Com apenas 17 anos, Henrique Magalhães dos Santos tem vindo a afirmar-se como uma das vozes jovens mais empenhadas na promoção da literacia política em Portugal. Natural da Maia, o estudante contou, em exclusivo ao AUDIÊNCIA, que criou o programa “Henrique, o Político” com o objetivo de explicar temas complexos de forma clara e apelativa, sobretudo para as novas gerações. Entre entrevistas, conteúdos digitais e palestras em escolas, defende uma participação mais informada e crítica dos jovens na vida pública, alertando para os riscos da desinformação nas redes sociais e para a necessidade de reforçar o ensino da cidadania e da ciência política.
Quem é o cidadão Henrique Magalhães dos Santos?
É uma pergunta muito subjetiva. Eu sou um jovem, tenho 17 anos e gosto de fazer aquilo que os jovens fazem. Gosto de passear, do ar livre também e tenho um gosto especial pela política e por interessar os outros por esta temática.
Como e quando surgiu a paixão e o interesse pela política?
Eu não sei a data ao certo, mas eu tinha 9 anos e foi num dia em que o doutor Pedro Passos Coelho veio à Maia, em 2017, e eu estava a sair do Fórum da Maia e acabei por ir lá ter, para ver o que se estava a passar, porque estavam mais de mil pessoas ali com um palco enorme. Na ocasião, acabei por encontrar o vice-presidente da Câmara na altura, que era o António Silva Tiago, atual presidente da Câmara da Maia, e consegui falar com ele e a minha mãe disse-me para eu dizer que havia um terreno perto da casa dos meus avós que estava abandonado, para fazer lá um parque infantil, porque eu já me tinha queixado até sobre o assunto. Eu disse-lhe qual era a rua, disse-lhe o problema e duas semanas depois estava feito. Eu fiquei muito impressionado e pensei o que é isto? E foi aí que surgiu o gosto, porque alguém conseguiu mudar a minha vida e a da comunidade assim, do nada. A partir daí fiquei muito próximo da campanha autárquica do engenheiro Silva Tiago e foi a partir daí que também fui descobrindo, vendo todos os programas políticos por conselho dos meus pais, qual era aquele com o qual me identificava mais. Contudo, o meu projeto é totalmente apartidário.
Sendo ainda estudante, como concilia a vida escolar com esta forte intervenção cívica? Existem desafios?
Há o desafio de faltar às aulas. Por exemplo, quando tenho de ir às escolas é muito difícil, mas a direção da escola e os meus professores até já compreendem, porque eu estou num curso profissional e a minha prova de aptidão profissional no próximo ano será sobre este projeto e, portanto, também tem de haver aqui uma flexibilidade por parte da escola. Depois, eu acho que não é difícil se formos a ver do ponto de vista simples, porque para gravar o programa eu aproveito as tarefas livres que tenho na escola. Não há muito segredo.
Como nasceu a ideia de criar o programa “Henrique, o Político”?
Nasceu uns anos antes, quando eu comecei com um podcast em que só entrevistava políticos e eu tinha um problema é que só entrevistava políticos do partido que eu mais gostava. Depois, comecei a pensar que já não valia a pena, então pensei em fazer um programa sobre política para jovens com pressa, em que eu explicava política, porque tenho gosto pelo ensino e por explicar as coisas. Portanto, comecei a disparar esta minha ideia para tudo o que era órgãos de comunicação social e houve um canal que aceitou. Contudo, o diretor, no dia em que eu me reuni com ele disse que o programa se iria chamar “Henrique, o Político”, pelo que foi assim que ficou o nome.
Que tipo de conteúdo procura abordar e como escolhe os temas?
Depende muito, pois podem ser temas que estejam em alta. Por exemplo, há um tempo em que é o Orçamento de Estado que está em alta, pelo que em outubro ou novembro é sempre esse o tema e, portanto, vou à rua perceber o que é que os jovens sabem sobre o Orçamento de Estado e depois tanto explicar. Nesta fase agora, estou um bocado mais parado, há cerca de um ano, uma vez que estou a preparar os próximos episódios do “Enrique, o Político”. Também, tem sido difícil procurar temas, por isso mesmo, porque os assuntos que já abordei estão em alta outra vez, portanto, é sempre uma repescagem de alguma coisa que possa acontecer.
Qual tem sido o feedback do público, especialmente dos mais jovens?
As redes sociais são uma coisa muito difícil de lidar. Eu percebi, a certa altura, que não estava a conseguir chegar ao público que eu queria. Então, tive de criar uma segmentação de conteúdos específica, uma coisa mais informal, para além do programa, porque o programa chegava lá, só que o programa dava a “credibilidade” àquilo que eu depois faria num TikTok ou Instagram em Reels. Então, o que eu fiz foi pegar nos temas, num vídeo mais viral, que tenha acontecido sobre um determinado assunto, e depois explicar. Por exemplo, na altura das eleições legislativas, a 18 de maio, houve um rapaz que publicou um vídeo a questionar a razão pela qual o boletim de voto da Angie Costa, que é uma influencer, tem o PAN e o meu não tem. E eu expliquei que é por ciclos eleitorais, ela está num ciclo eleitoral diferente do dele e foi um vídeo que naturalmente explodiu. Então, foi a partir daí que eu percebi que se eu fizer assim, consigo chegar ao público que eu quero. As pessoas conhecem, às vezes, quando vou às escolas dizem que já viram vídeos meus, portanto, é um sinal de que está a chegar aos jovens, mas o feedback também dos mais velhos é que está a correr bem, pelo que é muito positivo.
Sente que o formato televisivo continua a ser eficaz para chegar às novas gerações?
Os programas televisivos e a televisão não têm eficácia nos jovens, porque eles não veem televisão. Eu vejo todos os dias, mas eu gosto de ver notícias, tenho esse gosto, e se calhar, como eu, há muitos outros, só que a maioria passa o tempo todo a fazer scroll nas redes sociais e isso é um problema da minha geração, que prefere ver as notícias pelas redes sociais e é muito facilmente manipulada.
Há alguma entrevista ou episódio que o tenha marcado particularmente?
Acho que todos são iguais, porque eu sempre dei ao programa o máximo de mim. Houve vários momentos deste projeto, porque o projeto não tem só o programa, também tem as idas diretas às escolas, que foi outra forma que eu arranjei. Mas, das idas às escolas, marco uma que foi à escola onde eu cresci, que foi a primeira que eu fiz, que me acolheu para fazer isto e gostei imenso, porque as pessoas conhecem-me todas e foi muito giro dar uma aula aos meninos mais pequenos.
Na sua opinião, porque é que muitos jovens ainda veem a política como algo complexo, chato e desinteressante?
É uma boa pergunta, porque eu faço sempre essa pergunta quando vou às escolas. O tema da palestra é sempre “A política é uma chatice?” e eu peço-lhes sempre, no final, que me digam o porquê de acharem uma chatice ou não. Muitos dizem que a culpa é dos políticos, não da política em si. A classe política está muito desgastada, cada vez mais há jovens políticos que entram e já se veem com o “tacho”, pode-se dizer assim, ou olhamos para o político e dizemos que “é mais um gamar”. Estes tipos de termos, também muito polarizados, são muito tendenciosos e nós não podemos meter toda a gente no mesmo saco. Um faz, mas não significa que os outros também façam e há uma coisa que as sociedades devem ter, que é a oportunidade e não podemos rotular as pessoas por aquilo que aparentam ser. Isto dá-se em filosofia, que é parte da oportunidade e do Estado como é que deve intervir. Mas, é interessante, porque os jovens têm sempre essa ideia, e lá está, voltamos outra vez às redes sociais, é sempre pelas redes sociais que veem as coisas, é impressionante.
A seu ver, onde é que está o problema?
É uma boa pergunta. Eu coloco o problema em vários sítios, mas acho que está nos próprios jovens, pois eu sempre ouvi que a mudança começa em nós. Isto não é um sinal de mudança, mas se as pessoas querem realmente “opinar” devem ter um mínimo de conhecimento, não é opinar, porque viram 30 segundos de um vídeo e já são experts em economia, ou porque viram um minuto sobre política internacional que já sabem o que é que se passa entre a Rússia e a Ucrânia. Portanto, é importante estarmos informados e sabermos sobre as coisas, porque se nós não soubermos não podemos opinar.
Como já referiu anteriormente, também dá palestras em escolas. Qual é a relevância e a recetividade?
Eu acredito que os alunos ficam a perceber alguma coisa e é esse o intuito, sendo que acabam por, também, compreender um pouco a política, porque começamos sempre do local, para o nacional e, depois, internacional e vamos passando sempre pela Constituição e há sempre um jogo, porque eu acho que a educação deve ser feita assim. Nós não podemos estar amarrados numa sala, quietos, com o professor à frente, que nos debita a matéria, eu próprio não gosto quando me debitam a matéria pois gosto de mexer nas coisas e eu acho que é uma coisa que tem de mudar nas escolas e na educação. A meu ver, é importante. É muito difícil uma escola aceitar que eu vá, porque tem sempre o medo de eu politizar os alunos para um determinado partido ou ideologia política, há sempre esse receio. Mas, quem aceita, que eu à primeira vez gratifico, à segunda já acho que é tolice, porque não sei se gostaram ou não, mas é muito interessante, porque acabam por perceber que não é nada daquilo que eles estavam à espera e até supera as expectativas e por isso é que, por exemplo, nos últimos dois anos eu fui a mais de 30 escolas, não é muito, mas aqui no distrito do Porto já são imensas.
Acredita que as escolas podem ser verdadeiros motores de promoção da cidadania ativa?
Sem dúvida, porque a disciplina de cidadania é obrigatória e, portanto, os alunos têm de ter cidadania, mas só falam sobre assuntos como os Direitos Humanos, que foi aquilo que eu tive até o 9º ano, foi a Carta dos Direitos Humanos, as organizações mundiais como a ONU, a NATO, mas nunca se fala, por exemplo, de literacia financeira ou literacia política. Hoje talvez mais, porque os próprios municípios obrigam a que isso aconteça. Mas, ciência política, ou politizar as pessoas, não existe, por isso mesmo, porque todos nós somos tendenciosos e se nós formos professores de cidadania, podemos não ter essa possibilidade de imparcialidade e se eu vou falar sobre a minha opinião, também posso influenciar a opinião dos outros. Portanto, nós temos de ser imparciais e as pessoas de cidadania têm de ser imparciais em tudo.
Faz parte da JSD da Maia. O que o motivou a integrar uma estrutura partidária tão jovem?
Eu militei-me na JSD no dia em que fiz 14 anos. Portanto, há 3 anos. A JSD da Maia, para mim, é a minha “casa”, porque geralmente é sempre da parte da noite que fazemos as reuniões e temos a nossa parte ativa. Mas, parei um pouco nos últimos 6 meses, durante os quais não tenho estado tão ativo, porque decidi que esta nova fase deve ter um pouco mais de imparcialidade. Tanto é que houve eleições na Comissão Política e eu abstive-me da situação. O que me levou a integrar foi este gosto que nasceu aqui com o presidente da Câmara e o ter apoiado em várias campanhas autárquicas, duas até à data. Militei-me e construímos aqui um caminho juntos. Acho que tem sido interessante também.
A seu ver, a participação política dos jovens está a crescer, ou ainda estamos longe de uma verdadeira mobilização?
Eu acho que tem aumentado. Portanto, a juventude que mais cresceu foi a Juventude Popular. E isso também me leva a pensar, como é que eles fizeram 14 mil militantes num ano? Qual é a ideia que os jovens têm ao verem um partido, eu não queria usar esta expressão, mas “morto”, a quererem integrá-lo e a fazerem parte? Aliás, aqui na Maia vai acontecer o Congresso Nacional da Juventude Popular, no TECMAIA e são esperadas mais de 2 mil pessoas. Portanto, eu acho que os jovens estão a participar mais, a minha geração participa mais, mas eu acho que deveria participar ainda mais, por isso mesmo, porque se nós vamos do 0 ao 10 já é um crescimento exponencial, mas se nós formos do 0 ao 80 já é excelente.
Que medidas poderiam ser implementadas para envolver mais jovens na vida política?
Os jovens participam mais, mas preferem abster-se de se militarem num partido. Medidas: ciência política na escola. Eu acho que vai muito por aí, porque se nós contactarmos diretamente com o tema, vamos sair da escola, quando acabarmos o secundário, bem preparados para a vida adulta, porque a vida adulta é isto mesmo, é ter participação cívica também.
Considera que as redes sociais ajudam ou prejudicam o debate político entre os jovens?
A comunicação política em Portugal ainda não chegou ao nível do Brasil. O nível do Brasil é um nível muito mais acentuado nesse aspeto, mas eu acho que nós estamos a começar a construir um caminho de comunicação política saudável, só que até lá vai ser um período muito perigoso, porque nas redes sociais, em 10 segundos nós metemos uma coisa e já está completamente difamada, podemos dizer assim. Por exemplo, nós estamos hoje a gravar esta notícia e ontem, isto também é um erro grave do gabinete do primeiro-ministro, mas o facto do primeiro-ministro, depois de uma operação Páscoa, estar sem cinto num vídeo, isto não poderia ter saído de maneira nenhum, porque é comunicação política e não foi bem feita e depois isso dá azo a que surjam títulos e letras grandes, que é aquilo que as pessoas mais leem, são as letras grandes, que podem influenciar. Ainda no outro dia também vi uma notícia do “Expresso”, isto sendo muito breve, sobre a habitação, com o título, “Desde que Luís Montenegro tomou posse, preço das casas ainda não parou de aumentar”, mas qual é a culpa do primeiro-ministro nesse tema? Esta notícia é tendenciosa, porque é verdade que tomou posse há dois anos, mas em dois anos os preços das casas subiram e a culpa é do facto de ele ter tomado posse há dois anos como primeiro-ministro? Esta notícia tem ali um gosto de manipulação, porque o facto de terem posto as redas até 2300 euros pode ter feito com que o arrendamento subisse. Agora, dizer que o preço da habitação subiu e dar a entender que é culpa do primeiro-ministro. Portanto, acho que as redes sociais são, lá está, uma moeda que tem uma face boa, que é o facto de nós podermos ter acesso à informação muito rapidamente, e uma face má que é tentarmos perceber se essa informação é verdadeira ou falta e é por isso que já existem aqueles
será que essa informação, para encerrá-la rapidamente é verdadeira ou falsa, e por isso é que já existem aqueles fact-checks.
Que mudanças gostaria de ver na forma como a política é ensinada e debatida em Portugal?
Gostava que fosse mais serena, como era talvez há 10 anos, em Portugal. Eu, no outro dia, fui à Assembleia da República ver um debate e fiquei incrédulo, nem era daqueles debates muito acesos, era um debate sobre a comparticipação do Estado nas viagens para o continente de quem é dos Açores e da Madeira e foi um escândalo. O facto de haver deputados que gritavam, eu não quero equiparar isto a um circo, porque não é, mas as pessoas têm de ser mais civilizadas, porque estão a representar não só o distrito que representam, mas também o país inteiro, porque quando se entra no parlamento representa-se o país inteiro.
Imagina o seu futuro ligado à política?
Não e estou a ser sincero. Posso lhe dizer que se acontecer gostava, mas eu gostava mais de ser professor, porque tenho um gosto pelo ensino e quero ser professor de cidadania por isso mesmo. Não vejo a eventualidade de ter um futuro ligado à política, contudo se acontecer gostava imenso, porque lá está, a política é a arte de melhorar a vida dos outros e quem não quer melhorar a vida dos outros? Portanto, eu acho que é muito isso, mas, no futuro, gostava de ser professor.
Quais são os seus maiores sonhos?
Viver para sempre aqui, na Maia, que é a minha terra, e não ter de emigrar. Gostava de não emigrar, nem ter de procurar outro rumo profissional longe daqui, porque todos nós temos aquele prender à nossa terra e eu sou muito preso à minha.
Que mensagem gostaria de transmitir aos nossos leitores?
Eu acho que, acima de tudo, as pessoas devem ser informadas, politizar-se nesse aspeto, mas saberem o que se está a passar lá fora, porque senão parece que vivemos num reality show, em que estamos fechados dentro de uma caixa e não sabemos nada. Por exemplo, eu no outro dia, na Qualifica, estava um cartão do primeiro-ministro e os jovens passavam e questionavam quem era aquele senhor. Eu acho que, no mínimo, as pessoas deviam de ser quem nos governa, porque se nós nos informarmos sobre quem nos governa, é muito mais fácil também exigirmos deles. Não podemos exigir cegamente as coisas, sem sabermos quem são as pessoas que realmente governam.


