“Atribuir o nome de Ilda Figueiredo a um jardim em Gaia foi uma ideia muito feliz”, disse ao ‘Audiência’ Agostinho Santos, companheiro da ex-deputada do PCP e ex-autarca de Gaia, Porto e Viana do Castelo.
Agostinho Santos falou em nome de Ilda Figueiredo — devido ao estado de saúde da ex-autarca — e sublinhou o agradecimento da mulher, com quem está casado há 15 anos, por aquele gesto cheio de significado, dada a ligação da ex-autarca à política ambiental do município. Aliás, o próprio presidente Luís Filipe Menezes sublinhou esse aspeto quando decorreu o ato inaugural do ‘Jardim Ilda Figueiredo’, situado na Rua 20 de Junho, nas proximidades dos Paços do Concelho.
Enquanto vereadora com o pelouro do Ambiente, Ilda Figueiredo apresentou a proposta original que deu origem à criação do Parque Biológico de Gaia como pulmão verde e centro de educação ambiental. Com cerca de 35 hectares, situado na freguesia de Avintes, este equipamento cuja génese está ligada à ex-vereadora da CDU e que juntou a vontade de Luís Filipe Menezes, nos seus primeiros mandatos, entre 1997 e 2013, que assumiu um papel decisivo primeira na expansão do projeto e, depois na consolidação do Parque, com a canalização de meios financeiros. Do seu espaço inicial de 2 hectares o Parque sonhado por Ilda Figueiredo cresceu para os atuais 35 hectares.
ENTRE A LUTA E A POESIA
Por motivos de saúde, afastada do frenesim da atividade política, onde passou por vários patamares — desde a política autárquica, tendo sido vereadora de Viana do Castelo, Porto e Gaia, passando também pelo Parlamento português, como deputada na Assembleia da República, e pelo Parlamento Europeu, como eurodeputada —, Ilda Figueiredo assumiu igualmente intensa atividade na área educativa e sindical. Agora, regressou a uma das suas paixões mais antigas: a escrita e, mais concretamente, a poesia.
“No próximo mês de setembro vai sair uma antologia de poesia da autoria da ex-autarca de Gaia, uma paixão que nasceu nas páginas dos jornais, quando Ilda Figueiredo, nos anos 70 do século passado, mergulhava nas lutas estudantis na velhinha Faculdade de Economia da Universidade do Porto, nas correrias para fugir às cargas policiais, assistindo às prisões dos colegas universitários. Numa dessas vezes, como relatou, só não foi presa por estar em fase final de gravidez. Nesses anos de brasa, a paixão pela poesia, inspirada por Neruda — que pontuava no apoio ao Governo de Unidade Popular de Salvador Allende e na terrível ressaca repressiva que foi o golpe de Pinochet —, levou Ilda a escrever poemas no suplemento juvenil do Diário de Lisboa, então dirigido por Mário Castrim. No jornal escreviam também, entre outros, Eugénio Alves e Fernando Alvim, tendo sido, juntamente com o ‘República’, de Raul Rego e Vítor Direito, um dos baluartes do jornalismo e da oposição democrática ao regime.
O interesse pela poesia levou Ilda às leituras de Eugénio de Andrade, Egipto Gonçalves, Natália Correia e Manuel Alegre, bem como às músicas de José Afonso e Adriano Correia de Oliveira, assuntos que discutia nas tertúlias dos cafés ‘Orfeu’ e ‘Piolho’.
Longe da menina que viu a luz do dia na então aldeia de Troviscal, no concelho de Oliveira do Bairro, Ilda, enquanto se formava em Economia, e após a Revolução, aderiu ao PCP e assumiu vários cargos naquele partido. Passou também a colaborar com vários órgãos de comunicação, sem nunca abandonar a escrita. Do ensaio à prosa partidária, nunca deixou de lado a poesia, com obras como ‘Geografia do Olhar’, ‘Tear do Tempo Agora’, ‘Lábios de Maçã em Abril’ e ‘Semente Azul’, com a chancela da Âncora Editora, dirigida por António Baptista Lopes, e com pinturas de Agostinho Santos, o seu atual companheiro.
Ilda Figueiredo tomou conhecimento da proposta do presidente da Câmara, Luís Filipe Menezes, para que lhe fosse atribuída a Medalha de Ouro de Gaia, distinção que lhe será conferida no Dia do Município, a 20 de junho, data oficial que celebra o dia em que o concelho foi fundado, em 1834, e ocasião em que habitualmente se homenageiam, através da atribuição de Medalhas de Ouro, aqueles que, pelas suas ações, honraram Gaia. É o caso de Ilda Figueiredo.


