CONTINUAÇÃO DO PROBLEMA 6 DO TORNEIO “SOLUÇÃO À VISTA!”

Concluímos hoje a publicação do enunciado do problema nº 6 do torneio “Solução à Vista!”, que relata mais uma investigação do Inspetor Tiago Rodrigues e da sua inseparável sobrinha, Júlia. No caso agora em apreço, que culminou com a morte de Custódio Ramires, um abastado industrial da construção civil, que vivia numa casa nos arredores de Estremoz, com duas filhas, Rita e Amélia, um “mordomo de família” – Frederico, que o acompanhava há décadas, desde que tinham estado na guerra colonial, onde cada um tinha salvo várias vezes a vida ao outro – e uma cozinheira que trabalhava todo o dia lá em casa, mas que habitava fora, numa vila vizinha.

Apesar dos seus 70 anos, o Custódio mantinha-se em forma. No dia em que veio a morrer, tinha saído sozinho de casa a conduzir o seu carro logo de manhã cedo. Foi nessa viagem que teve o acidente fatal. Por razões que se desconhecem, perdeu o controlo da viatura quando seguia por uma estrada ao lado de uma grande pedreira. O carro galgou o frágil muro que delimita a estrada e precipitou-se pela pedreira abaixo, acabando destruído. Mas não ia em excesso de velocidade.

Nada na estrada dava a entender que pudesse ir a grande velocidade. E não havia quaisquer marcas de travagem ou de derrapagem. Foi como se o condutor o tivesse dirigido diretamente contra o muro limítrofe. Tudo ainda mais estranho porque o Custódio conhecia perfeitamente aquela estrada. Não havia nada de suspeito com o carro. E a polícia não encontrou nada de errado nem com os travões, nem com a direção. Terá sido Suicídio? Embriaguez? – questionou a Júlia.

Torneio de Decifração “Solução à Vista!” – 2026

Problema nº 6

            Acidente Misterioso, de Rigor Mortis     

II – Parte (e última)

(…)

– Totalmente implausível. O Custódio Ramires não bebia álcool, de todo. Estava bem da vida, profissional e economicamente, e tinha excelente saúde, aparte uns problemas de asma que o afligiam ao acordar. Mas umas inalações receitadas pelo médico dele resolviam o problema, pondo-o em condições para o resto do dia. Assim mo disseram quer o mordomo, quer as filhas. Tinha sempre a respetiva máquina na mesa de cabeceira, preparando ele próprio a mistura dos medicamentos receitados pelo médico pessoal, ao deitar-se, deixando tudo pronto para poder fazer as inalações assim que acordava, usando o bocal que se adaptava sobre a boca e o nariz, ainda deitado. Era uma mistura de líquidos e uma pastilha que se dissolvia nesse líquido durante a noite.

– Algo de especial aconteceu nessa manhã?

– Nada, novamente segundo o mordomo e as filhas. De facto, eles referiram-me que nessa manhã o Custódio até estaria particularmente eufórico, tendo-se despedido entusiasticamente de todos, apesar de planear regressar ainda nessa noite.

– Porquê tanta euforia?…

– Perguntei exatamente isso ao mordomo… Ele disse-me que o Custódio estava muito feliz por ter resolvido a questão do seu testamento. Dois dias antes tinha-lhes dito que já o tinha assinado, e que deixava a casa onde viviam e meio milhão de euros ao Frederico, e o resto da sua fortuna às filhas, dividido igualmente pelas duas. Qualquer coisa como seis ou sete milhões de euros para cada uma… Além disso, segundo ele, as obras em Coimbra estavam a correr muito bem, e ele estaria em condições de vender a vivenda recuperada dentro de um par de meses, talvez por uns três milhões de euros.

– Dinheiro aos montes… – comentou a Júlia. E ficaram todos satisfeitos com as decisões

testamentárias?

– O Frederico estava muito pesaroso com a morte do seu patrão e amigo, mas mais que satisfeito com isso, visivelmente! Segundo ele, as filhas do Custódio não ligavam grande coisa ao dinheiro, habituadas como estavam a viver abastadamente. Eram boas pessoas, ainda que com os seus pecadilhos, disse ele. A Rita, a mais velha, tremendamente extrovertida, tinha um problema de vício de jogo e já tinha atingido o limite de crédito que o pai tinha negociado com o Casino de Lisboa. Cinquenta mil euros… O assunto fora discutido ao jantar, um par de semanas antes, e o Custódio terá dito que iria liquidar essa dívida junto do Casino, desde que ela lhe prometesse não mais chegar ao limite daquele crédito. Aparentemente, segundo o Frederico, não iria ser grande problema, porque a Rita estava noiva de um milionário daquela zona, e o casamento até já estava marcado para o mês que vem… E como os dois eram jogadores… Ao que parece, a Amélia será bem mais introvertida que a irmã, talvez até sorumbática. O seu pecadilho serão as roupas… Segundo o Frederico, o guarda-vestidos dela daria para várias mulheres… Já terá tido um par de namorados, mas com nenhum deles terá chegado ao ponto de pensar em casar.

– O “caso” parece de facto muito linear, tio. Porque é que os foste interrogar, se parecia tratar-se de um mero acidente rodoviário?

– O oficial da Polícia que tomou conta do caso é meu amigo de longa data. Aproveitando eu estar em Vila Viçosa, almoçámos juntos uns dias depois do acidente. Ele estava tão intrigado com o facto de não haver nenhuns sinais de travagem ou derrapagem do carro na estrada, que lhe propus irmos os dois conversar com as filhas e o mordomo. No fim dessa conversa, quando nos despedimos, deixei-o muito mais descansado, concluindo os dois que tudo tinha sido, como dizes, um simples acidente rodoviário, ainda que infeliz.

– Bom, tio, talvez… – disse a Júlia com ar circunspecto. Ou talvez não…

– Que queres dizer com isso?!

– Acho que o “acidente” pode ter sido “provocado” por algum deles… Não diretamente, claro, mas pondo o Custódio num estado de espírito propício a que ele viesse a acontecer…

– Estás a pensar em algum deles, em concreto?!

– De facto, estou…

E, caro Leitor, que acha você? Poderá ter sido como diz a Júlia? E como é que aquele dos três que o tenha feito, de facto terá conseguido que o Custódio ficasse nesse “estado de espírito”? E qual deles poderá ter sido?

E pronto, por agora, ficamos à espera das vossas propostas de solução a este segundo problema, que devem ser enviadas até 30 de junho de 2026, através dos seguintes meios:

  1. por email, através do endereço eletrónico salvadorsantos949@gmail.com;
  2. por correio, através do endereço postal Salvador Santos / rua Quinta do Modelo, 40 / 2820-261 Charneca de Caparica;
  3. entregando em mão própria ao orientador da secção, onde quer que o encontrem.

Por último, recorda-se que, conjuntamente com a proposta de solução deste problema, os nossos concorrentes devem enviar a pontuação atribuída ao 5º problema do torneio, cuja solução de autor será publicada na próxima edição d’ O Desafio dos Enigmas.