da corrente fria de Benguela, em cujo cenário sentíamos algo que nos era familiar. Era o pensamento a recordar os nossos heróis quinhentistas que naquelas paragens fizeram história – Gil Eanes, Bartolomeu Dias, Gaspar Côrte-Real, os Gamas e os Cabrais entre tantos outros nos “quatro” cantos do globo – que vezes sem conta, as sulcaram em busca dos novos mundos que Portugal viria a outorgar à Humanidade.
Segundo a minha já ténue percepção, teríamos zarpado havia pouco mais de uma semana da capital de Angola, em direcção a sul e a nossa mente já se tinha desligado por completo de tudo o que havíamos sentido e observado nas escassas horas em que pisamos o solo da cidade capital angolana e das imediações do seu excelente porto de mar. Por isso, o nosso olhar e os nossos pensamentos centravam-se então, não no que tínhamos deixado para trás, mas na incógnita do desconhecido que teríamos pela frente depois da superação do Cabo, hoje não das Tormentas como nos primórdios, mas da “Boa Esperança”, esse estado de alma que acabava de emergir com a conquista da nova rota marítima que se abria ao mundo civilizado. Nessa altura, já estaríamos sensivelmente a efectuar a dobragem do promontório do Cabo, no extremo sul do continente, mais propriamente, em águas territoriais do país mais poderoso do Continente Africano, humana, industrial e cientificamente, que foi “berço” de um dos homens mais notáveis dos finais do século XX – Nelson Mandela. Prémio Nobel da Paz em 1993, aquele antigo Presidente da actual República da África do Sul, deu ao mundo um exemplo notável (talvez único!) de tolerância e humanismo, apesar de ter sido injustiçado, encarcerado e ter sofrido na pele a sua condição de homem íntegro, para quem a estatura humana jamais poderia ser aferida pela cor da pele e/ou pela etnia.
Fiquei com a sensação de que tudo o que acabava de escrever ou imaginar, tinha sido fruto de um sonho prolongado. Até porque, a dada altura, quando a proa do Niassa estava quase a apontar na direcção do canal de Moçambique, senti-me invadido por uma onda de emoções que me atormentavam os sentidos, com palavras tão acertivas quanto difíceis de “engolir”, mas que, no fundo, não eram senão, motivo do portuguesismo orgulho “nacional” desta “velha” comunidade, numa referência inequívoca às múltiplas embarcações lusas que “por mares nunca dantes navegados”, desafiaram aquele promontório e os inimigos imaginários da sua tarefa universal, em nome desta Nação quase milenar que se chama Portugal e que é emocionalmente bastante maior do que as muitas milhas marítimas das suas costas, ocidental e meridional, cujos feitos das suas gentes têm sido vivamente cantados por poetas e prosadores, mediante o tal “supremo” orgulho de termos nascido portugueses !
Para melhor ilustrar aquilo que acabo de afirmar, nada melhor do que expor uma pequena amostra de um texto musical bem significativo da nossa lusitanidade.
“Eles Foram Tão Longe!”
“Eles foram tão longe, eles foram tão longe e puderam decerto chegar mais além; e foram tão longe, eles foram tão longe e ficamos tão perto de sermos alguém” !!!
Eis o refrão da canção composta pelo malogrado Carlos Paião (1982), interpretada pela cançonetista portuguesa de origem nortenha, Lenita Gentil.
OBS: Texto escrito de acordo com a ortografia antiga.


