Com dois sacos na mão saía da loja com direção ao carro, de cabeça baixa, fazendo do queixo o agasalho do pescoço, porque fazia frio. Era noite, e no local havia fraca iluminação. Preparando-me para abrir a porta ouvi dois apitos de uma carrinha, que circulando na rua frontal ao parque de estacionamento reduziu sua marcha, e acabou por parar completamente, sem o condutor se importar com as outras viaturas que a seguiam. Abriu-se uma janela e alguém gritou-me uns cumprimentos, chamando-me “Ribeira Grande do Corisco”. Aproximei-me uns três passos, novamente a gritaria, e eu então reconheci a voz. Era do José Dinis, um camarada da Ribeira Grande, que é cerca de dois anos mais novo do eu. Cumprimentos para cá, saudações para lá. Na verdade, já não nos encontrávamos há cerca de três anos, sem contar com as visões à distância nos convívios ribeiragrandenses da Nova Inglaterra. Tínhamos muita conversa para pôr em dia, mas infelizmente, nem a ocasião nem o lugar eram apropriados para tal.

O José continua activo, com uma aparência saudável – aquela de terrível e implacável, sem medo de nada nem de ninguém. Mas sempre calmo, como um sacristão em dias de chuva com um enterro para fazer.

Foste à Ribeira Grande este ano? Que não, respondi, chamando-lhe a atenção de que estava empatando o trânsito, pelo que logo soltou estas palavras: “Hão-de esperar, se quiserem… Minha mãe esperou por mim nove meses, e ainda por cima nasceu esta desgraça. Ahahahah…

Depois, já se sabe, sem eu lhe ter pedido, teve de explicar  o facto de me ter reconhecido ao escuro, mascarado de pandemia, dizendo que me reconheceria em qualquer parte, neste e no outro mundo, simplesmente pela forma do meu andar. Fiquei sem saber se isto era bom ou ruim, mas é o que é. Dois apitos fortes de um outro carro voltaram a lembrar que uma linha de trânsito estava obstruída naquela rua. Lá saiu um palavrão da boca do José Dinis, e de uma janela do condutor do veículo que à direita lhe passava saiu uma mão fechada com um dedo esticado em posição vertical. Com isto tive de despedir-me do José, usando as desculpas de estar cheio de frio e ter a esposa à minha espera, deixando-lhe a promessa de à conversa voltarmos.

Com o Dinis de nada se faz uma prosa e de tudo uma conversa, de tal modo que os escravos da inveja chegam a dizer que ele é pior do que as putas, sempre a fazer enredos. Na verdade, o José Dinis e a Saudade andam de mãos dadas. Nas suas palavras, cheias de vida e de açorianidade a saudade transborda e nem sempre chora. É sempre um prazer falar com ele. Há uns anos atrás encontrámo-nos no “Home Depot”, comprando materiais de construção. Como o costume, Ribeira Grande p’ra cima, Ribeira Grande p’ra baixo – uma saudação que acabou em mais de uma hora  de conversa, que eu tentei quebrar várias vezes, mas que só acabou (graças a Deus!) quando ele disse, com aquele sotaque todo ribeiragrandense, que tinha de ir mijar.

Para nivelar-me ao José Dinis falta-me a calma que ele tem, e dele estão longe os minutos contados que eu tenho. A tal falta de tempo que me consome. Mas depois de uma prosa com ele sempre me sinto mais fuseiro, e vejo a saudade sorrir. Enche-me a alma. Porque da maneira que ele relembra as coisas acho que valeu a pena. Tudo valeu a pena, em contraste com Fernando Pessoa, mesmo com alma pequena.

Numa outra ocasião, à vista da quadra natalícia, as saudades derramaram fragmentos de alegria na conversa dos dois amigos. Que as festas não são como as de antigamente, toda a gente sabe; o mesmo dirão as novas gerações, daqui a alguns anos; e a Terra continuará a girar em torno do Sol até um novo desequilíbrio no sistema, dizemos nós. As fases marcantes de cada geração têm diferentes durações, mas o facto da acelaração desenfreada nas mudanças dos nossos usos e costumes verificadas nos últimos cinquenta anos faz-nos pasmar quando viajamos no Tempo às idades da nossa infância. Para o José Dinis, a maior alegria do dia de Natal batia-lhe no peito ao acabar a missa da catequese, quando ia beijar o Menino e recebia uma “malinha” como presente do Deus recém-nascido. Como os outros rapazes de bons ensinamentos, a malinha não se abria até chegar a casa. Era como quase um objecto sagrado. Era um presente directo do Menino Jesus. Enquanto andou na catequese apanhou lá outros dois irmãos, que também levavam para casa as bolsinhas intactas. Eram rapazes muito “bem-ensinados”, como se dizia. A mãe é que abria as malinhas e dividia o conteúdo por todos os seus filhos, que passavam de meia-dúzia, tendo os portadores direito a um quinhão mais razoável. Recordando esta alegria, acrescentou José Dinis a visita ao Presépio do Senhor Prior, que funcionava no Passal. Tal como o narrador desta história, lembra-se perfeitamente do presépio movimentado ter uma manivela em vez de um motor. Por vezes giravam a manivela com muita força e os bonecos andavam tão depressa como nunca se viu ninguém andar daquela maneira nas ilhas dos Açores. Estas expressões na boca do José Dinis provocam risadas. Mesmo que não se queira, temos de rir.

José Dinis recorda-se da primeira árvore de natal que se armou na casa da sua infáncia. Disse ele que era uma “crica” (criptoméria) de três ou quatro galhos, enfeitada com uma dúzia de bexigas (pequenos balões de ar) e dois metros de espiguilha prateada. Só no natal de 1979 a família se deu ao luxo de ter na árvore de natal duas cordas eléctricas de lâmpadas ligadas em série, com bolas vermelas e sinos doirados. Presépio, naquela casa pequena de uma grande família não tinha cabimento. A vizinha todos os anos armava o seu, que quase enchia um quarto da casa. Era a atração da vizinhança, com bonecos de barro da Lagoa e casinhas feitas de papelão colado com goma arábica e pintadas a aguarela.

Ainda segundo o José Dinis, “abençoado” Engenheiro Monteiro, que era o presidente da Câmara naquela altura em que se fez o primeiro presépio na Ribeira Grande ao ar livre. Foi no lugar da piscina – aquela que se foi sem deixar vestígios da sua existência. A gruta grande abrigava a Sagrada Família, e pelo relevo em seu redor, nas pedras e verduras havia pastores, ovelhas e os Magos do Oriente seguindo a estrela. À noite, muito mais bonito por causa da iluminação. Até a piscina estava cheia de água naquele ano. A partir de então todos os natais tiveram presépios ao ar livre na Ribeira Grande. Bonitos. Muito bonitos. Não é para menos, porque bonita só por si é a Ribeira Grande.

A curiosidade fez-me perguntar ao José Dinis se o Velho-do-Natal lhe trazia boas prendas. A resposta veio com uma gargalhada, dizendo: -o caminho para andar. Brincando. Mas, sim. Tinha sempre uma roupa nova para vestir aos domingos, e lembra-se de duas ou três vezes ter tido um jogo de ferramentas de plástico e um carro de corda. Mas era uma alegria! A gente era acordada à meia-noite, ouvia o repique dos sinos da Matriz, comia e bebia, e tinha as coisas que o Velho-do-Natal trazia do Menino Jesus. Sim, naquele tempo quem dava as prendas era o Menino Jesus. O Pai Natal só fazia as entregas. Por incrível que pareça, aos olhos de muitos “Santa Claus” mantém forte competição com Fed-Ex, UPS e Amazon.

Ficando por aqui porque o texto já vai longo, deixo-vos os mais sinceros votos de um bom Natal. Será diferente, todos nós sabemos. Mas Natal é ESPERANÇA. Por isso vamos estar esperançados que 2021 será um ano melhor. Haja saúde.

 

 

 

A saudade ainda canta

Memórias de Portugal

Sem afinar a garganta

Nesta quadra de Natal

 

O Vinho do Porto é nosso

E o da Madeira também.

Com eles eu cantar posso

E dançar como ninguém.

 

O Natal na minha infância

Era rico em mil valores.

Hoje é preso na ganância

D’uns milhares de senhores.

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