O inspetor Pedro Malcato e a subinspetora Rosa Martins pareciam não ter dúvidas de que estavam perante um crime de homicídio. De facto, é pouco crível que alguém que se queira suicidar o faça cravando um punhal no seu próprio peito. Decerto encontraria outra forma menos dolorosa de pôr termo à vida se fosse essa a sua vontade.

Por outro lado, se fosse sua intenção matar-se, por que raio havia de convidar para um almoço dois velhos amigos com quem queria fazer a reconciliação por um acontecimento mal resolvido do seu passado. E havendo crime tem de existir criminoso! Mas quem o terá cometido? – era a pergunta que se impunha. Embora embrenhados nestes pensamentos, a dupla de inspetores da Polícia Judiciária não descurava nenhum pormenor existente no local do crime e na zona envolvente. Isto porque é no mais pequeno pormenor que pode estar a resposta a todas as interrogações, assim como nas… inquirições a fazer a todos os presentes.

 

CONCURSO “UM CASO POLICIAL EM GAIA”       

Conto nº. 6

“Reconciliação Fatal”, de Rigor Mortis

II – Parte (conclusão)

– A que horas chegaram aqui?

– Por volta da uma da tarde – disse João Seixas. – Vim de comboio, de Lisboa. Entrei em Santa Apolónia, às nove e meia, e saí na estação das Devesas pouco depois do meio dia e meia. Já tinha visto que, a pé, levaria uns vinte minutos até à casa do Luís, por isso resolvi caminhar, aproveitando o dia bonito. Já na rua Machado dos Santos vi o Américo, e viemos juntos até aqui.

– Pois, eu também vim de Lisboa, de comboio. Por acaso no mesmo comboio que o João, mas que apanhei na estação do Oriente. E fiquei uns minutos nas Devesas, a tomar um café, antes de me pôr a caminho da casa do Luís. Por isso não nos vimos, nem no comboio, nem na estação. Quando cá chegámos a casa a empregada fez-nos entrar e levou-nos ao escritório, onde, dizia ela, o Luís nos esperava. Nem ela nem nós imaginávamos em que estado estava ele à nossa espera… Quando ela abriu a porta do escritório, deparámos com o espetáculo que os senhores já devem ter visto também…

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Malcato olhou para a sua colaboradora. Na troca de olhares, fruto de anos de convivência a trabalhar juntos, partilharam a sua perplexidade.

O instinto dizia-lhes que um daqueles homens teria assassinado o Luís Barbosa, culminando décadas de ódio… Chegando a casa do Barbosa pelas dez horas, teria sido este a abrir-lhe a porta, na ausência da empregada. Após uns minutos de conversa, no escritório, ter-lhe-ia sido fácil cravar a faca no peito do homem que odiava há tanto tempo, frágil como ele estava da doença que o dominava.

Depois teria saído, o mais discretamente possível, aguardando pela hora do almoço para regressar e fazer-se surpreendido com a morte do Luís Barbosa…

Mas os dois homens diziam ter vindo nessa manhã de Lisboa, de comboio, chegando às Devesas por volta do meio dia e meia hora… A ser verdade, não poderiam ter morto o Luís – entre as dez e as onze horas, como lhes tinha asseverado o médico-legista…

**************

Rosa Martins pôs a mão no braço do inspetor e sussurrou:

– Pedro, repara na foto do jornal, o do Seixas e o do Sepúlveda… Já viste?…

Malcato olhou com atenção redobrada para os dois jornais, ambos em cima da mesa.

No que estava à frente do Seixas, com a primeira página totalmente à vista, uma autoestrada com três faixas, árvores de ambos os lados, de cima a baixo da foto, uma série de carros parados na faixa da direita, isolada das outras duas por uma fila infindável de pinos separadores branco e laranja, polícias andando nas outras faixas, olhando para os carros parados. Conhecia muito melhor o Porto, e Gaia, que Lisboa, mas iria apostar que a autoestrada era a que ligava Lisboa à Ponte 25 de Abril…  No que o Sepúlveda tinha tirado do bolso, também em cima da mesa mas ainda dobrado ao meio, um drone vogando em pleno céu azul, sem nuvens.

Pegando neste, desdobrou-o e voltou a pô-lo em cima da mesa, agora com a primeira página completamente exposta.

Era o jornal daquele domingo. O drone vogava sobre dois homens, que faziam jogging na marginal do Porto…

Dando a volta à mesa e notando que o jornal do Seixas também era daquele dia, perguntou, em tom perfeitamente casual:

– Onde comprou o seu jornal, senhor Seixas?

– Hum?! Num quiosque ao pé de minha casa, quando saí para ir para Santa Apolónia. Sempre me deu para me entreter um bocadinho durante a viagem.

– E você, senhor Sepúlveda?

– Numa lojeca no túnel que vai do Centro Vasco da Gama para a estação Oriente, porquê?

– Porque o senhor está evidentemente a mentir… E por isso vai acompanhar-nos até à esquadra, onde teremos muitas mais perguntas para lhe fazer… É que, note, o seu jornal é a edição do Porto do Público, portanto só o poderá ter comprado no Porto, ou em Gaia, não em Lisboa como diz. O que significa que você estava por estas bandas esta manhã, não em Lisboa, e poderá perfeitamente ter aqui vindo e morto o seu amigo, ou inimigo se preferir, pelas dez e qualquer coisa…

 

CONVITE AO LEITOR

E pronto, caro leitor. Agora o passo seguinte é seu. Para tal, repetimos o nosso convite à sua participação na escolha dos melhores contos. O processo é simples. A partir de hoje, tem trinta (30) dias para fazer a avaliação, em função da sua qualidade e originalidade, do primeiro conto do nosso concurso, da autoria de Rigor Mortis, e enviar a respetiva pontuação, numa escala de 5 a 10 pontos, para o e-mail do orientador da secção (salvadorpereirasantos@hotmail.com).

 

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