CARTA ABERTA AO FUTURO PRESIDENTE DA CÂMARA DE GAIA (1)

O teatro não só teve um papel importante na construção da democracia em Portugal, como foi também determinante na luta pela sua implementação, através de um combate sem tréguas contra a política opressora do Estado Novo. Basta apelar à nossa memória e fazer uma brevíssima resenha histórica, desde os tempos terríveis de Salazar, passando pela chamada primavera Marcelista, até à nossa atualidade, para validar esta minha afirmação.

Nos tempos de Salazar alguns dos grandes autores universais não escapavam ao crivo da censura, o que impediu que muitos deles, como Brecht, Sartre, Strindberg, Tchekhov ou Arthur Miller fossem levados a cena nos palcos profissionais. Por essa razão, os palcos amadores, por serem menos visados pela censura, foram acolhendo grande parte dos textos desses autores, nomeadamente os que aprofundam os reais problemas filosófico-culturais, políticos, económicos, sociais e éticos. Mas aos poucos essa feroz repressão censora foi caindo também sobre os palcos amadores, levando à prisão muitos dos seus principais dinamizadores, o que gerou o decréscimo e até a paralisia da atividade de parte dos grupos.

Houve, porém, alguns grupos que nunca abrandaram, mantendo aliás um ritmo acentuado de trabalho. E a todos esses grupos estiveram quase sempre associados alguns dos nossos mais consagrados atores e encenadores. Esses criadores encontravam nos grupos amadores formas subversivas de contestar o poder político de então, encenando espetáculos e participando em sessões de debate sobre os seus autores e respetivas temáticas após as representações. E houve outros que, durante o governo de Salazar, se atreveram a escrever eles próprios os textos desses espetáculos, utilizando metáforas, alegorias e simbolismos para criticar o regime e transmitir mensagens de resistência. Para já não falar de muitos artistas e criadores que arriscaram a prisão e a sua atividade profissional, participando em ações políticas de combate ao regime, alguns deles perseguidos a todo o momento pela PIDE.

Até mesmo o teatro de revista, por ser um dos géneros mais abrangentes, foi durante esse período utilizado para a representação de textos subversivos, cómicos e satíricos, que faziam críticas veladas às políticas do Estado Novo. Nessa altura, o teatro universitário ganhava cada vez maior expressão, graças a homens como Deniz Jacinto ou Paulo Quintela, que prosseguiram uma relevante intervenção cívica e política em defesa da democracia.

Entretanto, nascem o Teatro Experimental do Porto e o Teatro Experimental de Cascais, surgindo pouco depois o Teatro Moderno de Lisboa, que confrontam a censura com espetáculos de autores malditos, apesar das mais diversas ameaças, até físicas. É recuperada a Casa da Comédia e surgem o Teatro Estúdio de Lisboa, o Grupo 4, a Comuna, a Seiva Trupe e a Cornucópia, com um repertório assente na modernidade das novas dramaturgias, passando depois pelo teatro do absurdo, político e épico. E acontece a madrugada libertadora de 25 de abril de 1974, com largas centenas de populares a saírem à rua, exigindo que dali não resultasse apenas um mero golpe militar de raízes corporativas, mas uma verdadeira revolução política, social e cultural. E entre a multidão que saiu à rua naquela manhã luminosa, estavam muitos dos homens e mulheres de teatro que usavam os palcos como arma de combate ao fascismo, pela implementação de um regime democrático no nosso país.

Com a Revolução de Abril, Portugal passou da ditadura para a democracia, abrindo o caminho para uma nova relação entre a política e o teatro, num espaço de liberdade onde os artistas puderam expressar-se sem medo de represálias. Surgiram então novos grupos que tinham como missão principal refletir sobre a nova realidade política, assumindo um papel de crítica social, questionando as desigualdades, a corrupção e outros problemas que persistiam na sociedade. Outro dos movimentos importantes foi o teatro de intervenção, que defende um teatro politicamente engajado e consciente do seu papel na transformação social, abordando temas como a guerra colonial, a repressão social e a luta pelos direitos humanos.

O teatro afirmou-se nessa altura como uma forma de resistência e denúncia das injustiças sociais. E nos anos 80 e 90, esses coletivos tiveram como objetivo questionar o poder político e sensibilizar a sociedade para as temáticas mais urgentes do país. No início do século XXI, o teatro assumiu um papel na promoção da memória histórica, produzindo peças com o intuito de dar a conhecer os períodos da ditadura e da revolução, de forma a não se esquecer o passado e a evitar o seu regresso. E no contexto atual, o teatro continua a ser uma forma de intervenção política, sendo as questões da igualdade de género, do racismo, da precariedade laboral e das desigualdades sociais frequentemente abordadas entre nós.

Em resumo: do controlo e censura da ditadura à liberdade de expressão e ação, o teatro tem desempenhado um papel essencial na construção da democracia, do pensamento crítico e da consciencialização política da sociedade. Ou seja: o teatro continua a ser uma forma de arte que desafia e questiona o poder estabelecido e as normas sociais, que nos faz refletir sobre a realidade política, social e cultural, promovendo a mudança e a transformação. O teatro tem sido, é, e continuará a ser, uma forma de intervir na transformação do mundo. É portador de valores humanos, mas igualmente de valores sociais de transformação e progresso, que elevam a consciência e a emancipação dos povos.

(continua)