INCONGRUÊNCIAS DUMA GUERRA

Numa qualquer nação civilizada, o serviço militar obrigatório tem sempre duas vertentes sociais, de paz ou de beligerância e na altura a que o texto respeita, Portugal não fugia à regra. Este apontamento remete-nos para Moçambique, já que não posso alhear-me do que de histórico essa realidade me marcou, uma vez que fala da fase inicial da minha campanha moçambicana, ocorrida entre Março de 1967 e o mês homólogo de 1969, ou seja, dois anos depois de termos desembarcado no porto de Nacala, local mais próximo do primeiro aquartelamento em que nos fixámos.

Os primeiros seis meses de campanha da CC 1654 (Bat. 1.906) a que eu estava vinculado, foram vividos em Namicunde, pequeno povoado pertencente ao Posto Administrativo de Metarica, servido pela na ligação rodoviária que liga Cuamba (antiga Nova Freixo) a Marrupa, em pleno “coração” da então Província do Niassa. Trata-se de uma zona climatérica onde em certo período do ano, nos fazia recordar o nosso temperado mediterrânico, constituíram uma fase de aprendizagem na relação a criar com a população nativa, sempre importante para quem não queria ser visto como “invasor”! Era também uma zona onde a cultura do algodão em rama assumia importância vital para a subsistência dos agricultores locais e das suas famílias. No entanto, à excepção de um ataque que visou o 2º Pelotão, liderado pelo alferes miliciano Daniel Lourenço (infelizmente já não está entre nós!), durante um patrulhamento na zona Muoco – Revia, sem consequências de maior para a integridade física dos militares envolvidos no patrulhamento, o período temporal em que aí permanecemos não nos causou grandes sobressaltos em termos de segurança, ainda que a Companhia de Metarica, a cerca de 20 Km dali, antes da nossa chegada, tenha sido alvo de acções violentas da guerrilha, que deixaram bastante maltratado o cantineiro Rufino, dos poucos portugueses das redondezas e que, por via desse ataque, teve que sofrer amputação de um dos braços.

Missão a quanto obrigas!

Como já atrás referi, a dada altura da comissão, o aquartelamento de Namicunde recebeu a visita de vários elementos do Comando Territorial de Moçambique, sob a chefia do General António Augusto dos Santos, por sinal um transmontano de nascimento, embora tenha saído da nossa terra muito novo. Ao chegar à porta de armas, depois da respetiva apresentação protocolar, o Senhor General questionou a sentinela, o camarada Octávio Coutinho, transmontano da cidade de Chaves, perguntando-lhe: Então de onde és tu meu rapaz? Sou de Chaves meu General, respondeu prontamente o sentinela (pertencia ao 1º pelotão, tal como eu), conhecido por Espanhol, pelo facto de ter contraído matrimónio com uma senhora da cidade fronteiriça de Verin: Boa terra, porque eu também sou de lá – replicou o senhor General. Perante este cenário, confesso que quando ouvi o camarada contar a peripécia na minha presença, fiquei um tanto perplexo, desapontado e até triste, uma vez que eu conhecia perfeitamente, tanto as origens do ilustre oficial, como a maior parte dos seus familiares directos. Independentemente do mérito do seu Estatuto, que o Senhor General António dos Santos era um militar de carreira com elevada responsabilidade no plano de segurança do território isso era inegável. Ainda assim, a forma como tudo se processou deixou-me triste e desapontado, embora compreenda um pouco uma situação que não era de todo cómoda. No entanto, ainda assim, procurei desvalorizar dentro de mim o que se tinha passado. Considerando que a vida militar numa qualquer nação do globo, tem sempre duas vertentes sociais, de paz ou de beligerância (se for caso disso) e Portugal, como nação mais antiga da velha Europa, não foge à regra, embora conhecidos os ventos de liberdade que o 25 de Abril de 1974 provocaram na ribalta do “velho continente” renovado. Este pequeno apontamento alusivo a Moçambique, já que não posso alhear-me do que de histórico essa realidade nos trouxe, fala da fase inicial da minha campanha moçambicana, ocorrida entre o inicio de Março de 1967 e o seu homólogo de 1969, data em que o Niassa nos recolheu dois anos depois no mesmo porto de Nacala, local mais próximo do primeiro aquartelamento em que acentamos arraiáis, mas cujos ventos nos anunciavam já o princípio do regresso do Batalhão 1.906 à “casa mãe”, tal como as mesmas companhias, ao ponto de partida que havíamos experimentado anteriormente, dois anos antes. Em face que atrás expus, a situação levou-me a questionar interiormente: Porque terá o Senhor General procedido assim ? Confesso que não encontrei razão plausível para o sucedido, a não ser, talvez, pelo facto do Senhor General Santos ter deixado a terra onde nasceu bastante novo e não ter já dentro de si, “raízes” suficientemente viçosas que pudessem recordar-lhe a sua meninice. Por isso mesmo, sempre que me lembro dessa peripécia, a interrogação que havia feito anteriormente permanece viva, ao ponto de interpretar a atitude como uma forma muito estranha de afirmar as suas origens, renegando-as. Hoje, porém, à distância temporal de tantos anos (década de sessenta do século XX), todos nós portugueses, vivíamos numa realidade de guerra e não de paz, ainda que a CC 1.654 a que pertenci não tenha sido das mais maltratadas em termos operacionais embora alguns camaradas nossos tenham vertido o seu sangue no “teatro de operações, realidade que ainda hoje lamentamos, em face dos camaradas que não puderam ver a alegria do regresso à casa Mãe.