Chamado de urgência ao Encontro de Escritores Policiais, promovido por Dick Haskins em Vila Nova de Gaia, o inspetor Fidalgo começou por suspeitar do envolvimento do próprio anfitrião na morte do escritor Edgar Alan Poe, o que acabou por gerar uma reação de grande desagrado por parte do mais traduzido e publicado autor português no estrangeiro. Mas depois de explicar as razões das suas suspeitas, que acabaram por se verificar infundadas, comunicou a descoberta da verdade para espanto da generalidade dos presentes. E é assim que chegamos ao fim do conto nº. 7 do nosso concurso “Um Caso Policial em Gaia”, com uma longa explanação do Inspetor Fidalgo sobre o desfecho desta intricada “história inverosímil” que ocupou a nossa secção durante três edições.

 

CONCURSO “UM CASO POLICIAL EM GAIA”       

Conto nº. 7

“Uma História Inverosímil”, de Detetive Mel

III – Parte (conclusão)

“Haskins deu-me o registo de uma conversa despropositada de Poe, à chegada ao Hotel. Um convidado para uma reunião tão seleta não devia falar assim. Referiu também a sua má pronúncia. Disse-me que o ‘velho’ estava na cama com os cabelos brancos desalinhados. Mas não tinha o Poe apenas 40 anos? Telefonei para os chineses do Shopping Gaia e indaguei acerca de máscaras carnavalescas. Soube que tinham sido vendidas duas indumentárias do século XIX. O médico apontara para a meia-noite a hora do falecimento, mas Dupin afirmara que, ao sair do quarto, manhã cedo, Poe estava ainda vivo. Não sei por que razão associei a Dupin o nome Lupin, charmoso ladrão do Leblanc… Tornou-se evidente que tínhamos entre nós um par de larápios.”

“Por volta da 0.20, ouvi um ruído de passos, fui à janela e vi um vulto. Telefonei para a receção e soube que o Matoso fora rendido e estava a sair. Levava com ele um embrulho volumoso e um computador. Seria a almofada desaparecida? Iria, dentro da maleta, o quadro que faltava? Então era ele o homicida”.

O rececionista ficou vermelho e deitou as mãos à cabeça. O Inspetor perguntou: “Queria esconder a prova do delito?” “Delito?” , repetiu Matoso, levantando-se e voltando a sentar-se. “Eu, Sr. Inspetor? Credo! Eu lá sou capaz de matar uma galinha, quanto mais uma pessoa…” “Então quem foi o homicida?” Matoso respondeu com voz sumida. “Eu cá não fui.” “Bem, homem, não se assuste porque a mim nunca me pareceu que você fosse um criminoso. Mas diga-me lá porque ia esconder a prova do crime.” “Ele pediu-me. Disse que matara o pai sem querer. Lutaram porque Poe lhe disse que só lhe ia dar 10% do lucro da venda. Estava em apuros e disse que eu tinha de lhe dar uma ajuda.” “Matoso, você não é homicida nem ladrão, é só ignorante e por isso não soube dizer aos malfeitores que os quadros não valiam tanto como os do Mucha, eram obra de um pintor que você nem conhece. Estava também convencido que esses meliantes, seus pseudo amigos iam repartir consigo a recompensa prometida? É melhor confessar, talvez o Juiz lhe reduza a pena.” “Não há nada a confessar, o Sr. Inspetor já descobriu tudo. É verdade que fui muito ingénuo. E tive medo. Os tipos queriam os quadros, pediram a minha ajuda, ameaçaram-me com a minha família, prometeram-me 10% do lucro e eu pensei que ia finalmente poder pagar a universidade que é o sonho dos meus filhos. Também fui um sonhador, sempre fui. Pensei que ia sair da mediocridade desta vida mesquinha que tenho levado…”

Estava tudo esclarecido, à exceção da identidade dos vigaristas. “Nem eu sei, Sr. Inspetor.” Disse o Matoso. “Só sei que eram pai e filho. Andavam sempre juntos lá pela tasca.”

Apontando para o falso Dupin, Fidalgo disse então: “Chefe, há aqui trabalho para si. Traga as algemas e prenda este homem por homicídio e ladroagem. Leve também este desgraçado! Conivência em roubo.”

*****

Fidalgo, dirigindo-se à assembleia: “Devo dizer que me sinto feliz pelo facto de nenhum dos convocados ter sido atingido nesta tragicomédia! A culpa cabe a estes tristes coitados que são da minha nacionalidade e disso me envergonho, mas todos sabemos que neste mundo a gente boa se encontra misturada com a ruim.”

Ouviram-se palmas.

Sentado na primeira fila, cofiando o bigode, Sherlock Holmes disse em voz baixa: “Que achas, Watson? Não precisaram de nós…”

“Deixe- me responder por si, Dr.Watson. É certo que, enquanto eu cogitei uma noite inteira, vós teríeis chegado à verdade em apenas dez minutos. Haskins pediu a minha ajuda, e não a vossa, porque os senhores estão aqui na qualidade de convidados e não de consultores”.

Novos aplausos.

*****

Chegara a hora do Encontro que se realizou após um coffee break durante o qual Fidalgo espalhou o seu charme e abraçou afetuosamente os ilustres visitantes.

Fidalgo tinha de partir. No Ribatejo, esperavam-no os seus clientes. Haskins acompanhou-o à porta.

“Muito obrigado, Inspetor Fidalgo, o senhor foi brilhante.”

“Ora, Albuquerque, limitei-me a fazer o meu trabalho e agora está tudo esclarecido. Só há uma coisa que ainda não percebi. Lá que os vivos tenham vindo, tudo bem, era o que se esperava, mas como é que a Máquina do Tempo trouxe os mortos?”

Haskins respondeu: “Ó meu amigo, não se incomode com isso. Cá por mim, não vou ficar a meditar no assunto. O que me preocupa agora é saber quanto lhe vou pagar…”

“Eu não cobro muito. Depois mando-lhe a conta.”

 

CONVITE AO LEITOR

E pronto, caro leitor. Agora o passo seguinte é seu. Para tal, repetimos o nosso convite à sua participação na escolha dos melhores contos. O processo é simples. A partir de hoje, tem trinta (30) dias para fazer a avaliação, em função da sua qualidade e originalidade, do sétimo conto do nosso concurso, da autoria de Detetive Mel, e enviar a respetiva pontuação, numa escala de 5 a 10 pontos, para o email do orientador da secção (salvadorpereirasantos@hotmail.com).

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