Bem podia a terra ter mudado de nome, tal como muitos apelidos da sua gente foram trocados por suas alcunhas. Se isso acontecesse toda a culpa seria da fábrica de Dom José. Mania minha esta denominação da fábrica, todas as vezes que a ela me refiro. Porque Dom José foi um felizardo. Até no próprio nascimento, o qual foi atribuído a um milagre, obra e graça da terceira pessoa da Santíssima Trindade, a partir do qual ressuscitaram nas ilhas as festividades do Divino Espírito Santo, até ali proibidas desde o final do século dezasseis.

Dom José casou aos dezanove anos na cidade de Paris com Dona Constância Emília de Rohan, filha dos príncipes de Soubise, tendo como padrinhos os reis de França, Luís XIV e Françoise d’Aubigné. Por volta de 1718, seu filho Luís, tendo sido embaixador português na assinatura do Tratado de Utrecht, e residindo na capital francesa, a pedido do pai, contratou 53 franceses para trabalhar na fábrica, em São Miguel: 52 operários e um contra-mestre, que vieram para a Ribeira Grande com suas famílias. Luís, mesmo ainda em vida de seu pai usava o título de terceiro Conde da Ribeira Grande, parecendo adivinhar-se que a sua morte chegaria antes da partida do pai para a eternidade. Ao que consta, aquela indústria têxtil na Ribeira Grande teve um enorme desenvolvimento em meados do século dezoito, cujos produtos ganharam reputação além-fronteiras, graças à dedicação do neto do fundador, que também era José, e que herdou o título de quarto Conde da Ribeira Grande, sendo o décimo terceiro capitão donatário da ilha de São Miguel.

A fábrica existiu até aos primeiros anos do século dezanove, altura em que foi comprada pelos ingleses, para acabar com a concorrência aos seus produtos. De início começou a funcionar com lã, depois com linho, e mais tarde com várias matérias primas. Mas para que os teares pudessem funcionar a cem por cento era necessário haver bastante fio para teias e tramas. Foi aí que entraram em cena todos os fusos da vila, fazendo girar de várias formas a economia local. Por causa disso, a inveja de outras localidades alcunhou os ribeiragrandenses de Fusos e Fuseiros. Porém, não deixa de ser interessante o facto de uma outra alcunha ter sido criada na vila pelos habitantes da Conceição, que era a paróquia nova, apelidando-se a si próprios de Fidalgos. Mesmo assim, aos olhos da população micaelense todo o ribeiragrandense era, e continua a ser, fuseiro. O brasão de armas da freguesia Matriz ostenta dois fusos, com muito orgulho. Matriz é a freguesia mãe. Fuseiros são todos os ribeiragrandenses. Mesmo que cada freguesia tenha a sua própria alcunha, seja fuseiro todo o munícipe. Fusolândia como concelho, Fusópolis como cidade. Ou então, como alguém escreveu em 2008, classificando os Açores como “Nações Atlânticas”, São Miguel como país “Corisco”, Concelho da Ribeira Grande como estado “Fusolândia”, cuja capital seria “Fusópolis”. Pois, então, vamos na onda.

 

Fusópolis, 28 e 29 de Junho do Ano da Graça

 

As maiores festas de sempre decorriam no Estado da Fusolândia. Os jornais do Corisco dedicavam páginas inteiras ao acontecimento. Fusópolis, a capital daquele estado, sempre se destacou com grande importância no Corisco. Por não ter bom porto e por seu mar não ser dos melhores para navegação, outros burgos levaram vantagem e desenvolveram-se pelas ligações com o exterior. Mas foi na Fusolândia, mesmo ao lado de Fusópolis, que se construiu o primeiro aeroporto do Corisco que, por razões políticas, mais tarde, foi abandonado ao ser construído outro na capital do país, Ponta Salgada.

Em 1981 chegou a altura, em que o governo das Nações Atlânticas achou que a vila Fusópolis devia ser elevada a cidade, pelo seu valor em diferentes aspectos. Isto dignificaria não só o velho burgo, como também todo o Estado da Fusolândia, que em termos económicos era, e ainda é, o segundo do país e o terceiro das Nações.

Como o feriado estadual era já celebrado no dia de Saint Pierre, não lhe fizeram alterações, aproveitando a data para se dar a transição de Vila para Cidade.

Em 1981, Fusópolis era um bom lugar para viver, embora socialmente houvesse muita divisão de classes e interesses. Um mal que já vinha de longa data e sem remédio para cura. As ideias liberais de 1974, de certo modo, fecharam ainda mais os núcleos sociais, ou círculos de amigos – os Amigos da Onça. Por tais motivos, a elevação foi aplaudida por uns e desprezada por outros.

Para além das sessões solenes, a histórica procissão foi coisa nunca vista em Fusópolis. Com representações de todas as freguesias do estado e respectivos santos padroeiros, a parada semi-religiosa foi o acontecimento do dia, enchendo por completo o Boulevard Central. Ainda saía o cortejo da Cathédrale de Notre Dame de l’Étoile, quando a vanguarda dele já nela entrava de regresso. Houve oportunidades de convívio entre os santos padroeiros de todo o estado. Alguns até nem se conheciam por nunca se terem visto.

     Fusópolis tem mudado muito, para melhor, com o passar dos tempos. O agrupamento dos escuteiros que nasceu em 1980 ainda vive com muita saúde, e Deus permita que nunca morra. Grupos folclóricos e teatrais, academias de música, entre outras, são organizações que eram sonhadas antes de 1981. Mas as diferentes pragas sociais transformavam tais sonhos em pesadelos. Se as sementes eram lançadas à terra, as pragas acabavam com elas. Se conseguissem germinar, as ervas daninhas não as deixavam crescer. Depois de 1974, o povo não aceitaria de modo algum, um líder fusomanitário como o Padre Prior Evaristo, dos tempos dignificantes da vila e do estado. Teve o tempo de se encarregar do próprio tempo e de mudar as mentalidades.

Agora vive-se muito bem na Fusolândia e prevê-se melhoras nos aspectos mais necessitados. Recentemente, nasceu neste estado mais uma vila, Peixópolis. Esta localidade foi mais sortuda do que a sua irmã, Maiópolis, que, em tempos idos esteve várias vezes à beira de ascender à mesma categoria.

O aniversário da cidade tem sido devidamente assinalado todos os anos, sem dúvida um acontecimento de extrema importância. As autoridades prepararam um programa de festa bem à altura da efeméride. Infelizmente este ano será diferente, por causa da pandemia. Mesmo assim, Fusópolis transforma-se novamente num palco de festa de mais alto louvor para toda a Fusolândia, para todo o Corisco, para as Nações Atlânticas e além fronteiras. Os Fusíadas da diáspora também celebram esta data de 29 de Junho no íntimo dos seus corações.

Parabéns, Ribeira Grande, pelos 39 anos de cidade!

 

Teu bolo d’aniversário

Tem os fusos a girar.

Quem te disser o contrário

As velas vai apagar.

 

A cidade comemora,

O seu povo está contente!

Ai daquele que ignora

O valor da fusa-gente.

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