Eleita presidente da Junta de Freguesia de Vilar do Paraíso, nas últimas eleições autárquicas, Sara Magalhães iniciou o seu primeiro mandato mandato num contexto exigente, marcado por desafios burocráticos, limitações operacionais e grandes expectativas da população. Com um percurso profundamente ligado à comunidade, ao associativismo e à vida política local, a autarca socialista falou, em entrevista exclusiva ao AUDIÊNCIA, sobre os primeiros meses à frente da Junta, as prioridades sociais, com especial enfoque no combate ao isolamento dos idosos, os projetos estruturantes em curso e a visão gradual e consciente que pretende implementar para o futuro da freguesia. Assegurando que defende uma governação assente na proximidade, na escuta ativa e na responsabilidade na gestão do bem público, a edil sublinhou que “nós estamos ao lado da população”.
Quem é a cidadã Sara Magalhães?
Eu tenho 47 anos, nasci, cresci e continuo a viver na Freguesia de Vilar do Paraíso. Por isso, o meu percurso escolar foi feito por aqui e também na freguesia vizinha de Valadares, que era onde tinha depois a parte de terceiro ciclo e secundário. Estive sempre muito ligada à comunidade, desde novinha, como voluntária nos Jogos Juvenis e na Colónia Balnear. Mais tarde, fiz um percurso mais religioso, mais ligado à catequese e fui catequista durante muitos anos. Também, tenho estado sempre ligada ao movimento associativo e pertenci aos órgãos sociais de uma das coletividades de Vilar do Paraíso. A partir do ano de 2000, tornei-me militante do Partido Socialista e desde aí estive sempre também muito ligada à questão política, primeiro como membro da Assembleia de Freguesia durante muitos anos, aliás na altura estava na oposição, e depois com a agregação de freguesias, de 2013 a 2017, estive no primeiro executivo da agregação da União de Freguesias de Mafamude e Vilar do Paraíso. Passados estes anos, quando soube que íamos ter as freguesias desagregadas, candidatei-me à Junta de Freguesia de Vilar do Paraíso.
O que a levou a tornar-se militante do Partido Socialista?
Eu acho que há aqui influências várias, nomeadamente, uma influência familiar, certamente, e, depois, o facto desta ter sido uma freguesia com uma secção socialista com uma dinâmica muito grande. Eu acho que quando somos mais novos, nós vamos pelos outros, contudo mais tarde, lendo os princípios, lendo os valores que estão associados ao partido, efetivamente sempre me identifiquei com eles. Então achei que faria sentido ser militante.
Como descreve os primeiros meses à frente da Junta de Freguesia de Vilar do Paraíso?
Tem sido um verdadeiro desafio. As dinâmicas da Junta de Freguesia não eram uma questão nova. A questão nova prende-se com a desagregação, processo esse que, sendo novo, traz consigo uma série de questões que, muitas vezes, ou não estão previstas, ou não foram pensadas, ou só acontecem quando estamos a vivê-las, que é exatamente o que está a acontecer. Por isso, os meses de novembro e dezembro passados efetivamente foram marcos muito importantes de vivência de uma nova realidade, que nos trouxe, claro, alguns desafios sérios e também a nossa própria experiência, se calhar, também não era muita e isso levou a que tenha sido desafiante, mas ao mesmo tempo também muito construtivo e muito enriquecedor. Eu acho que, como cidadãos, tem sido tremendamente enriquecedor perceber o que é que a freguesia efetivamente faz em toda a vida da comunidade.
A seu ver, quais foram e serão os principais desafios deste mandato?
Os primeiros desafios foram muito burocráticos e tiveram a ver com uma enorme questão burocrática em cima de todos nós e, em simultâneo, uma freguesia para gerir, contudo, que não podia estar dissociada de todos esses processos. Acredito que, a partir agora de 2026, já temos uma nova fase, por isso temos uma fase em que, mais ou menos, já conseguimos resolver estas questões mais pendentes, agora temos os desafios naturais, ou seja, temos uma realidade territorial, temos de dar resposta a essa realidade e depois vamos vendo os constrangimentos naturais que, por exemplo, têm a ver muitas vezes até com questões também elas naturais, como, chuvas torrenciais e afins que levam a que tudo se deteriore muito mais rápido e nós temos que estar preparados para dar essa resposta. Mas, acima de tudo, eu acho que estando ao lado das pessoas, é a maneira mais simples de conseguirmos chegar aos problemas do dia a dia.
Qual é a sua visão para o futuro da freguesia?
A minha visão é sempre nesta questão muito humana, acima de tudo, porque eu acho que, a partir do momento em que conseguimos, sobretudo, perceber quais as necessidades reais das pessoas e dos locais que temos, porque embora não seja uma freguesia grande, é uma freguesia com especificidades de locais, por isso, percebendo o local, os habitantes do local, quais as primeiras necessidades, eu acho que o maior desafio é exatamente ir ao encontro destas necessidades. Depois, existem outros muito maiores e que são transversais, mas que nesses, por exemplo, não conseguiremos fazer nada sozinhos, pois temos de ter aqui uma parceria, porque sozinhos, certamente, não conseguiremos dar resposta.
A curto prazo, quais são as principais prioridades?
Uma das áreas que mais me preocupa tem a ver com as pessoas com mais idade e, como eu disse já na altura na campanha, a questão de estarmos perto daqueles que, por exemplo, por algum motivo estão mais sós, ora porque não têm um apoio familiar ou uma rede social forte. Depois, temos aqui os jovens, com os seus desafios normais do século XXI e, ao mesmo tempo, a junção e o equilíbrio entre as gerações, isto é, entre aqueles que já tiveram todo um percurso de vida e os que estão a começar. Portanto, numa primeira fase, queremos perceber, no fundo, como é que nós podemos ser o intermediário para fazer a ponte entre estas gerações. Numa outra fase, claro que olho para a freguesia e noto que ela precisa de ser alavancada e aí, como eu disse há pouco, é a tal questão que não podemos sozinhos, temos de o fazer quer com o município, quer com outras parcerias, ao nível da rede viária, ao nível dos transportes, mesmo ao nível dos equipamentos ou do melhoramento dos equipamentos. Logo, aqui precisamos de um trabalho conjunto. Primeiro as pessoas, mas depois também as infraestruturas, que no fundo vão dar resposta também às necessidades das pessoas.
A pensar nos quatro anos que se avizinham, há algum projeto-chave que gostaria de destacar?
Em construção e para conclusão, muito brevemente, estão as Capelas Mortuárias, que embora sendo algo muito concreto e muito específico até de uma fase final de vida, é tremendamente importante em termos de dignidade, mesmo num momento final, por isso, isso é uma obra tremendamente importante. Temos também em curso o Pavilhão Municipal de Vilar do Paraíso, a obra essa que, como o próprio nome indica, é do município, mas que poderá ter aqui um ponto importante, um ponto-chave para colocar Vilar do Paraíso também num sistema, sobretudo, de promoção do desporto, que precisamos, que não temos e também é uma das nossas preocupações, colocar a freguesia também com uma visão para o desporto. Depois, em termos de obras estruturantes, que já estavam pensadas e que considero que são muito importantes para a freguesia, tem a ver com a linha desta ligação até à beira-mar, ou seja, à Avenida do Mar, que tem ligação desde Laborim que já está feito, que atravessará aqui por perto e que vai ligar à Madalena e depois até ao mar. Temos a questão do TGV, mas que está na fase em que está e que também penso que neste momento é um não assunto. Esteve em cima da mesa, efetivamente, a estação em Vilar do Paraíso, que juntamente com uma linha de metro seria um polo importante, em termos de mobilidade, na freguesia. Contudo, penso que neste momento é extemporâneo, enquanto não tivermos mais informações e mais decisões, também é extemporâneo falar agora nela. Dentro dos nossos projetos, na vertente mais cultural, tínhamos a questão da aquisição da Vila Alice, que já é um projeto que vem de há anos e anos, e que poderia ser, efetivamente, aquilo que também nos falta, porque nós não temos em Vila do Paraíso nenhum anfiteatro, nem um local propício para alavancar a cultura. Temos sim muitas coletividades e que fazem muito bem esse trabalho, contudo mais de freguesia não temos. Todavia, essa já é uma obra que tem que ser depois levada à Câmara. Eu acho que é muito importante para a freguesia, gostaria muito que ela se realizasse, mas não depende só de nós. Por último, claro que gostava muito que a rede viária tivesse uma intervenção séria, porque é das questões que as pessoas mais falam connosco e mais se queixam, porque efetivamente temos uma Estrada Nacional, a 1.15, que toda ela, pelo espaço que passa por Vila do Paraíso, está num estado que inclusive é de perigo, não só o que está neste momento, mas as pessoas ao afastarem-se dos buracos, criam, no fundo. o perigo na condução e sim preocupa-nos muito essa questão também. Nós fazemos o nosso trabalho, comunicamos, ajudamos também os fregueses na comunicação, mas a verdade é que quem passar aqui percebe o estado em que está e como, sobretudo, pode potenciar acidentes.
De que forma é que pretende reforçar a a proximidade entre a Junta de Freguesia e as pessoas, as instituições e as empresas?
A proximidade começa, por muito que isto possa parecer um chavão, por estar presente. Por isso, eu estou cá o tempo inteiro e tento, como disse, estar o mais próximo possível de cada freguês. Faço atendimentos aqui, sem quaisquer problemas, desde que tenha a agenda livre. Os meus colegas do executivo, também dentro da sua disponibilidade, vão para o terreno e falam com as pessoas. Para além disso, já começamos as reuniões públicas deslocalizadas, por isso, fizemos na zona de Cadavão, agora a seguir, provavelmente, iremos para São Caetano, logo, vamos fazendo em locais diferentes da freguesia, uma vez por mês, porque também nos comprometemos exatamente a essa questão. Depois, a desagregação, por si própria, vai trazer, naturalmente, esta proximidade, porque estamos a falar de um território muito menor, em primeiro lugar. Em segundo, é fazer este caminho de dizer que a Junta está aqui exatamente em prol do freguês. Como tal, por exemplo, eu já noto uma diferença na afluência, por exemplo, aqui à Junta de Freguesia, porque muitos serviços não eram aqui tratados, ou então eram encaminhados para a realização online e agora já se nota claramente que as pessoas vêm mais à Junta de Freguesia. Por isso, também é um caminho que se vai fazendo, mas é o estar presente, essencialmente, e disponível para ouvir a população e não ter qualquer problema.
Que medidas pretende implementar para apoiar os idosos e ao mesmo tempo combater o isolamento social?
A Junta de Freguesia tem um centro de convívio a funcionar e aí acho que é já uma aposta, em que tentamos agora, para além de o promover, também trazer mais pessoas para este centro de convívio. Também estamos a trabalhar com a rede social da freguesia, que conhecem a realidade local, de forma a serem responsáveis por irem sinalizando pessoas, por exemplo, que estão mais isoladas e dando a conhecer também o centro de convívio, para durante aquelas horas saírem de casa, terem um objetivo e quebrarem essa corrente de sedentarismo, conviverem com outras pessoas e moverem-se, porque é importante. Eu tenho assistido a algumas das aulas que lá são dadas e noto o entusiasmo e mesmo as pessoas que se calhar têm uma mobilidade mais reduzida conseguem ter um bom desempenho e até conseguem ir muito além das suas capacidades. Por isso, o primeiro foco é no centro de convívio, em potenciá-lo e chegar até mais utentes. Depois, nós temos também as atividades que vamos promovendo, por exemplo, tivemos agora a Festa de Natal com 150 idosos, um número que, numa primeira fase, poderia parecer um bocadinho elevado, mas conseguimos dar resposta. Claro que isto ainda foi numa fase muito embrionária e eu espero alcançar muitos mais, mas pelo menos nesta primeira fase já conseguimos alcançar alguns idosos, que nunca iriam a uma festa destas por falta de mobilidade, combinando com elas e assegurando o transporte. Isto tudo fez a diferença e o objetivo é chegar a mais pessoas, pois queremos criar mais dinâmicas na freguesia para os mais velhos. Depois, também, queremos promover algumas sessões com voluntariado jovem e a possibilidade de irem até ao centro de convívio ou, como eu gostaria de implementar numa fase posterior, até à própria casa do idoso, porque nem sempre conseguimos que eles saiam de casa. Tudo isto em parceria com o nosso Gabinete de Ação Social, com idosos sinalizados e com jovens também eles da nossa bolsa, porque é preciso muita clareza. O ato simples de ler o jornal, de ler as notícias, que parece algo assim básico e, sobretudo, porque nós podemos substituir um bocadinho a nossa televisão que está tão ruidosa, tem um impacto muito positivo junto dos idosos que estão isolados, pois podemos substituir a televisão pelo diálogo, pela leitura, pela discussão, porque isto também é promoção e eu tenho a certeza de que os jovens sentir-se-ão muitíssimo bem a fazer um trabalho destes, até porque eles estão bem formados, têm ferramentas e muitas vezes não as conseguem pôr em prática. Por outro lado, os jovens recebem a sabedoria do idoso, que também pode dar-lhes aquilo que lhes falta muitas vezes, que é a experiência de vida. Neste seguimento, também conseguiremos recuperar algumas tradições, que também será ainda um dos nossos objetivos, da própria freguesia e os jovens podem ajudar-nos muito aqui a fazer este registo e compilação das histórias e das experiências dos mais velhos. A história da tradição moral é tremendamente importante e nós podemos, eu acho que até de uma forma facilitadora e com mais valias para todos, podemos trazê-la para cá e ajuda-nos a combater o isolamento, ao mesmo tempo também, por isso acho que é só articularmos aqui todas estas potencialidades. A Colónia Balnear também pretendemos levar na mesma a cabo. Depois nós somos uma freguesia de Marchas Sanjoaninas por excelência e temos todas as coletividades a participar e pretendo que assim seja e tendo o Centro de Convívio da Junta de Freguesia e tendo o Centro de Convívio também do Centro Social de São Pedro, conseguimos alocar aqui muita gente já com alguma idade, mas que vai também neste espírito de marcha e que se movimenta para fazer isso. Portanto, são tudo atividades que eu acho que promovem exatamente isso.
Quais são as suas perspetivas para o futuro?
Em termos de perspetivas, tenho de ter sempre as melhores, porque só isso é que nos move. Eu e todo o executivo temos a consciência clara das dificuldades e temos a consciência clara do patamar em que estamos e do patamar para onde queremos ir. Isto para nós é claro. Com passos firmes e seguros, por isso sem nos deixarmos levar por deslumbramentos, com questões muito seguras, passos muito sérios, mesmo tomando muitas vezes decisões mais difíceis, mas percebermos que cada ano que passar, nós temos de acrescentar à freguesia, para chegarmos a 2029 e dizermos que valeu a pena este percurso todo que fizemos até aqui. Por isso, eu acho que lentamente, pois não será um processo rápido, nem com encantamento de que vamos fazer tudo, mas sim muito consciente, conseguiremos alavancar a freguesia. Claro que, para isso, há aqui uma série de questões que atempadamente têm que ser resolvidas. Uma delas prende-se com o quadro de pessoal da Junta de Freguesia, porque sem ele é quase impossível conseguir fazer esse trabalho e no nosso quadro temos efetivamente um problema grave, sobretudo, operacional, para resolver, mas que eu também sei que o iremos fazer. Com o quadro mais estável, com alguns meios que também precisamos de adquirir, eu penso que conseguiremos começar pelo mais básico, que é aquela resposta do dia a dia, daquilo que de repente avariou e nós precisamos de consertar, até depois chegarmos a um patamar em que já podemos, por exemplo, contratar algo mais sério, fazer uma obra mais séria e de maior relevo, mas com passos muito seguros e tendo consciência de que nós temos tremendo respeito pelo bem público e isto para nós é uma regra. Nós estamos a gerir o que não é nosso, o que é de todos e a partir desse momento há que ter responsabilidade, saber investir corretamente e, sobretudo, não desperdiçar e não nos perdermos aqui com aquilo que às vezes é natural, porque queremos apresentar obra, mas mais do que apresentar obra tem de ser algo muito consciente, pensado e que nos leve a dar passos seguros.
Qual é a mensagem que gostaria de transmitir à população?
Em primeiro lugar, eu agradeço o facto de terem confiado em nós. Depois, dizer que precisarmos todos da paciência e, no fundo, que acreditem no nosso compromisso com a população, ou seja, como eu referi anteriormente, que não aparecerá tudo feito, mas perceberem que com passos certos, claros, iremos chegar às expectativas das pessoas. Também, quero ressaltar que a participação de cada um é fundamental, porque muitas vezes abordam-me e depois pedem desculpa e eu agradeço a intervenção, porque mesmo passando pela freguesia toda, há locais que nos escapam e quem melhor do que quem vive nos locais, para nos chamar a atenção sobre as questões. Por isso, é tremendamente importante. Aqui, o veículo de comunicação é aberto, não há problema nenhum. Por isso, as pessoas, quer através dos números de telefone, dos e-mails, ou virem diretamente à Junta, abordarem-nos e colocarem as questões dos seus locais, é tremendamente importante para nós. Por isso, no fundo, quero dizer que nós estamos ao lado da população, mas que seria ótimo que a população também estivesse ao nosso lado, nesse sentido de construir uma freguesia que é de todos, porque o melhor para a freguesia é o melhor para cada um de nós, também.


