No passado dia 31 de janeiro, a Confraria da Pedra associou-se à Confraria Gastronómica de Almeirim para um evento solidário, na Escola sede do Agrupamento de Escolas da Madalena, que culminou na entrega de 300 litros de sopa aos maiores de 65 anos que vivem em isolamento.
Para José Carlos Leitão, Chanceler da Confraria da Pedra, esta foi “uma iniciativa muito interessante” que já se realiza pela segunda vez. “A Confraria Gastronómica de Almeirim faz a sopa solidária em sete cidades: Portimão, Amadora, Almeirim, Coimbra, Estarreja, Évora e Vila Nova de Gaia, sendo que a 1ª edição foi feita nos Bombeiros de Valadares, no dia 7 de dezembro de 2024. São 7 cidades, 7 confrarias e o objetivo de cada um de nós depois é, internamente, associarem outras instituições para partilhar sopa. Nós fizemos uma parceria com a Gaiurb no sentido de a Gaiurb depois com os colegas técnicos, tudo em voluntariado, distribuir aos maiores de 65 anos que vivem em isolamento. Aqui não há pobres nem ricos, é quem está isolado e ter um colinho de uma sopa da pedra distribuída pelos colegas da Gaiurb”, explicou o Chanceler.
A iniciativa contou também com a parceria e apoio do Grupo Folclórico da Madalena, do Agrupamento de Escolas que cedeu as instalações, da Junta de Freguesia da Madalena que arranjou a carrinha para distribuir as sopas na zona do Monte Grande e alguns amigos da Confraria da Pateira que ajudaram a preparar a sopa.
“Fizemos um kit que era composto pela saca do município e lá dentro tinha um sumo, meio litro de água, um pão, a sopa da pedra e uma peça de fruta. Foi um dia muito cansativo, mas que resultou na distribuição, sensivelmente, de 500 sopas que é a população que temos no município com mais de 65 anos a viver em isolamento”, esclareceu José Carlos Leitão, acrescentando ainda que a iniciativa era para ter sido realizada em dezembro de 2025, mas foi adiada por causa da tomada de posse dos autarcas.
Após este evento solidário, a Confraria da Pedra prepara agora o seu 25º aniversário, que vai ser celebrado a 12 de julho e que irá culminar num almoço na Quinta da Torre Bella, como homenagem ao confrade que faleceu, Jaime Poças.
“Isto também serve de homenagem ao Jaime Poças porque foi uma facada muito grande que tivemos em agosto de 2025 quando o nosso querido Jaime nos deixou. Nunca nos deixará porque aquela família estará sempre connosco, e nós nesse dia teremos a possibilidade, mais uma, de homenagear o Jaime e outros pedreiros que nos deixaram, como o senhor Reis, o Zé Tojal, o Jorge Moreira, enfim, pessoas que nos deram muito e que nunca nos vamos esquecer deles e como o Rui Nabeiro e estarão sempre connosco. Estamos a tentar encontrar apoios para que se consiga também fazer um pequeno livro com algumas histórias para que os vindouros possam perceber que havia pedra azul na Madalena e não podemos esquecer que já não há pedreiros, mas ainda há muita família oriunda dessa gente e sobretudo há as memórias da pedra azul da Madalena. E o nosso objetivo é esse, perpetuar a memória de quem trabalhou com muita dureza e muita nobreza na pedra”.
O 25º aniversário irá contar, como sempre, com várias confrarias e será ainda realizada no mesmo dia a 2ª Gala do Pedreiro. Segue-se depois o 13º Capítulo, a 24 de outubro, nos Bombeiros Voluntários de Valadares, que encerrará as comemorações dos 25 anos.
O motivo da escolha do local prende-se com a necessidade de um espaço grande que receba todos os confrades, como explicou o Chanceler. “Infelizmente, a Casa do Loureiro deixou de ser o nosso local porque a família Poças, com a Torre Bella, e com o Vinha Hotel teve de arranjar uma arrecadação e perdemos aquela situação que era fantástica. Chegamos a fazer no Orfeão da Madalena, que é nosso confrade de honra, só que eles têm muitas atividades e não é fácil encontrar uma alternativa para ter aquilo livre dois ou três dias antes. Porque precisamos de fazer lá a iniciativa, mas deslocar centenas de pessoas para um sítio para comer. Assim, fazemos tudo nos Bombeiros Voluntários de Valadares onde fazemos a iniciativa e depois fazemos o almoço”.
Todos podem participar neste evento desde que atempadamente comuniquem para a chancelaria, através do email [email protected].
Além destes eventos, a Confraria continua a promover, mensalmente, por norma na última terça feira de cada mês, um jantar tertúlia onde são convidadas individualidades que ou fizeram algo importante ou têm algo para contar. “E depois acabamos por os entronizar como confrades de honra e nesses jantares tertúlias vamos ajudando porque temos connosco o Frei Fernando Ventura, que é uma figura de referência e ele tem muitos ensinamentos, e nós aprendemos com ele, quando ele diz que ‘podemos não acabar com a fome no mundo, mas podemos tirar alguém do mundo da fome’, é um bocadinho isso que fazemos. Enveredamos pelo caminho da solidariedade. Podemos comer, podemos beber e nos divertir, mas sempre com um objetivo presente: a solidariedade. E a solidariedade faz-se, não se apregoa. E temos essa cultura muito dentro de nós”, afirma José Carlos Leitão.
As dificuldades de manter o associativismo
A Confraria da Pedra faz ainda parte do Conselho Europeu de Confrarias (CEUCO) e marcará presença no Congresso Internacional, a realizar em Lisboa, no mês de novembro, sendo também membro efetivo na Federação Portuguesa das Confrarias Gastronómicas. Segundo José Carlos Leitão, a intenção agora é pedir adesão à Federação das Coletividades de Gaia também, mas admite que tudo isto acarreta custos.
“Estas coisas custam dinheiro e todo o dinheiro que conseguimos arranjar é para outras coisas e não para andar a pagar quotas e é o que nos leva a fugir disto às vezes. Até porque, além de confrades, também somos banqueiros porque fazemos parte do Banco de Leite. E somos um pequeno grão de areia nessa obra fantástica, temos uma sala da confraria na ilha do Príncipe, na Lar São Francisco. Não podemos chegar a todos, somos apenas um grupo de 50/60 pessoas que se juntam e no nosso grupo de amigos a solidariedade faz-se, não se apregoa. Vamos distribuindo, é o nos move”.
Também Joaquim Melo Nogueira confidencia que a Confraria “está com todas as instituições, especialmente as confrarias, associações e misericórdias e grupos folclóricos”. “Tentamos estar em todas. Embora a confraria seja grande, só meia dúzia é que se deslocam e isso restringe. O orçamento é de zero, são migalhas que nos sobram de iniciativas que pagam as contas. Acabamos por ser filantropos”, admite.
“O nosso orçamento é pagar a assinatura dos dois jornais de Gaia, pagar a conta do CEUCO, da Federação e agora a quota da Federação das Coletividades de Gaia e no início do ano temos de arranjar dinheiro entre nós. Estamos disponíveis para o que for preciso dentro das nossas possibilidades que são curtas”, acrescenta José Carlos Leitão.
Com bastantes casais, jovens e crianças, a Confraria tenta manter vivas as tradições e passar, de geração em geração, os conhecimentos e preservar, sempre, a memória.
“Tinha 40 anos quando fundei a confraria e agora vou fazer 65 e sou dos mais novos. 90 é o confrade ancião, o meu pai, temos dos 3 aos 90. O associativismo é isto, temos muitos casais, muitas senhoras, jovens, temos o confrade normal como eu e alguns, o efetivo, temos o de honra, o pedreiro de ouro, o pedreiro diamante e o confrade que não tem traje. E temos o confrade jovem, dos 10 aos 18 e o confrarim, para os netos dos 3 aos 10 anos. Eu tenho a minha neta, o Alberto Soares, tesoureiro, também tem o neto, temos alguns ainda. Tentamos meter gente nova, mas não é fácil ir aos jantares que se prolongam até à meia noite, mas temos interação com o Grupo Folclórico e Bombeiros porque somos basicamente os mesmos”.
Embora José Carlos Leitão afirme que a Confraria mantém “uma relação ótima ao nível das instituições” o mesmo não afirma da autarquia municipal. “Ao nível de Vila Nova de Gaia, acho que nunca ninguém agarrou verdadeiramente isso porque quando se fez o Dia do Turismo em Gaia, por orientação do então vereador do turismo, a Confraria da Pedra não foi convidada. Mas temos de saber ultrapassar isso, as coisas são como são, sempre tivemos com o poder uma relação normal, institucional, para nós é sempre importante ter connosco alguém da autarquia porque sentimos que é importante. O presidente anterior nunca esteve num jantar tertúlia, apenas quando foi convidado, mas o vice-presidente estava e está enquanto confrade de honra e todos os vereadores passaram pela Confraria nos últimos 12 anos. Contudo, o apoio do município foi há 18/20 anos e foi um apoio específico para uma iniciativa e nunca mais tivemos apoios de ninguém”, confidenciam.


