Considerado um dos principais acontecimentos musicais realizados no território nacional, o festival Marés Vivas aconteceu pela primeira vez em 1998 na cidade do Porto, transitando no ano seguinte para Vila Nova de Gaia, mantendo-se como um certame de bandas portuguesas e percorrendo diversas freguesias da orla marítima e fluvial do concelho durante vários fins de semana. No ano 2000, manteve o mesmo perfil doméstico, optando, no entanto, pela sua concentração em apenas dois locais gaienses durante quatro noite. Mas eis que, em 2001 (ano de autárquicas!…), apresentou-se mais ambicioso, juntando às bandas nacionais alguns destacados grupos de além-fronteiras. E quando tudo parecia indicar o seu fortalecimento, o certame entrou numa fase de hibernação que durou cinco longos anos.
O renascimento do Marés Vivas aconteceria em 2007, depois de inexplicáveis avanços e recuos, tendo por palco a praia do Areinho de Oliveira do Douro. Após este regresso tímido, que pôs fim a uma pausa de cinco anos, o festival voltou no ano seguinte em dose tripla, enchendo por completo a praia de Cabedelo, que viria a ser palco do certame durante dez gloriosos anos, apesar das críticas de grupos ambientalistas, que contestaram a escolha do lugar por temerem consequências nefastas na Reserva Natural Local do Estuário do Douro. A contestação dos ambientalistas foi ainda maior quando, em 2016, a autarquia, face à construção de um conjunto de edifícios nos terrenos da praia do Cabedelo, tomou a decisão de mudar o festival para um Parque Urbano projetado para o Vale de São Paio.
Esta decisão motivou uma providência cautelar apresentada pela Quercus, que acabou por determinar a suspensão das obras de preparação do terreno para o festival e atrasos na primeira fase de preparação do projetado Parque Urbano para Canidelo, bem como a denuncia do Partido Pessoas-Animais-Natureza (PAN) ao Ministério Público da realização de operações de limpeza de terrenos alegadamente à margem das leis, que terão causado danos significativos e irreparáveis a animais e espécies protegidas. Em resultado desta polémica, o município desistiu da ideia inicial e acabou por optar por outros terrenos, que não enfermavam dos mesmos problemas ambientais, mas requeriam bastantes cuidados.
Atendendo à grande proximidade destes terrenos com a Reserva Natural Local do Estuário do Douro, refúgio ornitológico criado em 2006 com vista à segurança de inúmeras aves que passam, durante todo o ano, por aquele lugar para nidificarem e recuperarem forças, urgia tomar medidas que evitassem causar danos de grande monta às aves protegidas. Mas foram extremamente poucas as barreiras acústicas instaladas e muito deficiente a escolha da localização dos palcos e dos PA (montagem e direcionamento das colunas de som) dos vários artistas que integraram o cartaz do festival Marés Vivas, entre 2016 e 2019, com realização nos terrenos da antiga Seca do Bacalhau, por onde passavam facilmente milhares de decibéis.
Mas a partir de 2020, com a epidemia da COVID’19, os “habitantes” do refúgio ornitológico do Estuário do Douro livraram-se de vez do massacre a que estavam a ser sujeitos, contrastando com a tristeza dos festivaleiros que durante dois anos ficaram “órfãos” de um evento musical imperdível que acabariam por ver renascer de forma sustentada e sem riscos de danos ambientais, nos terrenos do antigo Parque de Campismo da Madalena, ocupando um recinto cinco vezes maior do que o anterior e oferecendo melhores condições de conforto, segurança e acessibilidade para os públicos, onde renasceu reforçado, com melhores condições logísticas e maior ambição, assumindo-se definitivamente como uma experiência para todos os sentidos, unindo música, natureza e celebração num cenário único.
E eis que o atual presidente da autarquia de Gaia, Luís Filipe Menezes, durante a campanha eleitoral, decide anunciar que o festival seria deslocalizado da freguesia da Madalena para o “interior do município”, que se descobriu agora ser junto à CREP [Circular Regional Exterior do Porto], lugar onde curiosamente parece que vai nascer num futuro próximo uma “nova cidade” de 300 hectares, “com várias tipologias de fogos, não apenas de habitação a custos controlados”, e um parque de entretenimento urbano com outros oito hectares, projeto que foi muito recentemente objeto de um memorando de entendimento assinado com Fahad Alabdulsalam, representante da Câmara da Província Oriental da Arábia Saudita, estabelecendo uma parceria estratégica de três anos focada no planeamento urbano, mobilidade, transformação digital, segurança municipal e gestão de crises, entre outros.
Mas acontece que Luís Filipe Menezes não teve o cuidado de ouvir previamente os promotores do Marés Vivas sobre a eventual deslocalização do evento e o resultado é este: Gaia perdeu um dos mais importantes acontecimentos musicais que decorrem em todo o território nacional! Porém, o autarca de Gaia parece desvalorizar o sucedido: “Partimos para um novo ciclo (…) com a certeza que se tivermos um ano de intervalo ninguém morrerá e que voltaremos ainda mais fortes com uma grande iniciativa. Este ano já garantimos o Air Race e o Port Wine Fest, que vão ter mais de 20 vezes mais público que o falecido festival. E, neste momento, já podemos garantir que vamos ter um S. João diferente e muito melhor, vamos ter animação semanal durante todo o Verão no Jardim do Morro e na Beira Mar e tudo leva a crer que ainda será este ano que teremos o primeiro festival de música no interior do concelho”. Em suma, sem ‘dar o braço a torcer’, Menezes já percebeu o seu disparate!


