FINALMENTE A PAZ OU NEM POR ISSO

O título deste texto justifica-se, penso, face às dúvidas existentes, mas também pela série imparável de opiniões de especialistas, analistas e principalmente alquimistas, com honrosas excepções, que nos invadem  diariamente as nossas casas perorando sobre a guerra na Ucrânia

e aqueles que se atrevem a dizer que o uso de armas nucleares ameaça o futuro da humanidade, passam logo a ser rotulados de teóricos da conspiração, pois o necessário é avançar com mais e mais armamento para a fogueira não apagar.

A compreensão dos acontecimentos ainda em curso na Ucrânia exige um escrutínio e uma identificação dos factos, que possam superar as frases curtas e impactantes de uma narrativa destinada a captar a atenção do público a qualquer preço, criando manchetes e fazendo da verdade a primeira vítima da guerra.

Torna-se no mínimo estranho que tantos entendidos nesta matéria consigam ignorar a verdade  histórica a que todos podemos ter acesso se quizermos ou estivermos dispostos a fazê-lo seriamente.

De facto, estamos perante dois assuntos distintos, embora correlacionados: a protecção da população russa da Ucrânia e a expansão da NATO para Leste, adaptando-se  o primeiro no segundo.

A explicação não se encontra em abordagens maniqueístas dos bons contra os maus, mas sim na geoestratégia, que tem influenciado de modo decisivo a política externa das grandes potências.

Viktor Yanokovitch, um presidente democraticamente eleito, foi derrubado em 2014 através de um golpe de estado orquestrado por Washington, perpetrado por grupos paramilitares neonazis, colocando no poder grupos nacionalistas ucranianos anti-russos.

Foi possível ver em Kiev, Victoria Nuland, secretária de Estado Adjunta para os Assuntos Europeus e Eurasiáticos, conjuntamente com Geoffrey Pyatt, embaixador americano na Ucrânia, a distribuírem comida aos golpistas, numa clara ingerência nos assuntos internos da Ucrânia, mas também  John McCain, senador e antigo candidato presidencial, esteve em Kiev a apoiar a golpada, fazendo-se fotografar ao lado de Oleh Tyahnybok, um dos cabecilhas do golpe e líder do Svoboda, um partido de inspiração neonazi glorificador de Stefan Bandera e daqueles que combateram do lado de Hitler.

Sobre o alargamento da NATO confrontam-se duas posições divergentes, por um lado, a da Rússia que recorre aos princípios da OSCE-Organização para a Segurança e Cooperação na Europa organização de países do Ocidente voltada para a promoção da democracia, direitos humanos e liberdade de imprensa na Europa, argumentando que o reforço da segurança de uma nação não pode ser obtido à custa da segurança de outra nação, uma alusão directa à possível entrada da Ucrânia e da Geórgia na NATO e ao seu alargamento a Leste, procurando impedir a instalação nesses países de unidades militares e armamento, por outro lado a outra posição, a da NATO, que defende uma política de porta aberta, argumentando que um Estado não pode impor a outro Estado opções de política externa, neste caso particular vetar a adesão de um país a uma organização regional.

Aproveitando oportunisticamente estas opções, surgiram dois levianos, um pensando que ainda comandava geoestrategicamente o mundo e outro estendendo a passadeira vermelha ao primeiro, como fantoche de serviço ocasional.

A oposição da Rússia ao alargamento da NATO tem sido erradamente atribuída ao espírito maléfico de Putin, porém, trata-se de um problema securitário existencial e vital, que extravasa o poder de quem, num dado momento, se possa sentar no Kremlin.

A Rússia não está exactamente interessada numa esfera de influência, mas na criação de uma zona de segurança ao seu redor, portanto, o que tem sido dito sobre a intenção russa de refazer o antigo império soviético e invadir a Europa, não passa de desconhecimento, pois os receios russos sobre a expansão da NATO até à sua fronteira deviam ser compreensíveis para qualquer americano e europeu que tenha ouvido falar da Doutrina Monroe, aliás, o que se passa hoje nas americas retrata bem a atitude estado unidense para com os seus vizinhos.

Baseando-se no igual direito à segurança para todas as nações e nos princípios da Carta das Nações Unidas, que proíbem a ameaça ou o uso da força, Moscovo propôs a Washington o abandono da expansão da NATO para Leste, nomeadamente a adesão de Estados que tivessem integrado a extinta União Soviética e a retirada de tropas da Aliança dos países que pertenceram ao antigo bloco soviético.

Em 1989, em visita a Moscou, o então Secretário de Estado do governo George Bush, James Baker, prometeu ao último presidente soviético, Mikhail Gorbatchev, que a NATO não avançaria «nem uma só polegada rumo ao leste», mantendo-se em suas fronteiras originais, na Europa Ocidental, só que a partir dos anos 90, essa promessa foi continuamente rompida.

Os Estados Unidos só não conseguiram virar o jogo a seu favor na Geórgia e na Bielorússia, frente a uma Rússia já mais fortalecida, soberana e autoconfiante, capaz de proteger e ajudar seus aliados e como tal foi necessário encontrar alternativa no território ucraniano.

Podemos estar todos de acordo em que a Ucrânia seja independente, mas por que motivo deveria entrar para a NATO?

Os russofóbicos nunca falam dos Acordos de Minsk 1 e 2, um conjunto de tratados, sob a égide da Rússia, Ucrânia, França e Alemanha, destinados a tentar resolver o conflito no Leste da Ucrânia e focando um cessar fogo, retirada de armamentos pesados, libertação de prisioneiros e reforma constitucional na Ucrânia.

No entanto,  a falta de implementação e diferenças de interpretação fizeram com que os acordos não fossem totalmente cumpridos, assim inviabilizando o Minsk 3 nunca acordado com a Rússia, cabendo aqui lembrar as palavras da antiga Chanceler Angela Merkel ao afirmar que Minsk constituiu somente um pretexto para rearmar a Ucrânia.

Aqui chegados, resta-nos expressar os nossos votos de que a Paz possa finalmente ser atingida, seja como resultado do encontro Putin\Trump em Anchorage, seja pelo Acordo dos 28, 26 ou 22 pontos, anunciado recentemente.