Levantam-se em vários quadrantes ditos democráticos vozes exaltadas clamando e perorando sobre o aparecimento na Assembleia da República de representação parlamentar do ideário fascista, o qual em crescimento por toda a Europa, apenas se encontrava arredio em países como Portugal, Irlanda, Luxemburgo e Malta.

Este burburinho na maior parte dos casos hipócrita não escapa, no entanto, a uma natural análise sobre uma das principais causas para este ascenso que radica nas contínuas cedências ao populismo pela não resolução dos problemas prementes da sociedade actual, tais como, o desemprego, a injustiça social, a corrupção ao mais alto nível e a escandalosa acumulação de capital nas mãos de um punhado de instituições e pessoas.

O capitalismo, incapaz de sair duma profunda crise sistémica e cujos pólos históricos situados nos Estados Unidos e na Europa sentem escapar-lhes de mão a hegemonia global a que se habituaram, desliza novamente para a tentação fascista a exemplo do que fez no século passado e, como sempre, pelo anticomunismo ataca a democracia e abre a porta ao fascismo, de nada servindo as lições do passado.

Também o Parlamento Europeu se está a preparar para a possibilidade de que uma aliança de partidos nacionalistas possa tornar-se na terceira força política europeia e contudo este mesmo Parlamento Europeu foi teatro recentemente da vergonhosa resolução aprovada pela sua maioria sobre a II Guerra Mundial, que não é apenas grave pela tentativa de reescrever e falsificar a História, mas também é grave por aquilo que representa para a actualidade e o futuro global.

Neste quadro e apenas oito dias mais tarde, o ministro da defesa da Letónia País da União Europeia, não esqueçamos, discursou numa cerimónia comemorativa dos legionários letões que combateram durante a II Guerra Mundial nas fileiras das SS, o braço militar do partido nazi responsável por muitos dos seus piores crimes, incluindo inúmeros massacres, de tal modo que a revista inglesa New Statesman chama às Waffen-SS «a maior máquina de matar judeus da História do mundo», sabendo-se que não foram só judeus os atingidos, mas também comunistas e vários grupos étnicos e sociais.

Aqui se transcrevem apenas alguns pressupostos colocados à consideração dos parlamentares europeus para se perceber as contradições, as mentiras e os objectivos em causa, nomeadamente sobre o porquê do Pacto Germano-Soviético, ignorando ao mesmo tempo o Acordo de Munique entre Reino Unido, França, Itália e Alemanha:

-O Parlamento Europeu está profundamente preocupado com os esforços envidados pela actual liderança russa para distorcer os factos históricos e «branquear» os crimes cometidos pelo regime totalitário soviético; considera que estes esforços constituem um elemento perigoso da guerra de informação promovida contra a Europa democrática com vista a dividir o nosso continente; insta, por isso, a Comissão a contrariar estes esforços de forma decisiva;

-Chama a atenção para a continuação da utilização dos símbolos do regime totalitário comunista em espaços públicos e para fins comerciais, recordando que vários países europeus proibiram a utilização de símbolos nazis e comunistas;

-Observa que a manutenção nos espaços públicos, parques, praças, ruas, de alguns Estados-Membros de monumentos e memoriais que glorificam o exército soviético, que ocupou estes mesmos países, cria condições para a distorção da verdade sobre as consequências da Segunda Guerra Mundial e para a propagação do sistema político totalitário;

-Encarrega o seu Presidente de transmitir a presente resolução ao Conselho, à Comissão e aos governos e parlamentos dos Estados-Membros.

Em resumo, o Parlamento Europeu prepara-se paulatinamente para a existência de uma aliança de partidos nacionalistas, leia-se fascistas, como terceira força parlamentar, mas aprova uma resolução sobre a II Guerra Mundial, exclusivamente destinada a atacar o comunismo e a União Soviética, o País que mais sofreu com a invasão nazi, pois sempre foi o seu principal alvo, mas que acabou por ser essencial no aniquilamento do nazismo, o qual agora ressurge pela mão dos tais países ditos democráticos, aliás, aliados da União Soviética na grande conflagração mundial.

Os parlamentares europeus que aprovaram a resolução acima referida não podem ser considerados ignorantes ou de escolaridade duvidosa, resultando daí que tenham enveredado por um vergonhoso propósito bem definido e calculista que trai os fundamentos da formação da União Europeia e seguramente nos levará a pensar de novo nas promessas de coesão social e desenvolvimento económico em que muitos de nós piamente acreditaram.   

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