Fundador e rosto dos Heavenwood, Ricardo Dias dos Santos revisitou, em entrevista exclusiva ao AUDIÊNCIA, três décadas de história de uma das bandas portuguesas mais marcantes do metal/gótico. Da adolescência passada a ensaiar em Vila Nova de Gaia e das primeiras maquetes enviadas por correio para revistas especializadas, ao contrato com uma editora alemã, às tours europeias e ao reconhecimento internacional, o músico recordou o percurso singular do grupo. Numa entrevista marcada pela memória, pela reflexão artística e pela paixão pela música, Ricardo Dias dos Santos falou, ainda, sobre os desafios superados, incluindo um acidente quase fatal que sofreu em 2022, e anunciou o lançamento do novo álbum em 2026, que promete fechar um ciclo criativo iniciado há uma década.
Os Heavenwood nasceram em Vila Nova de Gaia, numa época em que o metal/gótico em Portugal era ainda um território pouco explorado. Qual é a história da fundação deste grupo?
A fundação da banda remonta a cinco jovens, na altura estudantes, que, portanto, já tinham uma paixão enorme pela música e começaram a aprender cada qual o seu instrumento. Na época era comum as bandas serem formadas por amigos, que estudavam na mesma escola e começamos a fazer os primeiros ensaios, as primeiras músicas, neste caso, já com algum público, porque eram feitos num pátio, por baixo do tabuleiro da Ponte D. Luís. Na altura não havia metro, as pessoas passavam de carro e a pé e muitas vezes estávamos a ensaiar ao sábado à tarde e as pessoas assistiam no tabuleiro de cima e batiam palmas. Posteriormente, o grupo começou a ter os primeiros concertos, sendo que, em 1992, o primeiro foi organizado pela Junta de Freguesias de Canelas, com bandas residentes de várias freguesias. Foi um encontro de jovens que decorreu na praça onde tem o Coreto. O segundo concerto aconteceu na inauguração da reabilitação da Escola Preparatória de Canelas. Depois, o nosso local de ensaios passou para Avintes. Um amigo do grupo, Alberto Soares, que hoje é uma pessoa de grande responsabilidade na Barbosa e Almeida, era um grande apreciador de música e, na altura, já comprava imensos discos e também mandava vir de fora, ajudou-nos muito, porque, graças a ele, acabamos por abrir o espectro sonoro, porque facilmente ouvíamos uma banda nova, que não conhecíamos de França, da Holanda e de outros países e tínhamos acesso a música que não havia cá. Então, em 1994, decidimos gravar nos estúdios de referência dos irmãos Barros, neste caso no Rec’n’Roll Studio com o Luís Barros, que era, digamos, a Meca, já a nível nacional, quer para gravações, quer por causa da escola. Portanto, lançámos a primeira maquete, em cassete e, como não havia internet, começámos a enviar para várias revistas, que eram revistas feitas com fotocópias, à máquina de escrever e que depois eram vendidas, algumas também enviadas lá para fora. Os nossos e-mails na altura eram as cartas, era a correspondência, mesmo lá para fora, e começámos a distribuir. Tivemos sorte, embora eu costume dizer que a sorte se faz, mas também faz parte, porque, na altura da antiga Radio Energia, havia um programa que era o “Metal Radical”, que dava a seguir ao programa da “Hora do Lobo”, do conhecido António Sérgio, muito respeitado, que no fundo foi a primeira pessoa em Portugal que começou a mostrar aos portugueses a música alternativa. Mas, neste caso, o jornalista Gustavo Vidal, do programa “Metal Radical”, achou piada ao grupo, independentemente das suas limitações, mas começou a apoiar a banda e a passar a nossa música todas as semanas e isso teve um reflexo e um impacto muito grande, mesmo depois, nos anos seguintes. Na altura, era difícil uma banda do Porto ir tocar a Lisboa e ter público, isso era quase impensável. Todas as bandas de Porto, independentemente do género, passaram por isto. Os próprios GNR, na altura, passaram por isto. Eu segui o exemplo do Rui Reininho e ia a Lisboa, conviver e estar com as pessoas e essa network também acabou por ajudar o grupo a ganhar mais fãs, a ser mais solicitado, para concertos, na altura, e então decidimos entrar novamente em estúdio, preparar a segunda maquete e algo mais, digamos, mais maduro, ainda mais pensado, mais estruturado, não tão agressivo, mais artístico e lançámos a segunda maquete, que nos deu a oportunidade de assinar um contrato discográfico com uma editora alemã. Na ocasião, sentimos que tínhamos capacidade de poder assinar e lançar um disco, pelo que enviamos a maquete a uma série de editoras, chegou a proposta e, em 1996, um grupo de jovens portugueses foi na TAP para a Alemanha, a editora pagou tudo, fez o estúdio durante um mês e criou o primeiro disco, “Diva”, que foi um enorme sucesso quando saiu, porque estávamos a trabalhar com uma editora alemã, que na música sempre foi, na Europa, o grande coração, em termos de edição e distribuição, não só para o heavy metal, mas para tudo. Assim, começámos a fazer as primeiras tours pela Europa, começámos a ter excelentes críticas, entrevistas em revistas internacionais e tudo foi subindo de uma forma orgânica e positiva. Acabámos por ir tocar, em 1998, depois de gravarmos o segundo disco, ao maior festival de heavy metal da Alemanha, que é o Wacken Open Air, fizemos mais tours e, em 2000, chegamos a um ponto em que tudo isto estava a ter uma influência enorme nos estudos, porque, eu falo por mim, eu estava a estudar, passava metade do ano fora e a outra metade a estudar, pelo que era muito complicado estar a fazer um curso superior com as tours. Então, acabámos todos por decidir pensar na nossa vida, termos profissionais e se era mesmo isto que queríamos fazer, porque tínhamos de estar a experienciar toda a mecânica. Regressamos mais tarde, em 2008, não com o objetivo primordial, que foi o início, de tentar conquistar o mundo, mas sim de fazer música enquanto uma questão artística. Isto faz parte de mim, como músico e compositor e tinha saudades, porque durante algum tempo, também acabei por deixar de ir ver espetáculos ao vivo. Maldita a hora em que fui ver um espetáculo no antigo Hard Club, em Gaia, que era fantástico, e decidi que tinha de voltar a compor e a gravar. Eu, em particular, nunca estive desligado a música, porque durante essa altura, trabalhei sempre numa das casas de referência do Porto, de instrumentos musicais e de áudio, portanto, acabava sempre por manter a ligação com os músicos e com o meio cá. Mas em 2008, regressámos e surgiu então o desafio, porque a Casa da Música nunca tinha tido uma banda de heavy metal a tocar, portanto, atiramos a lança e aceitaram, pelo que acabámos por apresentar lá o terceiro disco, “Redemption”. Depois a banda voltou novamente a gravar, em 2011, e assinou com a editora francesa, a Listenable Records, e eu decidi dedicar esse disco, “Abyss Masterpiece”, à primeira e grande poetisa portuguesa, Marquesa de Alorna, que na altura acharam estranhíssimo. Ela era praticamente desconhecida e eu tive muitas dificuldades para ter acesso às obras dela e para poder estudar e para poder mesmo inclusive, me inspirar para fazer o disco. Aliás, só depois do disco sair, obra do acaso, começam a sair as edições dos sonetos, as bibliografias dela, portanto, foi um disco muito interessante de fazer, que contou com a participação de um orquestrador sinfónico russo, de Moscovo, que fez as orquestrações. Portanto, foi uma experiência extremamente interessante. Em 2016, lançámos o penúltimo disco e regressámos à editora alemã do início, que era a Massacre Records, e, portanto, fizemos o conceito do tarot, neste caso dividido em duas partes, porque são 22 arcanas maiores e, como tal em 2016 saiu a primeira parte e, agora, em 2026, contra todas as probabilidades, porque tive um acidente quase fatal em 2022, lançaremos a segunda parte, porque eu tinha esse objetivo, não de fechar a existência da banda, nada disso, mas de completar esse ciclo da parte 2, que faltava, e entrar em estúdio, gravar à moda antiga, também, porque hoje em dia recorrem muito às coisas digitais, portanto, tocar, gravar o mais humanamente possível, trabalhar com um produtor francês, em termos de qualidade sonora, trabalhar com uma grande artista visual, que é muito conhecida nas redes, que é a Naya Kotko, em termos de arte, também visual, as capas, tudo está fantástico. O novo disco sairá em meados deste ano.
Quem são os membros que constituem a banda?
Neste momento, sou só eu, mas tenho músicos de sessão, convidados, quer para gravar, quer para tocar ao vivo.
Como é que surgiu a paixão pela música e por este estilo musical?
A paixão surgiu em 1989 ou 1990. Lembro-me que era um sábado e que estava na cozinha, a comer sopa, e estava a dar o primeiro festival de rock e heavy metal em Moscovo. Acho que estavam a tocar os Metallica e o meu mundo parou a olhar para a televisão. A partir daí quis aprender a tocar guitarra e como na altura não tinha nenhuma, peguei numa raquete plástica, com uma corda e pensava que era um guitarrista. Eu gravei o vídeo em VHS e comecei a observar e analisar os movimentos e associava-os aos tons, até que surgiu a primeira guitarra, o primeiro amplificador e as primeiras chatices com os meus amigos, porque eles queriam jogar à bola e eu queria aprender a tocar guitarra e estar ali fechado horas a fio.
Ao longo de 30 anos, como é que evoluiu a sua visão artística, enquanto músico e também compositor?
Eu penso que ela tem sido acompanhada com as experiências positivas e negativas que eu tenho vivido, ou experienciado, ao longo da vida, quer dizer, a nível pessoal e profissional. Portanto, toda essa amálgama de experiências, boas e más, foram-me, digamos, moldando, e eu também a mim próprio, lapidando, fui polindo, essa parte do meu ser, porque comecei a aperceber-me de que a música, a criação, é um processo, e como um processo também tem regras, tem fases e, acima de tudo, proteger ao máximo a alma da coisa, a essência, nunca deturpar, nunca corromper a essência, independentemente de ser em 92 ou em 2026, porque as pessoas podem e devem evoluir sem deixar de manter a sua essência, o carisma.
Com seis álbuns editados, qual diria que foi o mais especial e que disco ou música considera que é mais simbólico para a história dos Heavenwood?
É uma pergunta difícil, porque é quase como perguntar qual é o seu filho favorito. Todos os discos têm a sua importância no tempo e no espaço, porque todos retratam, digamos, uma fase da minha vida e eu, acima de tudo, tento ser o mais transparente possível quando crio músicas. Portanto, para mim é muito interessante e posso dizer que será o último disco que vai sair agora, mas também posso dizer que o primeiro disco é muito simbólico, porque no fundo foi o primeiro disco que proporcionou tudo isto existir até ao fim de 30 anos e se tivesse corrido mal, não estaríamos aqui.
O reconhecimento internacional foi uma conquista gradual. Em que momento percebeu que os Heavenwood tinham ultrapassado fronteiras? Foi por causa da gravação do primeiro disco, na Alemanha?
Foi e ainda hoje assim o é, infelizmente e estranhamente. Nós fomos das primeiras bandas a assinar um contrato com uma editora estrangeira. Fomos das primeiras também a fazer as tours europeias, a sair nas revistas e a dar entrevistas. Portanto, acabámos por ter noção desse impacto. Sentimos cá também, a nível nacional, mas sentimos lá fora, nomeadamente, na Alemanha, Suíça, Holanda, Polónia, Grécia, Bulgária, Japão. Aliás, eu na altura não tinha acesso aos statements e via pelo número de discos vendidos. Hoje é para esquecer, mas na época estavam lá 40 mil discos e, portanto, teve bastante impacto. Foi muito bem aceite. Agora está na moda, mas isto significava que a nossa portugalidade estava a ser valorizada.
Recentemente assinou com a Mighty Music, qual foi o sentimento e qual é a importância deste feito?
Foi fantástico, porque foi um pouco o espírito de missão cumprida, com o objetivo que foi estipulado e é novamente um reconhecimento da tal essência que não foi adulterada. É uma aposta grande, principalmente nos dias de hoje, onde geralmente a indústria musical está baseada em streamings, números, números de likes, de fãs. Então perde-se o mais importante, que é a musicalidade. Mas, a nível mundial, ainda existem imensas pessoas que apreciam esse lado da arte. Acabamos por chegar também a um grande número a partir do momento que nos tornamos globais, porque podemos chegar facilmente a vários países do mundo. Antigamente, as dez ou vinte mil pessoas tinham de comprar o disco, para conseguir ouvir, contudo, agora não, há uma percentagem muito menor, embora eu tive uma experiência fantástica com a reedição dos dois primeiros discos de 1996 e 1998, por uma editora portuguesa, que é a Larvae Records, que se especializou na reedição de discos portugueses do género, que na altura saíram em CD, nos anos noventa, e agora fazem várias versões em vinil, porque estes dois primeiros discos, pela primeira vez saíram em vinil e praticamente esgotou, e foram fãs de várias partes do mundo, ou seja, tudo isso é um reflexo de que as pessoas, os fãs, também foram crescendo, amadurecendo e se calhar hoje em dia não ouvem apenas heavy metal, ou gótico, mas, para mim, é sinónimo de que um grupo português, de Vila Nova de Gaia, acompanhou-os a vida toda, muito provavelmente, porque, e isto é comportamental, humano e visual, houve algum momento da vida pelo qual eles passaram em que a música dos Heavenwood foi companheira deles, ou num momento muito bom, ou num momento muito mau. Aliás, eu digo isto com conhecimento de causa, porque eu às vezes recebo mensagens ou e-mails de fãs dos países mais dispares, desde o Iémen, do Qatar, dos Estados Unidos, a comentarem isso, ou a mandarem uma fotografia, ou a mandarem-me vídeos a conduzir e a ouvir. Isto, para mim, é mais importante do que tudo o resto, porque significa que a alma da banda entrou dentro deles e não saiu, não foi nada efémero, nem passageiro. Hoje em dia, é algo extremamente difícil de conseguir, provavelmente com este disco novo, será mais fácil, porque temos todos estes 30 anos de lançamentos, de músicas e de obras e, provavelmente, a geração dos 70’s até às mais recentes vão escutar, ouvir e prestar mais atenção. Eu penso também que as pessoas, nos dias de hoje, têm saudades disso. Relativamente à Mighty Music, neste momento há um processo, relativamente ao lançamento do disco. Vão sair três singles primeiro, com três videoclipes e depois o disco sai a meio do ano. Existe uma distribuição mundial, em vários formatos, LP, CD e digital. Para nós, o mercado nórdico, o escandinavo nórdico, não só no rock e no heavy metal, talvez mesmo nos outros, é um dos mercados mais fortes a nível mundial, porque os escandinavos, os nórdicos, eles consomem imensa música e, em termos de bandas, o governo sempre ajudou, desde cedo, os artistas nórdicos, com apoios, para eles criarem bandas, tocar, lançar e exportar e o que é certo é que isso funcionou. Existe o objetivo, também, de tocar lá fora e há o interesse, também, em fazer uma tour ao nível europeu, isto também fruto de um acordo com uma agência norueguesa e, também, ir a países da América do Sul, onde temos vários fãs. Portanto, acredito que tem tudo para correr bem, dentro da realidade atual.
Acredita que Vila Nova de Gaia e o país valorizam o trabalho desenvolvido pelos Heavenwood ou é mais fácil obter esse reconhecimento lá fora?
É mais fácil lá fora. Os cidadãos de Vila Nova de Gaia que apreciam este género de música conhecem e sabem quem sou. Agora, se falarmos a nível institucional, como estava a dar o exemplo dos países nórdicos, nem para lá caminha, nunca. Aliás, esta empreitada toda, desde 1996, com o lançamento do primeiro disco, até agora, tivemos sempre o apoio e o investimento de países estrangeiros e, independentemente disso, nunca deixamos de ser e de ter orgulho de sermos gaienses e portugueses, mas acaba por ser um sentimento agridoce, porque eu não censuro a falta de apoio a coisas que não estejam bem estruturadas, agora, tudo o que é, efetivamente, independentemente de ser um projeto artístico, desportivo ou algo que represente a cultura de uma região, eu penso que deve ser suportado de forma sustentada. Tudo o que for sustentado, eu sou apologista de que deve ser apoiado e justificado, porque isso irá ajudar nos paralelismos económicos associados ao desenvolvimento da região, como o turismo, porque as pessoas depois querem vir visitar a localidade dos artistas. Depois, há uma outra coisa que é impagável, que é o facto de o nome da região ser reconhecido em todo o mundo.
O que pretende transmitir através da música?
Se a mesma servir de introspeção e uma espécie de luz para quem a esteja a ouvir ou a ler as letras, que possa ser também um espelho, mas não enquanto julgamento, mais como reflexão e introspeção, porque tudo o que é abordado nas letras, é algo que é transversal a todos nós, porque existem, digamos, sentimentos e experiências e momentos passados, que todos nós acabámos já por experienciar, mas, acima de tudo, é isso, é quase como se fosse um espelho.
Passados 30 anos, quais são as perspetivas para o futuro?
Continuar a manter a base de fãs, sem perder a base que tinha e, acima de tudo, sentir que as pessoas estão contentes e orgulhosas do que os Heavenwood têm feito e do que estão a fazer.
Existem projetos em carteira, para além do lançamento do novo disco?
Existirá a fase promocional, tentarei ir ao máximo número de regiões portuguesas, depois existe a questão dos espetáculos lá fora, que estão a ser preparados. Ainda não está decidido, mas muito provavelmente todo este legado vai resultar um livro biográfico. Bastantes fãs têm pedido isso e também é particular, porque passaram por nós um cem número de pessoas, ao longo destes 30 anos.
Qual é a mensagem que gostaria de transmitir aos nossos leitores?
Queria agradecer ao Jornal AUDIÊNCIA pela oportunidade, por esta entrevista e desta forma abrir caminho para os leitores que, por regra, não estão habituados a este tipo de música, independentemente da idade, que venham a descobrir e se calhar têm até uma excelente surpresa, relativamente a uma banda de Vila Nova de Gaia, que existe há 30 anos e que, provavelmente, nunca ouviram falar. Uma descoberta.


