António da Costa Neves nasceu em 1945, em Grândola e é licenciado em História, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. A paixão pela literatura surgiu ainda durante a juventude, mas só se entregou à escrita de ficção em 2006, após a reforma. Foi nesse mesmo ano que escreveu as suas primeiras três obras. Percebeu cedo que para ser publicado teria de ganhar um prémio, por isso, pegou nos três livros e concorreu a três prémios. Ganhou-os todos! Dezasseis anos volvidos e António da Costa Neves tem já catorze livros publicados e quinze prémios literários.

Como alentejano orgulhoso que é, a lenda e a história do conquistador de Évora faziam parte do seu imaginário, e foi assim, que surgiu o primeiro impulso para escrever “O Sem Pavor”, livro que pertence à coleção “A História de Portugal em romances”, da editora Saída de Emergência. Pesquisou muito e leu tudo o que encontrou sobre o também conhecido como “o cão do Giraldo”. O livro recua a 1146, onde o jovem Geraldo, aprendiz dos copistas do convento de Santa Cruz, deita fogo ao Scriptorium num ato de rebeldia, sendo obrigado a fugir à ira do recentemente coroado D. Afonso Henriques. O cavaleiro e letrado, Geraldo Sem Pavor, assimila a cultura muçulmana, mas mantém-se leal ao rei português, agindo assim como uma espécie de agente duplo, na esperança de receber o perdão. A história de Geraldo Geraldes, O Sem Pavor, está repleta de estratégia militar, intriga política e batalhas sangrentas.

 

 

É licenciado em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. O que o conduziu ao mundo da escrita?

Sempre gostei de literatura: prosa, poesia, reportagem e até ensaio. Quando era jovem, gostava particularmente de livros de aventuras. Devo ter lido todos os livros do Emídio Salgari até aos meus doze ou treze anos. Depois nunca mais parei, seguiram-se as fases dos livros de cowboys, dos policiais e dos livros de amor. Contudo, durante muitos anos pensava que só tinha algum jeito para a poesia, e fui fazendo alguns poemas pela vida fora, que publicava aqui e ali, em jornais e revistas de pouca expressão. A ficção só aconteceu aos 60 anos, quando me reformei. Quase sem me dar conta, comecei a escrever uma história que conjugava alguns aspetos da minha experiência na Guerra Colonial com um episódio incomum que me tinham contado, e nasceu o “Mataram o Chefe de Posto”. Escrevi-o em pouco mais de dois meses, e fiquei tão satisfeito que iniciei logo outro, “Nem por Sonhos”, a minha primeira história passada no Alentejo. Também neste caso não demorei mais de dois meses. Ora isto aconteceu em 2006, e até ao final do ano ainda escrevi um outro romance, “Arquivo Morto”, que teve duas edições, a segunda com o título “Mea Culpa!”. Como não conhecia ninguém na edição, nem tinha padrinhos que me recomendassem, entendi que só através de um prémio literário poderia algum dia aspirar a ser publicado. Mandei então os três originais para três concursos diferentes. Acabei por ganhar os três prémios: Prémio Cidade de Almada – 2006; Prémio Revelação Manuel Teixeira Gomes – 2006/2007 e Prémio Literário Paul Harris – 2007. Depois deste “sucesso” imediato, nunca mais parei. Tenho catorze livros publicados e quinze prémios literários, o último é “O Sem Pavor”, e já vem aí o “Safra Poética”. Tudo isto em dezasseis anos, o que me faz quase um profissional da escrita.

 

O que o levou a escrever romances históricos. Como faz esta união entre realidade e ficção?

Essa foi uma faceta que me foi sendo inculcada pelo meu editor, o Luís Corte Real, da Saída de Emergência, que me está constantemente a lançar desafios. O romance histórico resulta da conjugação da historiografia com a ficção. No meu caso, faço um esforço enorme para estar bem documentado, o que me leva a uma preparação muito cuidada. Mas também ao nível da linguagem. Quando escrevi “Adamastor”, para além de “Os Lusíadas”, obriguei-me a ler “Peregrinação”, “O Soldado Prático”, a “História Trágico-Marítima”, o “Auto da Índia” e algumas das Décadas, nomeadamente as de Diogo do Couto. Levo muito mais tempo a preparar-me do que a escrever. Quanto à aliança entre a realidade histórica e a ficção, para o casamento ser perfeito, segundo a minha experiência e a minha perspetiva, há duas maneiras, de acordo com o tipo de abordagem do autor. A primeira, quando a ficção está ao serviço da realidade, aí entendo que à ficção só lhe cabe preencher os espaços vazios, mediante as necessárias aproximações por verossimilhança; a segunda, em que a realidade histórica é apenas o pano de fundo da ficção que queremos contar, neste caso os factos históricos incontornáveis servem apenas para balizar e dar consistência à narrativa. Consoante os casos, penso que já trabalhei com ambas abordagens. “O Sem Pavor” está claramente inserido no primeiro caso, e talvez por isso, só uma única personagem é ficcionada.

 

O seu livro “O Sem Pavor” chegou, recentemente, ao Grupo Saída de Emergência. O que podem os leitores esperar desta obra que faz parte da coleção “A História de Portugal em romances”?

“O Sem Pavor” é mais um desses casos em que a ideia do romance resultou duma conversa com o meu editor. Como sou alentejano, a história do conquistador de Évora sempre fez parte do meu imaginário. E foi com prazer que iniciei as primeiras abordagens a um personagem que só conhecia como lenda. Numa primeira fase li tudo o que apanhei nas bibliotecas e na net. Incluindo ensaios, estudos, colóquios, dissertações de mestrado e teses de doutoramento. Tive pena de não saber ler árabe, mas li excertos traduzidos das crónicas almóadas, em português e castelhano, que falam de Ibn Guerando, ou “o cão do Giraldo”, como também lhe chamavam as populações berberes e andaluzas. Desde logo, saltou-me à vista, até pela correspondência que Geraldo trocava com D. Afonso Henriques, inclusive desde o Norte de África, que ele era um indivíduo letrado. E só assim se explica a clara preponderância que tinha sobre os seus homens. E foi sobre essa capacidade de saber ler e escrever que incidi, desde o início, a abordagem que reelaboro sobre o personagem. Um indivíduo que, nas poucas horas que antecedem a sua morte, é capaz de refletir sobre o seu passado e oferecer-nos o contraponto ficcionado duma narrativa histórica que flui em vários planos – independência, consolidação e reconhecimento do reino, reconquista, expansão e povoamento dos territórios, resistência contra os leoneses, os aftácidas e os almóadas – e em várias direções: Coimbra, Sevilha, Marraquexe, Badajoz, Leon, Braga, Santiago de Compostela, Roma. Mas também a relação atribulada com um rei de coração duro, que se nega a perdoá-lo, e que ao oferecer-lhe a alcaidaria de Évora, se justifica porque uma terra conquistada por ladrões só por ladrões pode ser governada.

 

Tem várias obras premiadas. A obra “O Sem Pavor” recebeu o Prémio Literário Cidade de Almada 2020. O que sentiu quando recebeu esta distinção? Qual é a relevância?

“O Sem Pavor”, foi o meu segundo Prémio Literário Cidade de Almada. O primeiro foi o já atrás referido “Mataram o Chefe de Posto”, em 2006. Ganhá-lo pela segunda vez foi muito gratificante e, quase me atrevo a dizer, o coroar de década e meia de escrita. E, no entanto, este é o meu quarto prémio ganho em Almada porque, também por duas vezes, tanto em ficção como em poesia, já tinha ganho o Prémio de Ficção e Poesia de Almada, um outro prémio literário que a edilidade almadense dedica, neste caso, aos autores que por naturalidade, residência ou trabalho tenham ligação ao concelho. Aliás, os anos de 2019, 2020 e 2021 (os anos da peste) foram-me particularmente fecundos em termos de escrita, de prémios e de edições. Pela primeira vez publiquei duas coletâneas de contos e o meu segundo livro de poesia (Safra Poética) e vi um dos meus livros receber dois prémios literários, neste caso a coletânea “Contos da Serra e da Planície”, Prémio Literário Alves Redol – 2019 e Prémio Literário Fialho de Almeida – 2020, além do Prémio Literário Miguel Torga/Cidade de Coimbra – 2020, com “Alma Alentejana e Outras Histórias”.

 

Que sonhos ainda lhe faltam concretizar no mundo da literatura?

Penso sempre, quando acabo um livro, que este é o último. Quando comecei e escrevi aqueles três livros, quase de enxurrada, e depois os vi publicados, só pensei que aquilo tinha sido um acaso e uma experiência sem continuidade. Os amigos começaram a chamar-me “escritor” e, nalguns colóquios para que fui convidado, assim se me referiam. E eu pensei que escritor era escrever, pelo menos, uma dezena de livros. A verdade é que já escrevi muito mais do que isso e ainda cá estou. Acabei de escrever uma nova coletânea de contos, “Contos Desconfinados”, um novo livro de poesia, “Um Poema por Dia”, e um novo romance, “Para Lá do Sol Posto”, sobre o Alentejo mais profundo entre o fim dos Governos de Afonso Costa e o momento imediatamente anterior ao início do consulado de Salazar. Nele procuro conjugar a decadência orgânica e moral da Primeira República com os primeiros passos do Partido Comunista Português nos campos do Alentejo e a inevitabilidade de um regime mais forte, militar ou ditatorial, com capacidade para regenerar Portugal. Tudo muito bem temperado pelo conservadorismo atávico do bom povo alentejano, que raramente se deixa enganar com duas cantigas.

 

Tem algum livro em carteira para sair brevemente? Sobre que temas ainda gostava de escrever?

Agora ando a pensar no que vou fazer, estou em pousio, como se diz na minha terra, e estou dividido entre um romance histórico que aborde a perda da independência e a figura trágica e algo quixotesca de D. António Prior do Crato – até já tem nome: 1580 – e um novo romance sobre o Alentejo, onde retomaria um personagem com o qual já trabalhei em dois contos e que penso que tem potencial suficiente para se autonomizar e me ajudar a satirizar os tempos atuais. Seria o meu segundo romance, claramente de costumes, depois de “Um Certo Incerto Alentejo”, Prémio Literário Joaquim Mestre – 2018.