Na tarde em que esta crónica desenho, rabisco, edito e envio para o jornal Audiência-Ribeira Grande, reconheço que foi ainda no outro dia a ocasião de desejar aos amigos e familiares um próspero ano de 2020. Apesar de tudo, um ano rapidamente passou sem dar-mos por isso.

Foi uma linda terça-feira, dia de trabalho. Mas havia planos para celebração de passagem de ano, pelo que, no emprego foi solicitada a saída duas horas antes do turno terminar. Assim, com a chegada a casa, tomou-se um duche rápido e, larga carro a caminho do Estado de Connecticut. Duas horas de viagem, por causa da hora de ponta. Chegada ao casino Mohegan às seis da tarde. Setenta e seis milhas (aproximadamente 122 Km) percorridas entre Fall River e Uncasville, com o propósito de assistir a um espectáculo de comediantes ao vivo. Procurou-se um bom restaurante para se celebrar as despedidas de 2019. Esposa feliz, marido contente. Nove horas da noite, o espectáculo começou. Gargalhadas e mais gargalhadas. Na verdade Joe Gatto, James Murray, Brian Quin e Salvatore Vulcano – os Impractical Jokers da televisão americana –  fazem, sem sombras de dúvida, um bom espectáculo.

Onze da noite, para não dizer vinte e três, saída da sala de espectáculos e um andamento pelas ruas daquele mundo debaixo de um tecto, onde se notou, praticamente ao meio dele, sinais de festa rija para as boas-vindas de 2020. Decidimos por ali ficar, escolhendo no piso superior um lugar com boa vista para o palco, que ficava em baixo, onde mil e uma manifestações de dança, música e alegria desenrolaram seus pergaminhos durante a noite. A cada minuto que passava notava-se a evolução do aglomerado de pessoas de toda a espécie. Faltando um quarto de hora para a meia-noite a gente já não se podia mexer. Quem olhava para baixo tinha a noção de estar a ver um formigueiro. Temos a certeza absoluta que o COVID-19 por cá já andava sem ninguém saber.

Enquanto que na Times Square, na cidade de New York descia a bola, ali, no Mohegan Sun, se contava em ordem decrescente de dez a zero. As tais zero horas de dois mil e vinte. Bem Vindo, ano novo! Feliz 2020 para todos! Esguichos de champanhe por todos os lados, beijos e abraços, empurrões, encontrões, faróis acesos, foguetes sem pólvora, etc. A música passa a tocar com mais força, as pessoas falam mais alto para se fazerem ouvir. Mais dançarinas, e mais música. “Feliz ano novo!” ouviu-se bem alto não sei quantas vezes.

Queríamos abandonar o local nos primeiros trinta minutos do ano, mas ao ver que não havia atalhos e por não gostarmos de apertos à toa, aconselhamos a nós próprios esperar mais um pouco. A uma da manhã trouxe junto a nós uma certa abertura que nos conduziria a um atalho para tentar escapar àquela doidice. Nela nos enfiámos, e de seguida demos conta que andávamos perdidos no meio de uma floresta de gente. Passados uns trinta e cinco minutos estávamos ao pé da porta que nos deixou entrar algumas horas antes. Depois, os atrasos de saída do parque de estacionamento resultaram em olhar para o relógio e notar que eram duas da manhã quando as rodas do automóvel começaram em movimento de rotação lenta, levando o veículo até à estrada. Precisamente no ponto de desvio fomos surpreendidos por uma equipa policial. Paragem obrigatória. Livrete, carta de condução. Luz branca nos olhos, para ver se havia pupilas dilatadas. Seria azar e mais alguma coisa se eu as tivesse. Água salgada não dilatam pupilas. A minha mulher é que tinha enfiado uns copinhos, mas nada demasiado. Tudo normal, boa viagem, foi o que nos disse um oficial. A pressa de sair da operação stop foi tanta que, em vez de voltar para a esquerda fomos sempre em frente, indo meter-nos numa outra estrada, direccionada ao interior do Estado. Disse a esposa que aquele não parecia ser o mesmo caminho, perguntando-me se eu queria que ela ligasse o “g.p.s.” do telefone. Que não, respondi. A minha cabeça é mais do que uma bússola e, além disso, sou um perito em geografia. Dito e feito. Dali a dez minutos apareceu um sinal de informação, dizendo que o cruzamento com a estrada 6 aconteceria daquele ponto a duas milhas. Não tínhamos pressa. Aliás, fizemos uma maravilhosa viagem de regresso a casa. Viemos falando em mil e um assuntos. Rimos como duas crianças e conversámos como dois adultos. Recordámos bons e maus momentos, o que se fez que não deveria ser feito, e o que não se fez que era imperativo fazer. Demos as mãos e desejámos bons-anos um ao outro. Um “love you” para cá, outro para lá. Só faltou estacionar o carro na berma da estrada e namorar como dois jovens esfomeados de amor, o que nos passou pela cabeça fazer. Mas devido à intervenção da polícia que tivemos uma hora antes, resolvemos esperar para chegar a casa. Graças a meio litro de café do Dunkin Donuts, o sono só nos alcançou quando nos encontrámos envoltos nos lençóis e cobertores, pouco depois das quatro da manhã, esquecendo por completo as intenções namoricas que tivemos na auto-estrada.

Acordámos com o cachorro dizendo-nos que estava apertado e tinha de ir fazer as suas necessidades. Graças a Deus, teve a consciência de deixar-nos dormir até às dez. Bela hora para um cafezinho fresco e começar a alinhavar o almoço que acabou servindo de jantar.

Foi uma passagem de ano diferente daquelas a que estávamos habituados, porque sempre fazíamos o “Réveillon” na companhia de familiares e amigos. A primeira deste género por causa dos dois bilhetes que nos foram oferecidos para ver aquele espectáculo dos “Impractical Jokers”. No que diz respeito ao presente ano, como passámos o teste do outro não nos custa nada estar sós. Já estamos habituados. Mil votos e saudações foram lançados aos quatro cantos do mundo, para familiares e amigos. A tecnologia permite-nos, e sem ela no tempo que corre nada não se faz. Isto significa que mesmo separados estamos unidos. Temos esperança que virão dias melhores, e a fé de que mais força teremos depois de nos levantarmos desta queda.

Confesso que não tinha a mínima ideia do ponto que esta crónica iria atingir. Mas tenho a certeza que do fundo do coração desejo a todos os leitores e amigos do jornal Audiência-Ribeira Grande um ano novo muito bom, próspero, saudável e feliz. Sempre com esperança. Pois, com ela as outras virtudes se hão de fortalecer. Com um grande abraço do outro lado do rio Atlântico: Haja saúde! Feliz 2021 para todos.

 

 

Peço a Deus com confiança

Saúde  para o meu povo

Que vive na esperança

De um feliz ano novo.

 

Não se canta as Janeiras

Nem os Reis se irá cantar.

Porque é uma das maneiras

Da pandemia abrandar.

 

Já tocaram as buzinas,

O novo ano começou

E já temos as vacinas

Que a Ciência inventou!

 

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